6 realidades sobre a difícil relação do brasileiro com a língua estrangeira

O curso de inglês é bom para quem?

Há quantos anos você estuda inglês? Já se interessou em estudar outro idioma, como o Espanhol, Francês ou Italiano? Pensou no mandarim, afinal, estamos no início da invasão chinesa. Mas chegou nos Estados Unidos e não conseguiu se comunicar. O que aconteceu com os tantos anos no cursinho de inglês? Esta realidade tem feito muitos brasileiros perderem oportunidades. Alguns se dão conta do problema, outros não. Isto tem sido um fato comum e não fiquei fora da lista. Mas os anos de experiência fora do Brasil me fizeram perceber algumas coisas:

1) No Brasil (quase) todo mundo estuda inglês, mas ninguém fala

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) de 2011, contabilizam 57 milhões de estudantes no ensino básico brasileiro, sendo 34,7 milhões no Ensino Fundamental e 9,1 milhões no Ensino Médio, período quando os alunos passam a ter contato com a língua inglesa, pelo menos. Isso faz do Brasil um dos maiores países em número de estudantes do idioma fora dos países nativos. No entanto, a baixa qualidade do ensino da língua estrangeira pelo sistema oficial ministrado em escolas públicas e privadas não qualifica os alunos para o processo de entendimento básico — falar, ouvir, ler e escrever — , obrigando os mais interessados a buscarem por cursos em escolas privadas de idiomas.

O Brasil tem cerca de 70 redes de idiomas que contêm mais de 6 mil filiais. Pesquisa da Education First, empresa presente em 55 países provendo cursos e intercâmbios, aponta o Brasil com baixa proficiência na língua inglesa, ocupando a posição 38 de 60 países. A existência destas escolas demonstra a falência do método tanto do sistema público quanto dessas franquias, pois elas pouco tem ajudado reverter a mentalidade que causa tal situação.

Assim, preciso explicar que no Brasil todo mundo estuda inglês, mas ninguém fala.

2) O sotaque português atrapalha. Foco no fonema, não na gramática

Quantas histórias você já ouviu de uma pessoa que sempre estudou inglês mas não foi compreendida ou conseguiu falar quando viajou? Acredito que algumas vezes. Essa tem sido uma realidade constante dos brasileiros no exterior. Boa parte do problema estava na dicção, pois poucos professores atentam para a questão fonética.

Padrão internacional para os fonemas. Encontrados nos bons dicionários logo após o verbete, mostra como se pronuncia a palavra.

Raramente se fala da questão fonética nas escolas de idiomas brasileiras como fator principal para uma boa comunicação em outra língua. Muitos bons professores nunca pisaram fora do Brasil e isto pode ser uma causa para este lapso. Não damos conta que a fala é carregada do sotaque português, fator determinante para ser ou não compreendido. Imagine o contrário: um americano falando português com o sotaque inglês.

Este problema pode-se agravar em países cujo inglês é a segunda língua oficial, pois os locais promovem modificações na pronúncia. No mundo árabe, o som para 2 (two) é o mesmo que "to". Árvore (tree) é a mesma pronúncia para 3 (three). No Japão, quem fala inglês geralmente acrescenta um "uru" no final. Milk vira "milkuru". No caso do português, as palavras do inglês aportuguesadas têm sonoridades e tônicas nos lugares diferentes. São detalhes que farão o nativo lhe entender ou não.

Se você não tiver domínio da fala, pode ser um desastre!

3) A mentalidade dos cursos de inglês no Brasil é ultrapassada

A lógica do ensino brasileiro é conteudista. Primeiro ensina-se estrutura gramatical e, quando possível, ensina-se a falar — se até lá o aluno não tiver desistido! — O processo natural é o contrário. Onde resido, no Oriente Médio, as escolas de idiomas têm aulas quatro vezes por semana com duração de 2h30min. Esta alta exposição da língua faz com que os clássicos níveis básico, intermediário e avançado sejam percorridos em até 2 anos de estudo. O impacto no processo de aprendizado é altíssimo. Soma-se positivamente a isso o fato de muitos estarem falando inglês fora do ambiente da escola. Não é raro vermos pessoas usando dois idiomas numa conversa descontraída.

