
SAINDO DE CARTAZ
A cultura de um povo é essencial para formar sua identidade, nossa memória. É o que nos difere dos animais. As artes durante séculos foram fundamentais para guiar e iluminar os caminhos de uma sociedade que caminhava para sua modernização, uma evolução tecnológica e de pensamento.
Nada justifica, todavia, a repreensão das mais diversas formas de expressão que o mundo e especialmente o Brasil tem sofrido nos últimos anos. O cinema principalmente, e os orgãos de fomento e regularização tem sido a vítima de forte boicote, ameaças, censuras e desmonte.
Cinema foi inventado há pouco mais de um século para servir como entretenimento barato e atração para bares, depois ficou sofisticado com som, tela grande, widescreen, grandes anfiteatros, o starsystem de estrelas de hollywood e acabou virando um evento de luxo para elites. Com o aumento da violência urbana e a chegada da televisão, os icônicos cinemas de rua foram fechando e dando lugar para igrejas, estacionamentos, ou cinemas eróticos. E os cinemas de shopping multiplex viraram atração com caríssimas bombonieres, projeção digital, 3D, com grandiosos filmes eventos, e franquias que se multiplicam fazendo bilhões.
Isso tem provocado muita discussão sobre o valor do cinema como arte ou entretenimento, qual é o lugar do filme, o papel do streaming na distribuição, que tipo de filme é mais digno de ser considerado Cinema. Mas a discussão mais relevante, inclusive para essa redação, é como o Cinema pode ser uma ferramenta transformadora, democrática, e de poderoso impacto social. Em muitos países o audiovisual faz parte da estratégica propaganda de um governo. O cinema americano que em 2019 chegou a ocupar com um único filme 92% das 3000 salas de cinema que o Brasil tem hoje, enquanto que um filme brasileiro, falado na nossa língua e premiado mundialmente como Bacurau, precisou se contentar com 300 salas, e isso já é um número alto.
Nessa linha de pensamento precisa-se inverter a lógica. Descentralizar as salas dos grandes centros e levar para onde carecem. Interiores, cidades menores, periferias, escolas. Seja de forma itinerante, ou com cinemas em parceria com a iniciativa público-privada. E o povo precisa se ver na tela. É inadmissível que um produto que é tão bem recebido e aclamado lá fora como o cinema brasileiro, aqui mesmo em casa, não tem janela para ser exibido. Um trabalho de formação de público precisa ser repensado e junto à valorização das histórias brasileiras.
E também é urgente que a população e governos se convençam da relevância da cultura e das artes para um povo. As produções culturais impactam na economia, gerando empregos, profissionalizando técnicos, movimentando o PIB e cada vez mais trazendo orgulho para nós brasileiros pela sua qualidade representatividade, diversidade e reconhecimento.
