A Fórmula 1 e o fim das Grid Girls

Quando as vozes ecoam e mudam a sociedade

No novo tempo, apesar dos castigos
De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga
Pra nos socorrer
Ivan Lins & Vitor Martins

O circo da Fórmula 1 está em reboliço com o fim das Grid Girls. A nova dona da F1, a Liberty Media Corporation, anunciou o fim da participação das modelos no grid. Elas seguram uma placa ou um guarda chuva anunciando a posição de cada piloto, expondo a marca de um patrocinador. A Liberty estaria se alinhando com os movimentos que repensam o papel da mulher, neste caso no esporte automotivo, ou seria uma jogada de marketing?

Há décadas, a presença das modelos na preparação para a largada. Motorlat

É mais do que corrida. É exposição de marcas

A Fórmula 1 tornou-se um grande empreendimento. É um circo patrocinado por grandes grifes premium, de luxo e empresas de tecnologia. É um ambiente de negócio que percorre 20 países durante um ano. Em 2016, ano da negociação, a F1 faturou US$ 1,38 bilhão. Pela televisão cerca de 1,4 bilhão de pessoas acompanharam o espetáculo em 2017.

Bernie Eclestone foi o responsável por transformar a F1 no bilionário espetáculo atual. Ele a vendeu para o conglomerado americano Liberty Media Corporation em setembro de 2016.

O que estava por vir sob a gestão americana? Altas expectativas. Um ano e meio depois, os novos donos anunciaram o fim das Grid Girls, após décadas presentes na formação do grid de largada.

Na gestão de Bernie Eclestone já estava implícito um certo desconforto com a participação das mulheres para este propósito.

Quem rompeu o limiar foi Gerard Neveu, CEO do World Endurance Championship (WEC), as corridas de longa duração. Ele anunciou que as grid girls não fariam mais parte dos eventos da WEC a partir de 2015, declarando que a forma da participação delas representava uma “velha escola”, sendo inadimissível perpetuar nos novos moldes sociais.

Para mim isso é passado. A condição da mulher é um pouco diferente agora — Gerard Neveu
Grid Girls e Grid Boys formaram um time misto no GP do Brasil, enquanto em Mônaco foi exclusivamente masculino. 2015. (Ivan Pacheco, GrandPrix 241)

Depois, Michel Boeri, Head do Clube Automotivo de Mônaco e do Senado das Federações, pediu a substituição das garotas por rapazes no GP de Mônaco. Incluiu-se modelos masculinos para a função, os Grid Boys. O efeito foi um clima de deboche.

O piloto Sebsatian Vettel, da Ferrari, de forma jocosa, perguntou o que estava acontecendo. Toto Wolff, dirigente da Mercedes-AMG, disse não ter opinião formada sobre o assunto.

Os modelos voltaram a aparecer no GP do Brasil no mesmo ano, desta vez formando um grid misto junto com as mulheres.

A Relutância pela mudança por parte das mulheres

As mulheres que atuam na Fórmula 1 não gostaram da mudança. Diz não refletir a realidade dos paddocks.

A relação das agências de modelos com o evento se dá no mesmo grau de interesse de qualquer outra empresa ali presente. A F1 é uma grande vitrine para expor marcas. Modelos, homens e mulheres, são contratados para os mais diversos tipos de eventos. Vende-se a beleza e cria-se oportunidades para novos negócios entre as agências, modelos e empresas interessadas.

Modelos contratadas para o stand da LG no GP da Turquia, em 2009. (cc Jacopo Werther)

Para os modelos, estar no grid é uma oportunidade ímpar de visibilidade. A presença destes profissionais é massiva durante os quatro dias do evento, atuando em várias áreas. Estar no grid, de fato, é para poucos. Logo, é possível entender o interesse dos modelos em ser escolhidos para esta função.

A ex-piloto da DTM (Deutsche Tourenwagen Masters) e F1, Suzie Wolff, disse não se importar com a presença das Grid Girls. São modelos, profissionais como vários outros ali presentes. Estão ali representando marcas em todos os segmentos. É um trabalho como outro qualquer, conforme os vários segmentos ali representados.

Em sua declaração, a ex-piloto questiona a atitude da Liberty Media. Se a empresa quer uma nova imagem para a mulher, quais as novas políticas e oportunidades na F1?

Estou observando com curiosidade e esperança. As Grid Girls se foram, gostando ou não, mas o mais importante é: o que vem a seguir?

A modelo Charlotte Gash vê de forma negativa o fim das Grid Gilrs, disse a BBC. Tal atitude segue um padrão do politicamente correto. Para ela é uma oportunidade ímpar. Algumas modelos têm bons rendimentos com o evento, sendo para outras o melhor deles.

Nós amamos fazer isso e não queremos que retire de nós.

O Globo Esporte mostrou como muitas profissionais ligadas ao universo do esporte a motor viram a decisão de forma negativa. Michelle Westby tornou-se piloto por ter sido grid girl e diz ser uma inspiração para várias outras mulheres que gostam do automobilismo. A fala mais contundente veio da engenheira Leena Gade, tri-campeão de Le Mans pela Audi:

Não me usem de “exemplo” de uma mulher que chegou onde queria. Meu esporte é cheio de mulheres que “chegaram lá” em um local dominado por homens, e não foi pela “sexualização das mulheres”, mas pela nossa paixão e porque acreditamos em algo que queríamos fazer.

Oportunismo ou consciência?

Uma mensagem recorrente nos manifestos feitos pelas mulheres na busca de mais equidade e justiça social fala sobre o papel que os homens podem exercer no comando de instituições públicas e privadas para reverter a cultura machista.

Chase Carey (CEO), Sean Bratche e Ross Brawn formam o triunvirato de comando da F1. Fica claro que a partir de agora há uma nova base e foco para este espetáculo. Sendo ou não marketing, a Liberty Media seguiu nesta linha de banir a sexualização, mesmo que implícita, da imagem da F1. Agora é aguardar o início da nova temporada para verificar a prática nos outros ambientes do circo. Estariam eles de fato tomando uma atitude não machista ou buscando promoção?

A Women’s Sport Trust emitiu nota apoiando a decisão da Liberty. A visão da instituição se alinha ao pensamento de Gerard Neveu: é uma prática descontextualizada. E a instituição diz para outros esportes seguirem nesta linha, aumentando a pressão.

A justificativa da Liberty Media Corporation é uma revisão de conceitos em todas as áreas da F1. São essas as transformações esperadas em resposta a um tratamento mais digno às mulheres, negros, LGBT+ e qualquer outro grupo minoritário.

Um novo modelo substituirá as Grid Girls. Mas, a Fórmula 1 dará novos espaços para as mulheres e ampliará a rede de negócios para elas?

É aguardar para ver.