O estudo da língua, seja ela qual for, deve ter seu enfoque na capacidade de fala. A parte gramatical vem como consequência. Muitos pedagogos levantarão vários argumentos favoráveis ou contrários a esta visão. Mas considerando a realidade — o ato de se comunicar —, o fato é: sou compreendido e tenho capacidade de compreender o outro? Com as ferramentas atuais disponíveis no Brasil, está claro que será um alvo de difícil alcance.

Afere-se que o modelo brasileiro favorece a escola particular de idiomas, pois o aluno passa somente 50 minutos por semana exposto a língua. Ao sair dali, só terá contato na próxima aula, se não faltar! Para aprender são necessários anos. Caso realize-se uma pesquisa, perceberá o algo grau de evasão causado pela frustração dos estudantes por não conseguirem progredir.

4) O brasileiro perde oportunidades no exterior

As empresas brasileiras estão se consolidando e algumas delas são importantes concorrentes no mercado mundial, internacionalizando seus negócios. Vale, Ambev, Gerdau, BRF Foods são algumas delas. Elas precisam mandar brasileiros para os escritórios abertos no exterior, mas muitos perdem a oportunidade pela barreira da língua.

Há o caso dos brasileiros que trabalham em multinacionais, como Nestlé, Samsung, Volkswagen, dentre outras, mas não se candidatam a postos no exterior por falarem somente o português. O Brasileiro é bem visto no exterior por seu carisma, pela boa adaptabilidade com as pessoas e por ser criativo. Estamos fechados para o mundo que se abre diante de nós.

5) Não saber outro idioma contribui para o isolamento do Brasil

Como consequência do fato anterior, defendo a hipótese do Brasil isolado: não o é legalmente, mas o é de fato. A língua tem grande peso neste processo. E muitos não se arriscam nem ao turismo.

Existe também o movimento contrário: um bom profissional, professor ou estudante, terá de aprender o português caso queira residir no Brasil. Esta questão restringe o intercâmbio de pessoas. Os estrangeiros deixam de se candidatar para trabalharem no Brasil porque no escritório da multinacional só se fala o português, para ficarmos somente neste nível. Quem mora nos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio percebe o grande afluxo de pessoas de todos os lugares e nacionalidades.

O problema é amplificado se a família acompanhar na mudança de país, pois nossas escolas, sinalizações de ruas, rótulos de produtos e outros tipos de informações públicas relevantes são em português somente — mas é preciso salientar a existência da escola internacional, adepta do modelo americano e onde as aulas são lecionadas em inglês — . A inexistência de informações bilingues é uma queixa recorrente dos turistas no Brasil.

Empresas e universidades deixam de realizar investimentos no Brasil, simplesmente porque elas precisam adaptar todo seu conteúdo para o português ou não encontram no mercado profissionais que dominam seu idioma oficial para trabalharem e servir de ponte entre ela o contexto do novo país sede. Isto não implica a exclusão do Português, mas a impossibilidade de trabalhar com o segundo idioma e ter as duas línguas como oficiais para o negócio.

Soa inconcebível uma universidade brasileira oferecer cursos em língua inglesa ou espanhola, fato comum fora do país. Lembro de uma pós-graduação que fiz quando os demais colegas discutiram com o professor por trazer textos em inglês. Não lemos jornais estrangeiros, muito menos produções acadêmicas ou projetos empresariais.

Um exemplo do movimento contrário a esse, países do Oriente Médio estão trazendo grandes grifes e seus professores para lecionarem, bem como estimulando empresas a abrirem negócios por lá. Os campi e escritórios são uma verdadeira Babel! É uma realidade onde, no final, todos ganham.

O Brasil perde muito pela falta do estrangeiro em seu ambiente comum. Deixamos de ter outras referências, que muito ajuda no desenvolvimento e nos momentos de crises.

6) Há como furar o bloqueio e resolver a questão da língua

Resolvi o problema com professor particular. Ignore os cursos, encontre um bom profissional que tenha um método de ensino estabelecido e aplique seu dinheiro ali. Os resultados aparecerão em um tempo muito menor e de forma eficiente. Só consegui desenvolver desta forma, tanto no Brasil quanto no exterior, pois mantenho as aulas particulares mesmo residindo fora.

Mas não se iluda, o desenvolvimento de um segundo idioma só ocorrerá com o tempo e imersão, convivendo com pessoas e ambientes onde a forma de comunicar não seja o português.