Evening Wind, 1921 — Edward Hopper

O tempo de calmaria

Olá noite, você sempre está aí quando preciso conversar. Gosto da sua maneira de me escutar, com essas folhas balançando, parecem estar dançando. Deitar e encarar o teto ou as cortinas fechadas, faz as lembranças dos dias corridos aparecerem e com calma vem à mente o dia no terminal de ônibus, aquela criança sorrindo pra mim sem nem ao menos ter me visto alguma vez na vida, ter conversado com alguém que não conhecia (e que não me atentei a perguntar o nome) mas que me fez sentir bem. Há dias que os olhos buscam pela janela para ver o céu e perguntam: “por quê?”. Suplicar para aquele infinito em busca de explicações não é algo aconselhável, mas esperar alguma resposta daquelas nuvens fofinhas e geladas que vivem sorrindo, é no mínimo confortante. Mas às vezes o corpo está cansado de mais e como minha cama fica bem ao lado da janela, fico deitada ali mesmo, coloco os travesseiros nos pés da cama e assisto a um filme. Todas aquelas pessoas andando no terminal de ônibus, começam a correr perdendo as suas viagens, e passo ali, sem pressa com os meus fones de ouvido, vendo todas elas correrem contra o tempo. Reparo na moça correndo atrás da criança que ultrapassa a faixa amarela rindo por estar desobedecendo a mãe. Ali pra esquerda tem uma senhora misturando um pacotinho de suco em pó na sua garrafinha de água (como não havia pensado nisso antes, adorei a ideia!), e o que dizer da guitarra imaginária do carinha que vai para o sul? Vejo sorrateiramente pequenos acordes sendo feitos escondidos entre o casaco e a pasta verde com seu currículo que está segurando. Tem o passarinho andando no paralelepípedo, tentando comer um pedaço de borracha, a cada bicada aquele pedaço voa mais longe e ele não desiste até que o motorista do centro quase atropela o bichano. Sono, vejo nos olhos dos adultos voltando do trabalho, sem contar aqueles que deitam suas cabeças nas janelas ou começam a cair sobre a pessoa sentada do lado, vejo também no nenê que está no colo do pai respirando calmamente agarrado no ursinho e sentindo o calor, carinho, proteção e cheirinho que só os pais tem. Quantas pessoas. Correm, passam, estão rindo, começam a chorar, brigam, colam chiclete na janela, algumas abraçando, conversando, começa um beijo, no outro lado vejo a despedida, ônibus vai, ônibus vem.

É gostoso perceber esses pequenos detalhes do dia a dia, faz com que o tempo passe com mais calma, o tempo desta maneira pode ser minusiosamente revisto. Uns correm contra ele, outros aproveitam até as energias acabarem, e ainda há aqueles que digam que as horas podem ser remédios para a alma.

Concordo com o último, o tempo é remédio para os sentimentos e lembranças que nos fazem perder o sono a noite.