A Visita da Feiticeira

Foi um dia em que o arquétipo da feiticeira chegou e de mansinho entrou em casa, silenciosamente, andando pela sala, passando as mãos pelos móveis escuros e empoeirados, sentindo o chão frio sob seus pés descalços. A visão das paredes úmidas e descascadas, gelavam o seu corpo. Um aroma verde de ar parado, mofado. As janelas travadas, enferrujadas.

Sim era uma casa abandonada.

Uma leve tristeza cruzou a sua alma, como um sabor que penetra na boca e logo se dilui. “Sentimentos apenas desejam ser identificados, é desnecessário cultivá-los” — ela lembrou.

Então, com o seu vestido de tecido cru, decotado, acinturado e esvoaçante ela chacoalhou as poeiras das mãos, sorriu e já sabia por onde começar.

Abriu as janelas volupituosamente!

Raios de sol invadindo a casa! Dava para ouvir os ruídos da casa se regozijando de gratidão. Ar!!!!! Frescor!!! Luz!!!

E num embalo musical e dançante a feiticeira foi pegando baldes, panos e vassouras e foi limpando, interagindo com os espíritos da água, do vento e dos sons que ela cantava.

A casa foi se enchendo de alegria, de cores, vibrações conhecidas e vibrações totalmente novas entravam pelas portas e janelas.

Era a hora de receber os convidados para a celebração da Vida na casa. O primeiro a chegar foi Eros e com ele todos os seus amigos afins. Afrodite, Isis, Sigrid, inclusive Hades para lembrar a todos de permanecerem na Presença porque tudo é efêmero nessa estadia por aqui.

E a feiticeira os serviu com um banquete culinário digno dos Deuses, com ingredientes intuitivamente e alquimicamente transmutados em guloseimas e bebidas que explodiam de sabor.

O som da música fazia as almas dançarem naturalmente em movimentos que atraiam a vida e a fertilidade, a abundância de todas as virtudes.

Os perfumes dos deuses e das flores se misturavam nesse ar festivo.

Os olhos começaram a se abrir e ver as verdades abertas que passavam como relâmpagos da consciência para serem apenas vistos e honrados, abrindo uma conversa sincera com o Universo infinito em possibilidades.

Ah! A pele!!!! A pele era a pura flor, uma rosa se abrindo, sedosa, espalhando seu perfume natural e sedutor, acolhedor, congregando todas as sensações de fora pra dentro e de dentro pra fora. Sim, trazia no caule alguns espinhos, estrategicamente posicionados. E folhas tenras e firmes de um verde escuro intenso.

Essa rosa era o centro da sala e em torno dela todos os presentes começaram a dançar em círculo, cantando as bençãos da Vida, do Amor, da Beleza, da Verdade, das Amizades, das Artes…

E assim essa celebração foi transmutando a casa, as paredes se expandiam, outras sumiam, criando um vasto Loft, de cores quentes e vibrantes, janelas, portas e teto bem altos, o piso , amadeirado e aquecido. Os móveis, acolhedores.

E assim, a feiticeira olhou ema última vez para tudo, sorriu, e saiu levemente através das cortinas alvas e transparentes que esvoaçavam com a brisa de puro contentamento.