imagem: Mosh Studios

1, 2… gravando

Minha adolescência foi muito boa!

"Essa galera não é mole não, essa galera!"

Era sexta-feira e estávamos nós todos com aquela ansiedade para entrarmos no estúdio no dia seguinte. Seria nossa primeira vez numa sala de gravação, depois de alguns meses de pré-produção, muita confusão na preparação e ensaios. As músicas ganhavam corpo e uma sonoridade além da nossa capacidade de imaginar. E outras coisas estavam por vir, em construção nas pautas do nosso produtor.

A gravação ocorreu no Studio 108, nas Mangabeiras, Belo Horizonte — até hoje não consigo me localizar naquela cidade! O Jota Quest estourava nas paradas de sucesso com seu primeiro disco e estávamos no mesmo estúdio (e ainda contrataríamos o mesmo trio de metais que gravou aquela swingueira toda). Optamos pela gravação analógica, porque o digital estava surgindo e a hora era mais cara. Uma decisão pragmática. Mas existia uma crítica ferrenha ao digital, principalmente por parte do Lobão, já em decadência. A nova tecnologia não era capaz de capturar os harmônicos com propriedade e nem produzir um grave limpo. Coisas que só ouvidos treinados e chatos conseguem perceber (e não era o meu caso!).

Se você imaginou uma banda inteira tocando para o técnico gravar, se enganou, meu bem! É instrumento por instrumento e a bateria é a primeira. Éramos tão principiantes que estávamos adorando a gravação da batera e achando tudo mundo lindo! Um ia no violão, outro cantando para fazer a guia e o nosso baterista sofrendo no aquário, atravessando tempos e compassos. Mas nada disso era importante!

Quando se entra no estúdio, o único tempo que existe é o Período, que são quatro horas. Ao contratar períodos, o dia — ou a noite? — torna-se todo seu. Não sabíamos bem ao certo se do lado de fora da casa havia luz ou não. Até o momento quando o estômago de alguém reclamava de fome.

Aquele final de semana, 2 e 3 de março de 1996, ao mesmo tempo que era significativo para nós, foi triste. Recebemos a notícia da partida de um amigo. Houve comoção, porque crescemos juntos, e todos estávamos entre os 19 e os 23 anos, uma marca quando ninguém imagina a interrupção da vida.

Na república do nosso vocalista e baixista, a simples menina do inteiror que ajudava com os serviços domésticos tinha um problema de audição significativo. Isso afetava sua pronúncia, nos garantindo boas risadas. Acho que ela sabia disso, era a atenção da casa e contava com o carinho e cuidado de todos por sua nada mole vida.

Ela, comovida e também sem graça com o o chororô de todos, sem entender ao certo a notícia que havia chegado, via na televisão a morte dos Mamonas Assassinas. Logo, chegou até o nosso baixista, e disse: "meus pêsames, vi na televisão sobre seus amigos." Todos ficamos com um "quê?" estampado no rosto, quando fomos para a sala conferir a notícia. Teria sido tão trágica a ponto de um acidente numa cidade do interior mineiro se tornar matéria de jornal? Foi quando soubemos do acidente dos Mamonas.

Era um misto de riso incontrolável com lágrimas e a pobre interiorana sem entender nada. "São eles os seus amigos?". Era um raciocínio lógico, estávamos ali por causa da música. "Não, não são eles, mas também lamentamos."

Neste final de semana oficializamos o jargão do nosso produtor sobre nós: “Essa galera não é mole não, essa galera!” Ele sempre repetia a primeiras palavras da fala dele, e nós caíamos na risada. Escolado, viu que era uma situação sem retorno!

A banda não existe mais, só lembranças boas. Imagine sete primos juntos, pouca bagunça não fazíamos. Mas foi um tempo bom, tivemos uma adolescência muito produtiva e responsável. Passados 20 anos, temos colhido legados diversos deste período e hoje lamento pela maioria dos adolescentes não terem oportunidades e experiências construtivas como nós.

As memórias estão vivas, a ponto de ver as cenas se reconstituindo, gravadas numa boa lembrança!

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