Da ponte pra lá

Diário de Bordo: Data Estelar 0402201.7 (ano do Galo)
Devido à enorme falta de conhecimento espacial e um grave erro de leitura no mapa intergaláctico, eu me desviei da rota de Saint Gounceux e me encaminhei para a temida nebulosa de Alkantaris. A força gravitacional local está me causando diversos efeitos colaterais pelo corpo. Temo que meu traje espacial não suporte, uma vez que a nave apresenta danos oriundos de missões anteriores.

Pela janela da nave “MARAN-04” vejo a terra se distanciando. Não é a primeira vez que enfrento a solidão do espaço e certamente não será a última. No entanto ser o único tripulante e o fato de ter suprimentos e combustível limitados faz dessa missão uma viagem sem precedentes.

O barulho dos propulsores soam como música quando se está no espaço. Sentir a presença de vida é fundamental para que não se enlouqueça nessa vastidão que pode durar um eternidade e nesse caso em particular as máquinas cumprem bem o seu papel.

Desse ponto em diante sigo em modo de voo autônomo e a não necessidade de mexer nos controles da nave não me exime de, com frequência, conferir se estamos na rota certa.

A propósito, como eu já havia citado, a rota precisa de correção. 
Será necessário uma intervenção minha a qualquer momento, dessa forma prossigo atento e apenas aguardo o mais oportuno.

A essa altura, com a maioria dos indicadores de voo desregulados, me oriento através das poucas constelações e planetas que reconheço. O comunicador permanece sem ruído algum e dentro de mim cresce um silêncio tão avassalador que é capaz de suplantar o mais alto dos ruídos.

Pela janela admiro uma quantidade enorme de lixo que se desloca pelo espaço. Satélites e naves reduzidas a sucata espacial.

Verifico meu nível de oxigênio… Ao menos uma boa notícia essa noite. Opero com a carga quase completa de oxigênio e, não fosse um pequeno desgaste no filtro de CO2, poderia eu estar respirando ares tão benéficos e saudáveis como o dos Alpes Suíços.

Eu comeria um chocolate a essa altura!

Tento me manter alerta, pois se existe algo que salva vidas no espaço é estar alerta. De alguma forma não exatamente controlada por mim, mas talvez pelo meu nervosismo, meus batimentos cardíacos garantem que eu receba um absurdo fluxo sanguíneo necessário para que, junto a uma dose de adrenalina, eu consiga reagir a tempo a alguma emergência.

Frio e escuridão por toda parte…eu sinto falta de casa.

Fui obrigado a deslizar pelo lado de fora da espaçonave e me acomodar na cabine principal para obter uma visão melhor do espaço.

Nesse momento meus níveis de combustível exigiam uma nova investida e eu resolvi desacoplar do módulo de convivência. Ao tomar essa decisão, percebo que alguns comandos voltaram a funcionar e, com isso, eu poderia voltar à minha rota original sem maiores prejuízos. Corpos celestiais ao meu redor… Em quantidade… Quando pequeno me lembro que sempre quis tocá-los. 
Hoje continuo os olhando com a mesma curiosidade e admiração, mesmo que conheça um grande número deles a fundo, porém continuo curioso e, mesmo de longe, sigo certo de que os conheço centímetro a centímetro. Denver, nome carinhoso dado ao piloto automático, em homenagem ao cantor de ‘Im Leaving’, faz um bom trabalho, o que não torna a viagem menos tensa.

Ouço vozes!

Difícil saber a origem, no entanto, o baixo nível de clareza me faz pensar que eu mesmo as produzo… Seriam alucinações e essa altura?

Não me parecia mesmo que eu estava com sorte!

Aquele som embrulhado chegava ao meu ouvido de forma estranha e junto a ele um formigamento no braço esquerdo.
Cada vez mais forte era o formigamento, como se alguém me apertasse o braço, e o som começava a se aproximar até que finalmente, de forma identificável, uma voz grave falou em tom calmo e segurando meu braço:

-Amigo esse é o seu ponto, né?

Respondi ainda fora de órbita:

-Ahn!? Sim, eu desço aqui!

Foi dessa forma, após uma viagem tensa e uma soneca gostosa, estava eu prestes a começar mais uma noite de bebedeira com a turba de São Gonçalo.

Eu realmente comeria um chocolate aquela altura!

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