Como cheguei até a maratona de 57km de Santa Fe Coronda​ ?

Para contar essa história, preciso explicar desde o começo. Tentarei dar menos rodeios possível, porém foi uma grande montanha russa chegar até Santa Fé​ (ARG). Concluí meu ano de 2016 nadando, porém sem ter uma prova alvo a princípio. Foi quando no dia 27 de dezembro, em meio a uma conversa com meu técnico surgiu a pergunta: “Você tem interesse em nadar Santa Fé — Coronda?”. Eu respondi com toda sinceridade que era um sonho de infância nadar provas longas, mas imaginava que já havia passado o prazo para a inscrição. A resposta vinda dele foi a melhor possível : “O envio das fichas é até depois de amanhã, liga na federação e agiliza isso para hoje se quiser ir”. Levada pelo impulso, mesmo com a incerteza dos outros fatores, lá fui eu. No mesmo dia liguei, pedi a ficha, preenchi à mão, scaneei e enviei. Dois dias depois resolvi entrar em contato com meu conterrâneo Samir Barel e perguntar como ele faria para ir. Muito receptivo e atencioso ele me enviou todos os dados do pacote no mesmo dia, com um detalhe: o pagamento era até dia 1 de janeiro. Dentro de algumas horas eu pude pensar “zerar as contas para pagar um pacote que ainda nem sei se vou usar, ou deixar mais para frente e correr o risco de aumentar o preço e eu não ter o valor”. Sempre quis nadar provas longas, eu sei o quanto não temos investimento nessas provas mas honestamente ? Não estou nem um pouco afim de continuar matando meus sonhos para me manter existindo. Porque viver? Viver é outra coisa minha gente! VIVER, é o que eu fiz nessa viagem. Não só nela, mas em cada madrugada que eu levantei antes do sol para pular na piscina e fazer o que eu amo.

Depois de algumas horas conversando comigo mesma, mentalmente, paguei o pacote, mesmo sabendo que o formulário ainda passaria por uma aprovação da organização pelas vagas serem limitadas. Outro fator importante era o acompanhante para me hidratar no barco, eu só poderia fazer o convite depois de ter a certeza de que entraria na lista dos aprovados para nadar.

Treinei mais motivada que nunca! Mesmo sem ter diversas respostas que ainda aguardo, ouvindo promessas que não se materializam. Eu não me preocupava com isso, estava fazendo algo por mim mesma, por uma causa maior, algo que sempre quis. Os dias passavam e a lista não se confirmava, mas eu acordava todos os dias com a certeza de que eu nadaria a prova. Pude até ouvir de um amigo “você é a única pessoa que eu conheço que treina dessa forma sem saber se vai competir.” Pois é, eu amo nadar, mas acho que muitos não entendem isso.

Depois de um mês de espera para a confirmação da lista de participantes, no dia 23 de janeiro, eis que me surge a resposta: você não vai. Se meu mundo desabou? Por pelo menos 1h eu chorei até não sobrar nada. Mas eu sabia que ficaria bem logo. Acredito que temos que viver cada momento de nossas vidas dando nosso 100% , isso vale para tristeza também, desde que tenha um limite.

No dia seguinte lá estava eu fazendo meu ovo às 4h da manhã para treinar. Meu técnico já havia enviado os novos treinos, aumentando a metragem e intensidade, não tinha mais motivo para descansar. Remarquei diversos compromissos para data da viagem e vida que segue. Sobre cancelar o pacote de viagem: eu já tinha perdido a maior parte do dinheiro mesmo, cancelar uma semana antes ou no dia, não ia mais fazer diferença para algo que estava comprado a 1 mês.

No dia primeiro de fevereiro eis que me vem à ligação: “Cat, você era a primeira reserva e foi chamada para nadar Santa Fé”. Não sei explicar a minha reação, mas segurei até terminarem as orientações no telefone para assim que desligar começar a dançar de alegria na minha sala. Eu precisava comemorar esse milagre!

