A Vida Eterna da Música

áudio, vídeo & muita tecnologia

Rock in Rio 2015

Lembro quando Frank Sinatra lançou seu álbum Duets (1993), visto como uma façanha tecnológica. Sinatra gravou as músicas em um estúdio e os outros músicos em vários outros, inclusive na Europa. Era o início do universo digital no ramo musical. Para quem já produziu um CD sabe que esta atitude não é (era) a mais recomendada, ainda mais considerando a época. Mas o tempo passou, a tecnologia digital se desenvolveu, permitindo fazer produções de cair o queixo.

Quando o digital entrou nas salas técnicas das gravadoras houve opiniões divididas. Lobão foi um dos arautos, já fazia muito barulho nos anos 90, dizendo para não usar o digital. O som era comprimido, havia perdas dos harmônicos para cordas, coisas que só os valvulados podiam oferecer. Os sintetizadores estavam cada vez melhores e as mesas de mixagem foram trocadas pelo Pro Tools, um dos primeiros sistemas digitais de gravação. Na biografia do seu período legionário, Dado Villa-Lobos diz que a Legião, provavelmente, estreou a tecnologia no Brasil.

Os computadores ganharam maior capacidade de processamento, permitindo que ferramentas de gravação de aúdio e edição de vídeo estivessem à disposição de todos. Mas existe um efeito colateral na outra ponta da massificação: o refinamento que só os grandes profissionais podem produzir.

Ver o estrondo do Show do Queen no Rock in Rio 2015 é prova cabal disso. O tempo já não existe. Passado e presente andam juntos para uma performance ao vivo. A voz de Adam Lambert está aquem da potente e amadurecida de Freddie Mercury — ele era formado em música, para quem não sabe — , mas, como profetizou: the show must go on! Estava uma nova geração de músicos com os velhos companheiros, o guitarrista Bryan May e o baterista Roger Taylor, divindo o palco com inserções de Freddie Mercury no telão. O público foi a loucura.

Queen + Adam Lambert no Rock in Rio 2015. O público fez os pessimistas reporteres de plantão se renderem ao nostálgico show da banca, relembrando 1985.

O digital superou as limitações dos anos 90 e está incorporado nos grandes shows. Uma das melhores performances interagindo músicos e tecnologia está no espetáculo do Cirque du Soleil - Michael Jackson, The Immortal World Tour, um tributo ao rei da pop music. Uma banda tocando ao vivo junto com a voz de Michael. A questão não era somente esta, algo fácil para a tecnologia de hoje. Foram os arranjos feitos para o espetáculo. Esqueça os remixes para rádios. É lixo perto da produção de Immortal World Tour.

Trailer oficial de Michael Jackson Immoral World Tour

Além da banda — bateria, baixo, guitarra, teclados, trombone, trumpet, sax tenor, 2 vocais femininos e 1 masculino — , figurino específico e dançarinos, o palco era uma atração no conjunto da obra. Todo revestido com monitores LED, era móvel, compondo um cenário extasiante. Ele exibia Michael em alguns vídeos clássicos, fora as partes que foram elaboradas exclusivamente para o show, mais a precisa transmissão ao vivo do palco nos telões, propositalmente interagindo com os clips.

Outro momento foi na world tour MDNA — não me crucifiquem! Madonna não é um show de música somente, é um teatro cantado, um musical, pura performance. No intervalo de cada ato, os gingantescos paredões de LED, além dos que vinham do chão, exibiam um potpourri de seus clips. Madonna interagia com a produção audivisual, mais nostálgica, por trazer os velhos sucessos. Com sua imagens nos telões, quando a platéia se dava conta, ela havia saído do palco e voltava pronta para o novo ato e cenário. Os remixes feitos dos videoclips são produções inéditas e não simplesmente uma colagem das antigas imagens em movimento. Mas a parafernália digital é pesada em seu show, que conta com guitarrista, baixo, teclado, bateria e muita, muita programação. Em trechos de algumas músicas somente o baterista toca junto com a programação. Novamente reforço: quando falo de remix esqueça a rádio como referencial. É um padrão superior.

Abertura do show MDNA. O espetáculo ganha outra dimensão com a produção cinematográfica que acompanha cada música.

Para um apaixonado por produção e backstage, a tecnologia no meio musical de alto nível tem feito muito bem. Trilhas de voz e alguns instrumentos podem ser reaproveitadas em gravações recentes, compondo novas versões. A boa música tem tudo para permancer. Agora, com os recursos audiovisuais cada vez mais fundidos, o artista está eternizado nos palcos. Questões que só podem ser percebidas e sentidas ao vivo, logo, se gosta de alta qualidade vá em um show destes. Era capaz de assistir tudo de novo ao sair do show do Cirque du Soleil.

O disco póstumo de Gonzaguinha traz novos arranjos para suas canções e execuções feitas em duetos. Segue a mesma lógica de produção do disco de Ray Charles.

Fora dos palcos, duas produções chamaram a atenção em função das possibilidades abertas pela tecnologia digital. Natalie Cole dividiu a faixa Unforgettable (1992) contando com seu pai, Nat King Cole, 27 anos após seu falecimento. Outra grande produção é o disco póstumo de Ray Sing, Basie Swings (2006), com os grandes sucessos de Ray Charles, regravados pela The Count Basie Orchestra, uma das remanescentes big bands da swing era. Com o áudio da voz isolado, a banca executou novos arranjos. Apesar de não ser complexo para os técnicos, a produção tornou-se viável em função das novas tecnologias digitais, capazes de recuperar e restaurar a voz de Charles em execuções com décadas de gravação. No Brasil, na mesma linha, lançou-se o álbum póstumo Presente, Duetos (2015), com as músicas de Gonzaguinha, também com o áudio de sua voz recuperado e tratado, somado a voz de vários convidados, como Gil, Alcione, Lenine, Ivete e outros. Uma fusão das produções de Sinatra, Ray e Countie Basie.

Se Elvis ainda não morreu, Ray e Gonzaguinha continuam a gravar e Freddie Mercury está nos palcos, Michael Jackson é um ser eterno.