Notas e reflexões sobre “A História da Ficção Científica por James Cameron”

A História da Ficção Científica por James Cameron

Em algum momento você imaginou uma série de televisão com Will Smith, Sigourney Weaver, Peter Capaldi, Whoopi Goldberg, Jeff Goldblum, Milla Jojovich, Keanu Reeves, Zoe Saldana, Arnold Schwarzenegger, Christopher Lloyd, contando com diretores e produtores como Steven Spielberg, George Lucas, Ridley Scott, Guillermo Del Toro, Christopher Nolan, Luc Besson, Paul Verhoeven, Gareth Edwards, Paul W. S. Anderson, escritores e escritoras de livros e quadrinhos, roteiristas, figurinistas e mais um montão de gente competente juntas? Pois bem… A ficção científica conseguiu reunir todo esse time em um divertido e instigante misto de bate-papo e documentário!

George Lucas e James Cameron

A História da Ficção Científica por James Cameron” em seis episódios, produzida pela AMC e apresentada pelo roteirista, diretor e produtor James Cameron convida toda essa equipe para falar sobre ficção científica. Em uma extensa — e maravilhosa — coleção de referências literárias, televisivas e cinematográficas vamos sendo inseridos em profícuas discussões sobre possíveis causas e motivos de gostarmos tanto do gênero.

Por que a ficção científica é tão atrativa? São as perguntas sobre o que ainda não conhecemos, respostas sobre o que não temos, especulações que nos servem como alertas, a curiosidade de pensar em como tudo poderia ter sido diferente ou tudo isso? Caso você já tenha feito algumas dessas perguntas “A História da Ficção Científica por James Cameron” é o programa certo para você. E caso você não tenha se perguntado nada disso… Assista e venha participar desse mundo de dúvidas em que tudo se transforma em um grande:

E se..?

Ao olharmos para fora parecemos buscar respostas sobre o que está dentro. Seja para fora do planeta, ou para fora de nosso tempo, ou para fora de nosso habitat, ou até mesmo para fora de nós mesmos colocamos em foco nosso planeta, tempo ou quem somos e como muitas vezes as respostas sobre nós mesmos nos assusta, projetamos e a colocamos em seres extraterrestres, seres das profundezas, monstros do passado (ou futuro), em suma: O outro.

Nos sentimos sujos e destruímos os mais preciosos e caros símbolos que muitas vezes simbolizam nossa culpa. Vemos palácios, casas presidenciais, templos religiosos e templos de consumo sendo destruídos por uma ameaça que parece ser indestrutível até o momento que reconhecemos nossos erros e, enquanto povo, nação, espécie ou o que seja, deixamos diferenças de lado, nos reconhecendo enquanto humanidade e unimos forças para vencer o invasor ou nossa aniquilação iminente.

Frankenstein ou o Moderno Prometeu” de Mary Shelley, por muitos considerada, a obra inaugural da ficção científica no início do século de XIX é um exemplo perfeito dessa inquietação. Se no passado utilizávamos o “Deus da Lacuna”, atribuindo à deuses, deusas, semideuses, heróis e monstros o que não sabíamos explicar como poderíamos sonhar — ou temer — em pleno desenvolvimento da ciência moderna com suas mais fantásticas — ou controversas — invenções?

O Moderno Prometeu representa os novos medos e inquietações da nascente sociedade moderna: máquinas, eletricidade, telégrafos, ferrovias, a perigosa indústria química com suas chaminés que cuspiam colunas de fumaça ao límpido céu. Será que essas inovações trariam monstruosidades que destruiriam o idílico modo de vida humano? Será que a humanidade tinha ido longe demais? Logo no primeiro “e se…”, a ficção científica começa a nos alertar dos perigos que estamos produzindo.

Contos de Alerta

Será que estamos destruindo o planeta? Será que as bombas irão nos destruir, ou nos deformar para sempre? Os robôs tomarão o controle e nos dominarão?

