A necessidade e urgência do debate sobre Assédio Moral

Henrique Castro
Sep 27 · 6 min read

Texto de apoio complementar ao episódio [S02E07] Respondendo zap da firma as 23h do podcast Van Filosofia

Assédio Moral, suas origens e seus motivos.

A partir dos estudos de Terezinha Martins dos Santos Souza, Margarida Barreto e José Roberto Heloani

Muitos estudos e explicações tendem a colocar o Assédio Moral como uma forma eternizada de gestão. O famoso “sempre foi e sempre vai ser assim”, o que não é de todo correto. Antes do capitalismo o trabalho era organizado de maneira completamente diferente. O próprio ciclo da natureza com suas estações do ano ditava o ritmo da produção e aos senhores de escravos e servos bastava a violência ou a ameaça do uso dela. No capitalismo nas relações de produção conhecidas como taylorismo e fordismo o controle da força de trabalho se dava por intensa e escancarada vigilância exercida por capatazes e gerentes. O tempo de trabalho e o controle da produção eram ditados quase exclusivamente pela velocidade das esteiras e máquinas.

Com as crises socioeconômicas dos anos 1960 (primeira crise do pós-guerra, crise do petróleo e intensa variação cambial do dólar) reaparecem antigos problemas para os patrões: Como enfrentar a queda dos lucros e aumentar a exploração da mais-valia e ainda impedir a organização dos trabalhadores/as? Diversas mudanças e tentativas surgem, mas uma experiência japonesa começa a se tornar o novo padrão a ser seguido. Esse novo padrão é conhecido por alguns nomes: Reestruturação produtiva, Acumulação Flexível e Toyotismo.

O novo padrão exigia algumas mudanças nas grandes indústrias como uma descentralização territorial da produção, separar os grandes agrupamentos de trabalhadores (típicos do fordismo) em operários distribuídos em pequenas unidades, nessas unidades (ou células) existiam metas individuais e metas coletivas, o trabalhador deve ser flexível e polivalente (sendo capaz de operar várias máquinas e cumprir várias funções ao mesmo tempo), o trabalhador passa a ser chamado de colaborador e tem que produzir o equivalente a vários trabalhadores. Com todas essas mudanças o controle da produção deixa de ser realizado apenas pelos capatazes, mas também, pelos próprios trabalhadores que precisam bater as metas. Além do aumento produtivo essa nova organização também faz de tudo para dificultar a organização dos trabalhadores e os dividirem. Os colocam em pequenos grupos, criando concorrência entre eles, ao invés de uma antiga tradição de cooperação. Também os divide na medida em que obedecem diferentes contratos de trabalho entre si, são trabalhadores que dividem o mesmo espaço, mas são contratados por empresas diferentes. A reestruturação produtiva não para por aí… Também é necessário um envolvimento manipulatório com diversas maneiras de convencimento e cooptação como participações em lucros e resultados, participação (e premiação) com desenvolvimento de soluções.

A nova organização da produção faz com que o trabalhador não seja mais controlado apenas pela máquina, pela sirene e pelo olhar do capataz. O controle é internalizado por todos e agora cada “colaborador” da empresa, visando o “bem comum” se esforça para sempre produzir mais. É nessa situação que o assédio moral surge como modo de gestão.

O que é e como identificar o Assédio Moral.

O ambiente de trabalho é o local onde acontece a exploração da força de trabalho para obtenção do lucro e isso é uma relação desigual de poder e ação que gera conflitos. E é importante conhecer e identificar o que é e o que não é Assédio Moral no trabalho para não transformar tudo em Assédio e assim banalizar e naturalizar esses abusos.

O Assédio Moral no trabalho é a exposição dos trabalhadores a situações de humilhações repetitivas e prolongadas ligadas à situação de trabalho e no exercício de suas funções. São atos de intimidação e práticas vexatórias ligadas ao exercício do trabalho. Algumas características do Assédio Moral:

1) ocorre na situação de trabalho, diferentemente do dano moral, que pode ocorrer em qualquer situação da vida cotidiana;

2) envolve repetição no tempo, não é um fato isolado. O que se repete não é o mesmo gesto sempre, mas um conjunto de gestos, que configuram o processo de perseguição;

3) envolve poder, emanando de uma fonte objetiva, não subjetiva, isto é, poder de transferir, designar tarefas, demitir, enfim, atuar sobre o trabalho.

Portanto, o assédio ocorre no local de trabalho e é sempre realizado por alguém em cargo superior. Existem formas mais “comuns” de assédio, que vão desde gritos e xingamentos a piadinhas e formas de ridicularização. Essas piadinhas podem ser por conta da orientação sexual, gênero, etnia, mas também à vestimenta, formas de se comunicar, gostos pessoais, etc. Mas o assédio moral vai muito além disso.

