Racismo: Três perguntas para Rogério Santos

“Desde cedo, a mãe da gente fala assim:
‘Filho, por você ser preto, tem que ser duas vezes melhor.’
 Aí, passado alguns anos, eu pensei:
 Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses… por tudo que aconteceu”

O trecho da música “Vida é desafio”, dos Racionais MC’s, é tido como um mantra para Rogério Santos. O montenegrino, mais conhecido como Birita entre os amigos, é uma das principais vozes do Vale do Caí contra a desigualdade racial. Aos 49 anos, formado em Jornalismo, possui MBA em Marketing e está cursando Doutorado em Sociologia. Ligado à Central Única das Favelas (Cufa), tem uma vasta trajetória no combate ao preconceito. Boa leitura!

Formado em Jornalismo, está cursando Doutorado em Sociologia

1 — Recentemente, presenciamos uma polêmica às vésperas da cerimônia do Oscar por não haver nenhum indicado negro. O que isso representa na luta por igualdade?
Para nós, negros brasileiros, a igualdade está muito distante em comparação aos negros americanos, que já dispõem de várias políticas raciais positivas. A polêmica no Oscar ocorreu pelo fato de 2015 ter sido um ano com alguns filmes protagonizados por excelentes atrizes e atores negros, mas nenhum foi indicado à premiação. Tanto que a Academia, responsável pelos indicados, reagiu e assumiu que a questão da “diversidade” era importante, dando início a um debate qualificado no mundo inteiro. Não só um debate, mas uma grande mobilização entre famosos cineastas, atrizes e atores negros, projetando um boicote ao prêmio. Seria maravilhoso que tivéssemos uma mobilização dos negros famosos no Brasil em busca de políticas públicas reais. Algo praticamente impossível.

“Se nada for feito, as estatísticas do IBGE continuarão tendo brancos no topo da pirâmide. E, na base, os pretos”

Porém, não sou defensor da política racial americana, do apartheid ou mesmo do antagonismo entre brancos e negros, sou totalmente contra revanchismo, preconceito ao contrário ou qualquer ligação com essas ideias. O fato é que não quero a continuidade do preconceito atual. Se nada de concreto e imediato for feito para possibilitar que o negro ascenda socialmente, continuaremos sempre nos vangloriando de nossa democracia racial, da mistura e da convivência pacífica entre cidadãos de todas as cores. Mas na hora que cada um for pra sua casa, “alguém” sempre vai entrar no seu carro, buzinar para o porteiro do condomínio e subir de elevador, só que esse “alguém” continuará não sendo o negro. Se nada for feito, as estatísticas do IBGE continuarão tendo brancos no topo da pirâmide. E, na base, os pretos. Não busco a inversão disso, quero que seja formada uma outra figura geométrica, em que eu veja que não apenas poucos (em sua maioria branca) sejam os privilegiados em todos os índices, e que tantos na base (majoritariamente negros) não sejam os miseráveis.

Birita ao lado do rapper, escritor e ativista MV Bill

2 — Que impacto a política de cotas teve na sociedade brasileira na última década?
 
É um impacto mínimo relacionado aos números. Daqui a 10 anos teremos a matemática real dos resultados das cotas. Por ser recente, ainda não podemos tabular os dados na questão social e financeira. A política das cotas foi maravilhosa no que se refere aos debates sobre a questão racial, pois muitos brasileiros acreditam até hoje que não existe racismo ou desigualdade racial no país. Isso nos lembra que o racismo brasileiro é tão sofisticado que alguns negros (com racismo interiorizado) sentem vergonha das cotas, achando que a culpa da opressão vivida é dele próprio.
 
É inconcebível que fiquemos esperando passivamente as soluções chegarem do céu. Estamos à espera de um milagre desde 1888. Se não botarmos o pé na porta, incomodando e criando desafetos pelo caminho, as soluções não chegarão nunca.

“É inconcebível que fiquemos esperando passivamente as soluções chegarem do céu. Estamos à espera de um milagre desde 1888”

As pessoas que se dizem contra as cotas acham que o caminho é exatamente esse: seguir esperando uma reformulação no ensino de base para que nossa juventude preta, que sempre está à margem de acordo com as estatísticas (piores taxas de desemprego, presidiários, mortalidade urbana, salários baixos, etc..), tenha a chance de concorrer em paridade com os filhos da elite em busca de uma formação qualificada. Vale ressaltar que, em sua esmagadora maioria, essa elite de hoje tem o mesmo perfil desde 1888, ou seja, brancos de boa fé e muito bem intencionados. E nada mais natural, já que apenas perpetuaram a riqueza e o domínio, sem querer abrir mão de nada, o que é, repito, natural para eles. No entanto, finalmente a sociedade brasileira passou a ir contra essa naturalidade que mantém tudo como sempre foi, com a felicidade caminhando para os braços de uma única parcela da sociedade, cuja cor é, “por acaso”, clara.

Com o rapper e vocalista dos Racionais MC’s, Mano Brown

3 — “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro…” O refrão da música do Rappa ainda faz sentido no Brasil?
 Com certeza, faz muito sentido. O refrão traduz a relação do negro com a polícia. Ser negro no Brasil nos torna suspeitos sempre, ir para parede sempre, ser parado e revistado nas blitz, ser olhado de outra forma pelas viaturas e, muitas vezes, processados sem provas. As formas que a polícia aborda homens brancos e negros são diferentes.

“Se o Brasil é misturado, por que a maioria dos jovens assassinados é negra?”

É preciso que haja uma reeducação das polícias Militar e Civil para mudar o padrão de abordagem, que já chega suspeitando que o negro é bandido. Óbvio, os policiais são oriundos da mesma sociedade em que os negros estão marginalizados, condenados à miséria econômica e social e propensos à cooptação pela estrutura do crime do varejo. Não podemos esquecer que quem mais morre pelas mãos das instituições de segurança no Brasil são jovens negros. Sendo que em 88% dos casos, as vítimas não têm envolvimento algum com o crime. Ou a Polícia mata preto porque é racista ou os projéteis gostam de nós. Se o Brasil é misturado, por que a maioria dos jovens assassinados é negra? Vejam a sofisticação do racismo brasileiro: se somos misturados, como é que o diabo da bala enxerga mais os pretinhos?