Cientes de nosso poder cada vez maior de transformação da natureza a ficção científica começa projetar o que pode acontecer em um futuro — distante ou próximo — se não tivermos clareza dos interesses daqueles que dominam as forças produtivas. Os diversos colapsos retratados são um aviso para que não percamos a humanidade — caso ainda reste alguma — em nosso desenvolvimento.

Zumbis, monstros e outras deformidades de Romero ou Del Toro ainda parecem um pesadelo que podemos nos livrar. Invasões alienígenas porque enviamos nosso lixo ao espaço não soam como uma realidade tão breve, mas sociedades autocráticas com controle de pensamento, comportamento, natalidade, censura e monopólio da violência são realidades. E depois não digam que George Orwell e Margaret Atwood e, tantas outras pessoas, não nos avisaram de maneira sistemática.

Talvez não estejamos em uma realidade virtual à Matrix, nem fugindo de Exterminadores do Futuro, mas será que não vivemos à mercê dos caprichos tecnológicos, sendo chantageados por nossos telefones como Hal9000 fazia com Dave? As 3 Leis da Robótica de Asimov são fiáveis ou teremos criaturas confrontando seus criadores como Dolores faz com Ford?

O replicante Roy Batty tem seu encontro com Dr. Tyrell, seu criador

Se em 2018 — no maior estilo ficção científica dos anos 1930 — ainda parece controverso que seres humanos tenham acesso à plenitude de direitos e dignidade, aceitaríamos discutir direitos à dignidade para máquinas? Ou devemos deixar sempre à mão o botão de desligar? Precisamos ter medo de que a máquina diga: NÂO? Afinal parece que a criamos para que ela faça o que não queremos fazer. Replicantes quiseram saber os porquês de serem tão belos e perfeitos mas só viverem 4 anos. O inteligentíssimo Caesar — da nova trilogia — “O Planeta dos Macacos” surpreende a todos quando enche os pulmões e fala um sonoro e bem articulado “não”. O andróide Data tem sua “humanidade” e seus direitos julgados pela tripulação da Enterprise, nos mesmos moldes que questionamos refugiados de guerras e massacres que chegam em nossos países.

Podemos construir muros, ou invocar Gojiras que prezem pela defesa de nossa soberania. Ou ser uma corporação extrativista invadindo Pandora, destruindo mais um conjunto de fauna e flora e matando seres sencientes em busca de riquezas que nem sonhávamos existir.

Nossa preocupação pode ser com Mundos Invertidos, com os perigos da viagem no tempo, mas também pode ser o sonho de uma sociedade em paz consigo mesma, que tenha superado conflitos étnicos, religiosos e de espécies e possa viver em paz, em uma Federação dos Planetas Unidas buscando constantemente as últimas fronteiras do espaço sideral onde nenhum homem e mulher jamais estiveram.

Contudo em um ponto a série falha. Nem só de perigosos pesadelos ou confortáveis desejos é feita a ficção científica, os ensinamentos mais inteligentes, efetivos e melhores alertas podem vir carregados de muita ironia, humor e diversão. Uma das questões que permeia toda a série é se são as perguntas ou as respostas que nos fascinam na ficção científica, para mim isso não é nenhuma dúvida, a resposta fundamental para a vida, o universo e tudo mais já sabemos e ela é 42. O que nos falta é saber a pergunta.

Douglas Adams, um dos grandes nomes da ficção científica foi esquecido

Produção acerta o ponto

Apesar do tema pesado a série é divertida e conta com um bom ritmo. Alternando o bate papo de James Cameron com algum de seus amigos — sempre entre homens brancos e idosos — de longa data, com inserções das falas dos diversos convidados que vão sendo ilustradas com imagens dos livros, séries e filmes citados, além de boas anedotas de bastidores.

Ao longo dos seis episódios — Aliens, Espaço, Monstros, Futuros Obscuros, Máquinas inteligentes e Viagens no Tempo — com a presença maciça de Steven Spielberg — que nem precisa contar de todos seus filmes para ter sido o cineasta que mais fez filmes na área — fica a dúvida. Com tantos filmes sobre alienígenas ele estaria tentando nos amolecer para uma invasão vindoura!?

James Cameron e Steven Spielberg