Uma forma muito mais sutil e efetiva de assédio moral é aquela que tenta impedir que o trabalhador cumpra de forma adequada seu trabalho e o coloque como “preguiçoso”, “desleixado”, “não-comprometido”. Para isso muitas são as maneiras, como retirar os meios de comunicação dele ou retirar seus instrumentos de trabalho ou não fornecê-los. Se constrói uma “incompetência” do trabalhador que frente ao mau resultado do seu trabalho, não o reconhece, o “estranha”, e estranha a si mesmo enquanto identidade anteriormente construída pelo e no trabalho. Com isso também separa o trabalhador de seu colega, para dificultar a união entre eles, são realizados atos nos quais o trabalhador alvo do assediador aparece como “não-solidário”, “folgado”, “problemático”. Tendo a fase anterior (retirar os meios de trabalho) sido bem sucedida, o trabalho que não foi realizado pelo trabalhador-assediado é repassado para os colegas, que acabam sendo sobrecarregados e ficam ressentidos, irritados com o companheiro “incompetente”, criando um afastamento e birra com ele, sem notar que o motivo inicial de tudo isso é o assédio ao companheiro.

O assédio moral também visa se livrar dos que não obedecem, por escolha — militância — ou acaso — adoecimento, não dar conta — às exigências formuladas da empresa. Mas vai além, não basta apenas se livrar do “radical” e do adoecido, é necessário deixar uma mensagem de atenção para todos: “obedeçam e não adoeçam e nada acontecerá com você”. Assim dessa maneira, trabalhadores escondem suas doenças (muitas vezes ocasionada pelo trabalho), e não se manifestam para lutar pela garantia e conquista de direitos.

É relativamente fácil uma empresa se livrar de um trabalhador indesejado. E é relativamente difícil manter uma relação de assédio, o assédio moral, então, não é uma questão meramente pessoal contra uma pessoa. O assédio serve como mensagem, recado, aviso para todo resto dos trabalhadores “ficarem na linha”. É uma forma de gestão e controle. O assédio, dessa maneira, não atinge apenas o assediado, mas a todos subordinados do chefe que assedia.

O Assediador

O Assédio não é um desvio psicopatológico de um chefe, mas uma política necessária da nova organização do modo de produção. Portanto não é traço de uma pessoal cruel, mas uma exigência. É importante essa ponderação para não cairmos em uma naturalização das emoções e culpabilizar os indivíduos, mas principalmente para entender o assédio como parte necessária da atual organização do trabalho e não como um desvio.

Obviamente também não é uma forma de amenizar para quem assedia, pois de forma geral, o chefe que sofre ao assediar costuma “não dar conta” e ser substituído por alguém que tem satisfação da posição de assediador.

O Assediado e como se defender

Como vimos o assédio é uma forma de gestão. Ao longo da leitura do texto você deve ter reconhecido e lembrado de muitas situações que você ou seus companheiros de trabalho sofreram. De gritos na seção aos chamados para conversas particulares, dos recadinhos no seu posto de trabalho ao sumiço dos seus equipamentos, àquele e-mail que todos, menos você, receberam. Ou quando pela sobrecarga de serviços todos tem um horário menor de almoço, menos você (assim todos o olham como o preguiçoso que não quer trabalhar), enfim, um sem número de situações que todos conhecemos. A primeira coisa a ser feita é olhar com atenção para seus companheiros, saber identificar quem está sofrendo assédio e poder apoiar essa pessoa, afinal costuma ser muito difícil pedir ajuda quando todos já estão contra você. Portanto o diálogo e a solidariedade entre os trabalhadores é fundamental.

Para além dos necessários (e longos) processos judiciais, além do necessário acionamento do sindicato (mesmo o pelego e distante) e formalizações da situação, a organização no seu local de trabalho é a única maneira de vencer os assédios que ali ocorrem. Trabalhadores que se ajudam e não cooperam com o assédio da chefia é a única maneira de manter um chefe assediador acuado. Qualquer manifestação de assédio, qualquer “piadinha” ou qualquer tentativa de assédio deve ser combatida imediatamente por todos. É necessário interromper coletivamente o trabalho. Mostrar a força da organização no local de trabalho e, sempre que possível, ampliar essa luta para outras seções e setores.

Henrique Castro

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Nerd, psicólogo e contador de causos. Palpita por aí, reúne textos por aqui. Me procure nas redes: @famigeradokpeta. Além disso presto serviços em editando.me

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