Após chorar de alegria e gritar aos 4 cantos durante uns 30min, fui olhar quando era meu vôo. Era dali a 5h, só que saindo de Guarulhos (para quem não sabe eu moro em Santos). Primeira coisa: cancelar uma reunião super importante que eu tinha no dia seguinte, segunda: cancelar minha participação na clínica que eu iria no final de semana, terceira: descobrir um modo de subir para Guarulhos a tempo, quarta: conseguir uma mala (pois é! Nem isso eu tinha em casa) , quinta: fazer a mala!

Muito difícil baixar a ansiedade para fazer tudo, mas consegui. Meu RG original estava em Campinas e até nisso o Universo me abençoou, pois meus pais conseguiram entregar para o Samir antes dele sair de lá. Saí às 22:30 de casa (já estava acordada desde às 4h da manhã pois dobrei o treino no dia, no almoço tinha feito um treino intenso de VO2) cheguei em GRU a 1h da manhã, o vôo saiu as 3h, chegamos às 5h no aeroporto de Buenos Aires para pegar o vôo para Santa Fé as 8:35, que acabou saindo às 9:30. Chegamos em Santa Fé às 11h da manhã, onde esperamos o ônibus da organização para irmos ao hotel e começar a maratona.

Essa sim foi minha maior surpresa! O número de compromissos que tínhamos a cumprir em cada dia! O intervalo que tivemos entre o almoço e a saída para nadar a prova Sprint, usamos para ir ao mercado e casa de câmbio.

Eu obviamente não tinha me programado, quando fomos ao mercado só pensei na minha comida da semana estragando na minha geladeira em casa. Não fazia a menor idéia de quantos dias ficaria, ou o que eu comeria durante a semana até prova, o que nós tínhamos direito no hotel, o que não … estava bem perdida, comprei o básico : frutas e castanhas. Troquei o dinheiro que achei conveniente. Óbvio que faltou tudo no final da viagem mas todos me ajudaram muito e não tive problemas.

Então saímos para a prova Sprint … depois de umas 30 horas acordada, entre treinos intensos e viagem de madrugada, descobri que eu nadaria uma prova de 2km, que ficava a 1:30h do local que estávamos hospedados. Detalhe: tivemos diversas paradas para cerimônias de recepção dos atletas e tal. Em cada parada diversos lanches dos quais não podia comer por conta da intolerância a lactose. Como disse: eu estava em um montanha russa. Ligada no “stand by” só seguindo o fluxo do acontecimentos. Eu olhava os outros atletas e ia copiando tudo.

Algo que morro de vergonha de admitir é que não sei espanhol. Entendo quase tudo que ouço, não sei responder uma palavra, a maioria das pessoas lá também não entende o português. Porém meu inglês me salvou o tempo todo.

Sobre a prova Sprint de 2km que teve largada em Coronda às 19:30 : senti muita dor, não vi o percurso, não vi nada por sinal, via o vulto dos outros nadadores em volta de mim, acho que passei uns 10min atolada no barro sem enxergar nada, porque nadamos em uma profundidade de 20cm de água a maior parte do tempo. Sei que não entendi nada e senti muita dor. Nos trocamos (ainda cheios de barro) pegamos o ônibus e chegamos no hotel 23h para pedir o jantar. O restaurante congestionou e demorou muito para que tudo ficasse pronto, fui dormir quase 1h da manhã para levantar as 7h pois tínhamos mais compromissos no dia seguinte. A única coisa que não estava prevista no cronograma da organização eram os treinos, o que foi facilmente resolvido seguindo outros atletas hehehe. Sempre nos dividíamos em grupos e íamos treinar em piscinas próximas. Assim foi o começo da jornada. Só para contar: consegui tomar banho no terceiro dia de viagem, foi algo assim: surreal! Que sensação ótima.

