Da política e do sofrimento

Aos 10 anos, chorei com meus pais pela derrota das diretas. Aos 11, chorei a morte de Tancredo. Aos 15, sofri desesperada a vitória de Collor. Aos 18 comemorei insanamente a queda de Collor. Aos 20, chorei copiosamente por horas a decepção por meu pai votar no Fernando Henrique. Dos 22 em diante, a política eleitoral ganhou o espaço que sempre deveria ter tido na minha vida. Importante, mas não central. O que mudou? Meu pai morreu, e a vida ficou mais difícil e menos pequeno-burguesa.

Eu sei exatamente o que a Cássia de 20 anos diria para a Cássia de 42. E eu lamento muito por ela. Porque ela se sente muito melhor do que a de 42. Ela despreza a de 42. Ela se acha mais relevante para os pobres e miseráveis do mundo, porque (diz que) não consegue ser feliz enquanto eles são pobres e miseráveis. (Pior que de fato não consegue.) Só que a verdade é que a única diferença entre as duas é que a de 20 sofre muito mais com o que não pode mudar.

Mais tranquila, a de 42 está focada em conviver bem e ser correta com quem a cerca e a ensinar à filha as noções de igualdade, justiça e respeito que foram a motivação primeira de tanto sofrimento desperdiçado das duas primeiras décadas. A energia antes dedicada ao sofrimento, ao desespero e à raiva contra a injustiça inerente à humanidade está focada na dificílima tarefa da busca da leveza e da mudança do que é possível mudar no que e em quem a cerca.

Aos amigos que estão sofrendo demais pelo que está acontecendo hoje em Brasília, desejo do fundo do coração que suas vidas continuem tão boas como hoje para poderem seguir sofrendo com a macropolítica. Mas lembro que sempre dá pra fazer outro uso dessa energia.

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