Rio de Janeiro feelings

Eu tenho pensado demais nas dificuldades em se viver no Rio de Janeiro. Atualmente a crescente falta de segurança, o descaso dos órgãos públicos e a enorme falta de bom senso de alguns moradores fez do Rio a cidade a qual muitos amigos tem preferido chamar de lar e não de casa.

Não me soa como covardia ou medo optar por viver em outro país, mas lá no fundo eu acho que não é essa a resposta. Acredito que eles tão pouco, uma vez que sempre que possível falam em voltar a respirar ares cariocas.

Mas na boa…façamos um simples exercício!
Feche os olhos por uns segundos, pensa no Rio de Janeiro e me conta o que lhe vem a cabeça. (eu peço coisas sem sentido…continua lendo aí, por favor) Fechar um olho só também não adianta!

Faz o seguinte, deixa isso pra depois e deixa que te falo o que ‘sinto’ quando fecho os olhos e penso aqui na cidade, pode ser?

- Eu ouço algo! Eu ouço um falatório! Você não tá ouvindo?

A primeira coisa que me veio a mente foram vozes…um monte delas…tipo fofoca, mas não essas ‘picuínhas’ criadas sem propósito e com o intuito apenas de arrumar um caô e manchar a imagem alheia. Eu falo daquela fofoca sadia e saudável como as que a minha mãe tinha sobre o muro de nossa casa enquanto conversava com a vizinha.

Eram conversas sobre o tempo, a novela, o surto de piolho na minha escola e aquela receita de bolo que quase não levava farinha branca.
Era fofoca com conteúdo, sacas?
Um papo que se estendia do muro para o portão, me levava ao colégio, parava na fila da padaria, na farmácia e voltava para casa.

E isso é muito Rio, pois carioca conversa e muito! Fala com qualquer um a qualquer hora…Ô povo simpático!
É gringo? Moleza! A gente sabe fazer a outra pessoa entender a palavra paralelepípedo só com duas piscadelas graças ao Imagem & Ação.
Quem nunca deu uma de maluco esticando braço pra lá e pra cá e falando alto (como se o problema fosse auditivo e não o idioma) para tentar ser entendido por alguém que não fala português? 
E sempre resolveu, pois a gente gosta de falar e de se aconchegar numa boa conversa até se sentir a vontade e relaxado!

Voltando ao exercício mental:
Eu vejo…Bom humor!
Isso aí, tá rolando umas gargalhadas por aqui!

Não sei você, mas eu não consigo ver essas conversas anteriores sendo feitas por pessoas de cara amarrada. Talvez um leve desconforto quando o time do coração perde, mas fora isso é difícil roubar nosso sorriso.
É aquela coisa do ‘já vem de berço’ sabe como é?

A gente é alegria demais da conta! Cês não sabem o tanto do meu sorriso de orgulho de poder escrever essa parada com propriedade no assunto.

E quem confirma essa alegria não são as pesquisas. Não essas que se envia por computador e se marca um monte de X enlouquecidamente.
Eu estou falando das pesquisas de olho no olho!

O Brasil no geral é agraciado com essa felicidade, mas o Rio…Meu amigo, o Rio devia ter os direitos e a patente universal do sorriso aberto e sincero.

Sorrir é nosso aperto de mão oficial!

E nosso sorriso é de corpo todo! Daqueles que desarma, instiga, seduz, convida, aperta, solta e em alguns cria laços indissolúveis.

‘‘Ôpa…esse quarto não é meu! Como parei aqui?”
(Acordar na casa de alguém que acabamos de conhecer. Quem nunca?)

E daí para começar um xurras, pegar uma praiana, ou tomar um gelo na mureta é só um pulo.

Olho fechado e vamos lá…anota aí: Persistência!

Taí outra característica intrínseca a esse Brasilzão. E te pergunto:
- Já deu um rolé pelo centro da cidade?
- Já pegou o trem Central x Japeri?

Mermão, se vender paçoquita em um trem abarrotado de gente, por um preço ínfimo, com mais 15 caras vendendo a mesma mercadoria que você não é persistência…eu não sei o que é.
Da para dizer o mesmo da galera que vai para rua e joga um isopor, com esse delicado sol do Hell de Janeiro, na carcaça e ainda corre o risco de perder o pouco que tem para a guarda municipal.

Essa é outra característica que a gente tem entranhando na ponta dos dedos, mais precisamente abaixo das unhas feito sujeira, que é nosso instinto de sobrevivência!
Pode jogar a bomba que for no nosso colo que a gente se vira bem pra caralho!

A essa altura você está me martelando mentalmente:
- Carioca só tem coisa boa, né? Sei disso!

