O ROMANTISMO SOBRE MORAR FORA

Ser expatriado não é fácil

Viver ou passar uma temporada em outro país é um sonho de muitas pessoas. As razões por este desejo são várias, sendo trabalho e estudos as mais comuns. É normal a curiosidade sobre este tipo de experiência, afinal, o diferente desperta a atenção. No entanto, tomar esta atitude não é fácil e os desafios de ser um expatriado são grandes.

Ir ou não ir? Eis a questão

Tudo começa com a tomada de decisão. Talvez seja uma das mais difíceis, devido as diversas variáveis envolvidas. Deixar a família é um quesito apresentado pela maioria, seguido do processo de adaptação. Uns decidem se mudar tendo em mente um lugar. Outros escolhem o lugar em função de um objetivo de vida.

Por incrível que pareça, até aí é fácil. O primeiro desafio está em resolver o processo legal. Oficializar toda documentação para ser aceita no país escolhido envolve muito tempo e paciência. São vários carimbos de embaixadas e consulados. Num país continental como o Brasil, requer muitas viagens, dependendo de se onde mora.

Obviamente, o mais importante é o visto de entrada no país escolhido. Optar pela ilegalidade ou o "jeitinho brasileiro" de burlar leis significa fechar portas e enterrar um sonho. Num mundo cada vez mais conectado, este tipo de informação é compartilhada. E como canta Jorge Benjor: "Prudência e dinheiro no bolso / Canja de galinha / Não faz mal a ninguém!"

Desligar-se mentalmente

O maior dilema é este. Entrar de cabeça numa nova rotina é importante. Soa banal ler isso, mas é um problema que atrapalha a muitos. Começamos a comparar tudo: casa, carros, preços, hábitos, costumes. Se a cabeça não for boa, este é o início do fim.

"Lá no meu país…" esta frase é sintomática de quem foi, mas deixou a cabeça e as emoções para trás. Afinal, por que você mudou mesmo? A mente é a primeira barreira a ser rompida.

A comunicação facilitada via Skype, Hangouts, WhatsApp e Facebook é uma moeda de duas faces: se de um lado ajuda a matar a saudade, no outro lado porta-se como um vilão ao atrapalhar este processo de desligar-se mentalmente.

Faça amigos

Básico. Nem tanto assim.

Há lugares onde o modo de conviver é muito fechado ou dotado de muita formalidade. Para o jeitão descontraído do brasileiro, soa estranho. Por mais que se queira ou tente, fazer amigos pode ser uma barreira. O desafio de quebrá-la e descobrir os meios é um processo de crescimento. No final, era só mesmo entender como tudo funcionava.

Muitos não buscam novas amizades por causa da língua. O nível de fluência permite cumprir as tarefas do dia a dia, mas engatar numa conversa longa não é fácil. Pensar noutra língua cansa, até rompermos esta barreira. Mas é importante, e quanto mais cedo se dispuser a fazer, mais fácil ficará sua vida.

Entenda que a vida segue sem você

Quanto maior for o nosso tempo em outro país, é normal seus parentes e amigos o verem simplesmente como um ilustre visitante. É tempo de engorda, os convites para sair e comer são diários. Esteja sempre preparado para responder a mesma pergunta e com aquela cara de tê-la ouvido pela primeira vez.

Para quem vê de fora, percebe-se que nossos amigos e parentes continuam, na sua maioria, na mesma rotina. Mesmo para eles, a vida segue. Uns nascem e outros morrem. Casam-se e divorciam-se. Continuam no mesmo emprego ou mudam de empresa…

Quem sofreu a mudança maior foi quem partiu. E isto é um universo complexo ou quase impossível de ser compreendido por quem ficou. Passamos a ser um corpo estranho. Nossos assuntos mudaram e viramos "pessoas metidas" para uma grande parcela. É necessário triar a conversa para cada tipo de pessoa, pois sua visita pode virar um desastre.

E se quiser voltar?

Faça as malas. Trará muita coisa legal na bagagem, mas esteja preparado psicologicamente. Por maior que seja a saudade e a vontade de voltar ao convívio familiar, você será outra pessoa. Sua visão de mundo será maior, perceberá coisas diferentes quando muitos não as percebem. A sua "vida do passado" já não existe e muitas outras coisas ganharam uma nova leitura.

As comparações voltam, mas numa perspectiva negativa: "que lugar desorganizado," "o valor deste produto é absurdo!" "que péssima qualidade de educação," "como você continua a fazer isso até hoje?" "que cidade suja" e por aí vai. Isto é chamado do "Síndrome do Retorno" ou "Síndrome do Regresso".

A lua de mel da volta acaba rápido depois de ter visto parentes e amigos. É necessário reconstruir a vida em seu país de origem, pois não é fácil. Logo, prepare-se e esteja ciente dos desafios ao voltar de um intercâmbio de curta duração ou depois de vários anos no exterior.

Para quem fica, somos um eterno aventureiro que se lançou neste mundo. Para quem vai, nos tornamos pessoas errantes, pois não pertencemos mais à nossa terra. Para quem nos recebe, sempre seremos vistos como “o outro”.

Indo para o novo, curta o diferente. Esta é a graça de se morar fora. Experimente comidas e temperos que não existem onde você veio. Aprenda costumes novos, veja como as pessoas daquele lugar se divertem, recebem convidados, cuidam da sua rotina, fazem planos, preparam uma refeição, estude a cultura local, viaje pelas redondezas, etc. A vida cotidiana é o nosso maior depósito de informação.

E lembre-se: 
Depois desta experiência, você passa a ser de todo o lugar e ao mesmo tempo, de lugar nenhum.