Fora tudo o que já relatei ainda havia um detalhe: a hidratação. Comparando a realidade de um triatleta, imagine viajar para um Ironman sem suplemento para sua prova. Imaginou? Então… eu simplesmente não havia comprado, pois como fui comunicada que iria participar da prova poucas horas antes de viajar, não tive tempo de comprar e me preparar como deveria.

Gostaria muito, mas muito mesmo, de agradecer Samir Botelho Barel​, 10° colocado com o tempo de 9h23min, nosso grande representante brasileiro que faz muito pelo desenvolvimento da modalidade no país. Foi uma pessoa que me guiou na viagem (para quem não sabe essa foi minha segunda viagem internacional) e também na rotina dentro da competição. Me emprestou um pouco de sua suplementação, além de alguns pesos. Trocou conselhos e dicas, enfim: fez tudo que estava ao seu alcance para que eu me sentisse pronta para a prova. Compartilhou comigo suas estratégias de hidratação, suas experiências, seus erros e acertos. Outra pessoa que teve a mesma postura e me ajudou muito a manter meus treinos em dia foi o brasileiro melhor classificado na prova, 5º colocado com o tempo de 8h43min, Matheus Evangelista​. Também agradeço muito pela atenção que teve comigo durante essa experiência tão inesperada, além de me emprestar um pouco de sua suplementação para que eu pudesse me hidratar.

Já fiz um agradecimento especial para a nadadora argentina, minha mais nova amiga, Victoria Mori​, pelo tamanho altruísmo em todo o percurso.

Em cada momento da minha vida, eu tive a ajuda de pessoas de boa índole, que fazem parte da transformação de sonhos como este em realidade. Sem elas, nada se tornaria real e palpável. No momento em que enviei minha ficha de inscrição , com muita fé de ser aceita por ser a única mulher brasileira com interesse em nadar, eu tinha o desejo de nadar junto ao pelotão. Ao ser surpreendida de última hora, fazendo uma alimentação que visava emagrecimento e não uma reserva de glicogênio, que seria necessária em provas como esta, não priorizei o descanso durante a semana e sim compromissos como reuniões e realização de projetos pessoais, além de estar subindo a cada dia minha carga de treinamento visando outras provas. Meus objetivos mudaram, foram adaptados em minha mente. Sou muito grata e feliz por completar esse desafio, finalizar a prova de forma integra e consciente, dentro do tempo limite, possibilitando assim uma participação nas próximas etapas, sem o risco de sofrer com as mesmas turbulências.

O próximo desafio agora será conseguir patrocínio para a próxima prova, no Canadá. Estamos trabalhando para isso! Obrigada a cada pessoa que torceu, acreditou em mim, me ajudou, reconheceu meu esforço. Só saio dessa prova com um desejo pulsando em meu coração : nadar novamente uma prova deste nível, porém preparada não só psicologicamente como eu estava, mas também fisicamente, para descobrir os meus limites e até que momento da prova eu aguentaria ir junto com o pelotão. Vamos?

Ainda farei um live contanto especificamente da prova em si!

Obrigada primeiramente aos meus pais, que são a razão de tudo para mim! Cecilia Carmem Cucatti​ e Pedro Ganzeli​.

Obrigada Igor Souza​ por acreditar nos meus sonhos. Obrigada Thársio Andrade​. Obrigada Natação Unisanta​ por me conceder a piscina onde posso realizar meus treinamentos. Obrigada Santa Planta​ por me conceder refeições ideias para minhas necessidades.Obrigada Centro de Alta Performance​ e Pandelo Tri​, André Saito​, Paulo Eduardo Pereira​ pelo acompanhamento que ja tem me gerado frutos. Obrigada Dermafórmula​ e Betania Medeiros​ pela suplementação que faz total diferença no meu rendimento. Obrigada Lucas Jankauskas​ Dr. Lucas Jankauskas​ pelo acompanhamento impecável. Obrigada Atef Yassin​ por cuidar da manutenção de meu corpo para sempre render nos treinos. Agradeço também à DF8 Marketing 3.0​ pelo apoio.

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