E isso está longe de ser verdade, pois tem coisa ruim demais! Eu comecei falando isso, mas a questão é que a gente aprendeu a lidar com elas de forma magistral. Sabe o copo meio cheio? Pois é…aqui os copos nunca descem da metade! ;)

Bom…talvez eu não devesse falar, mas como o exercício consiste nisso eu vou botar para rolo o que talvez seja o nosso maior ponto fraco (de uma maneira positiva obviamente) e que desarma aquele carioca malandrão estereotipado que você está imaginando aí desde o começo do texto.

A gente morre de Saudades!

Não é sentir falta, pois sentir falta é outra coisa! Falta a gente sente do horário de verão, de assistir trapalhões aos domingos e da cerveja nos intervalos de aula da faculdade.

Saudade é mais forte, mais pessoal, mais gente do que coisa!

E saudade é sentimento tão nosso que além de ser uma palavra intraduzível (ou que não se consegue significar com apenas outra palavra equivalente) em qualquer língua que não seja a portuguesa, escrevemos a torto e a direito essa palavra que nem nós mesmos sabemos ao certo como definir ou explicar em sua totalidade. Porque não sabemos mesmo explicar, saudade a gente sabe sentir!

É aquela saudade sofrida por dentro que se remói, se embola, se contrai, se expande, que grita, mas que quando entra em ebulição e vem pro rosto vira sorriso de canto de boca. Aquele sorriso gostoso que da pra identificar de longe.

Saudade carioca é catarse!

E que fique claro que a gente não restringe essa saudade as pessoas conhecidas, amigos, parentes e ao bichinho de estimação da família.

Nossa saudade é aquela que já nasce antes mesmo de darmos tchau e que cresce na mesma intensidade para aquela galera de Minas que virou ‘bróder’, pros gringos que voltaram para casa com metade do corpo rosa por causa do sol e daquela menina que dividiu um carnaval com a gente e que tentava imitar nosso sotaque puxado pro X na hora de falar biscoito.

E o Cristo fica ali só filmando cada um de nós e esperando de braços abertos porque sabe que as vezes a gente só precisa de um abraço de pai.

E por falar em sol…pode parecer piegas, mas aqui a gente se despede dele ao fim do dia.
É meio ritualístico e quem olha de fora não entende bem a primeira vez, mas se você estiver em Ipanema por volta das 18h e presenciar esse momento tenho certeza que vai entender.
A gente aplaude como quem diz:
- Parabéns pelo espetáculo meu camarada! Amanhã a gente se esbarra outra vez!

É quase um pacto firmado com o astro rei dizendo implicitamente:
- As coisas podem estar difíceis ultimamente e nem sempre as soluções aparecem na velocidade que a gente espera, mas quer saber…Eu não vou arregar!

E não arregamos porque no fundo temos consciência desse pedaço de paraíso herdado e somos gratos demais por isso!
Aos poucos a gente está aprendendo a arrumar a casa e mantê-la organizada. Carioca e bagunceiro mesmo, uma visita de surpresa numa quinta-feira na casa de qualquer um e você vai confirmar isso, mas não significa que a gente não valorize e não ame absurdamente cada pedacinho dessa bagunça.

E essa arrumação não é só pra gente e pra quem é de casa, de forma alguma, é pra você também!
Porque aqui a porta está sempre aberta e a todo momento tem futebol, música, festa, café fresquinho, pão na chapa, feijão amigo e aquela cerva geladíssima para receber as visitas.

A gente só pede uma coisa em troca!
Vem de braços, sorriso e peito aberto, pois aqui pode não ser a sua casa, mas a gente tem certeza que você vai embora sabendo o que é saudades!

Minha casa em dia de sol ;)

Se você não é do Rio fica aqui um breve glossário da cidade:

gelo - cerveja
rolé
- dar uma volta; Rolê é nome de gola que se usa em S.P
xurras - o famoso churrasco da galera
praiana
- praia
botar pra rolo - entregar; mostrar
parada
- essa palavra serve pra quase tudo, mas a gente geralmente usa quando esquece o nome de algo ou quer ser muito genérico. 
ex: - pega essa ‘parada’ ai pra mim! 
- a azul ou vermelha?
- tanto faz, qualquer ‘parada’ serve!
filmando - prestando atenção
biscoito
- nunca será bolacha
mureta
- muro que fica no bairro da urca (zona sul) e famoso por abrigar uma bela vista panorâmica da cidade, gente bonita e um gelo sincero
arregar - desistir feio; aquela desistência que mancha a honra do indivíduo

E se você curte a cidade fique a vontade para ler isso aqui que escrevi aqui sobre o Carnaval carioca http://bit.ly/naomeleveamal ;)

Aquele Abraço!