A dama das sete saias

Um conto inspirado no mito de Alcione.

Ela habitava um pequeno povoado que ficava na beira do mar e no alto de um penhasco. Vivia entre a simplicidade dos pescadores, o som das águas e o aroma da maresia. Seu ofício era tecer as redes de pesca, na companhia de outras mulheres e de algumas crianças que brincavam ali por perto. Em outros momentos, o trabalho também consistia em consertar as redes que voltavam danificadas pelo uso nos longos períodos em que os homens passavam no mar.

Quando precisava dedicar muito tempo ao conserto das redes, o cheiro do peixe ficava impregnado no seu corpo e incomodava-a. No verão, apesar da temperatura fria, banhava-se na água salgada do mar ao final do dia para amenizar o odor que sentia nela mesma. O pai a ensinou a nadar quando ainda era pequenina. No inverno, já que a temperatura gélida da água impossibilitava qualquer intenção de banho, ela procurava alternativa. Gostava de fazer esculturas com argila. O contato da terra com a pele também amenizava o odor. Além do mais, ela era hábil com as mãos, e moldava na argila formas magníficas, dava vida a bonitas figuras. Enquanto tocava a terra, sentia como se tocasse igualmente nas entranhas do mundo.

Sua avó costumava dizer-lhe que ela tinha nascido quando a Vênus passava pelo signo de Touro, e por essa analogia com o céu, ela possuía facilidade para exercer atividades artesanais primorosas. Ela perguntava-se como, afinal, a avó poderia saber disso, mas nunca teve coragem para duvidar e perguntar-lhe pessoalmente.

Ela cresceu entre muitas narrativas e como amava-as! Assim como amava o modo carinhoso como a matriarca contava essas histórias todos os dias, antes dela adormecer entre as cobertas macias de pelo de veado que a mãe havia preparado especialmente para ela.

As histórias que ouvia em casa estimulavam a imaginação da pequena e bela Isabel. Através delas, ela desbrava pequenos outros mundos, viajava para outras localidades, conhecia outras pessoas, vivia outras realidades, mesmo que imaginárias e distantes.

Além de moldar o barro, as mãos de Isabel também eram hábeis para extrair a propriedade medicinal de certas plantas. Um ofício secreto, que como as histórias, foi-lhe passado pela avó. Mas diferente das histórias, esse ensinamento, a pedido da anciã, era um segredo que mantinha guardado para evitar o falatório desnecessário das pessoas do povoado. Assim como a extração das propriedades medicinais das plantas, foi lhe ensinada a arte da escrita e da leitura. Esses ensinamentos necessitavam permanecer em segredo. Elas viviam em um tempo onde as mulheres não poderiam demonstrar conhecimento acerca de nada. Apesar de desgostar dessa condição, ela mantinha a discrição.

Os moradores da vila eram devotos da senhora da Nazaré, a santa que diziam ter salvado a vida de D. Fuas Roupinho, um nobre guerreiro português, ao evitar que ele caísse de um despenhadeiro. O povo da vila era amistoso. As mulheres de Nazaré eram unidas e prestativas, mas, ao mesmo tempo, também eram austeras e simples, e o conhecimento sobre o funcionamento da vida que elas possuíam, era fruto da realidade do cotidiano que viviam, e nada mais. Isabel gostava de conhecer mais.

Sua mãe e sua avó não eram nativas do povoado, tinham migrado de outras terras da Espanha fugidas dessas guerras quaisquer que os humanos insistem em travar de tempos em tempos. Quando chegaram a Nazaré, foram acolhidas pelas pessoas do povoado e ali sua mãe conheceu seu pai, um pescador da vila, que na sua simplicidade continuou a exercer o ofício do seu avô. A renda da família, assim como da maioria das famílias de Nazaré, vinha da pesca e do comércio dos peixes. O tempo era de escassez, e novamente o perigo da guerra era eminente, mas mesmo diante das dificuldades as pessoas da vila não perdiam a fé e mantinham a dedicação ao trabalho com afinco.

Assim que o sol surgia no horizonte, ela se levantava. Sua rotina começava bem cedo, assim como a dos outros moradores do povoado. Pela manhã, ela descia até a beira da praia, onde ficavam os barcos e os outros materiais de pesca. O trabalho ia do início da manhã até o meio do dia, e ao término das tarefas, ela subia a colina e retornava para a casa. O povoado ficava na parte mais alta por questões de segurança, pois, era comum naquela região a invasão de piratas argelinos e holandeses. Por mais que os invasores representassem perigo, Isabel se lembrava das histórias de piratas que a avó contava e não conseguia evitar a excitação quando pensava na aventura que seria se isso acontecesse.

Quando os homens saiam para pescar, as mulheres esperavam, e nada mais restava a fazer. Como normalmente os peixes eram encontrados com mais abundância em alto mar, eles passavam dias pelo mar afora. Certamente era um trabalho perigoso, centrado na luta pela sobrevivência, nem todos os barcos conseguiam retornar, outros, por vezes, regressavam com um dos tripulantes sem vida, em virtude das tempestades. Por isso, as mulheres esperavam pelo regresso deles com os corações agoniados. Para elas, a vida girava em torno do confronto direto com o tempo e com as ameaças do mar. Ao conviver desde nova com essa realidade, ela aprendeu que o mar é símbolo de luta pela vida.

Durante a espera, os fios das horas eram desfiados pelos fios que teciam as redes. Ela recordava que a avó dizia que o mar era uma entidade inconstante e misteriosa e por isso, digno de ser respeitado.

Em razão do vento que fazia na beira do mar quando a noite se aproximava, principalmente durante o inverno, as mulheres do povoado acostumaram-se a vestir sete saias, como uma forma de blindar a temperatura e protegerem seus corpos do frio. Para passar o tempo durante a espera pelo retorno dos maridos e filhos que haviam partido para a pesca, elas teciam as redes e desfiavam a barra das saias. Uma saia de cada vez. Era um costume no mínimo, curioso para Isabel, mas ao desfiar as saias, as mulheres desfiavam também as horas e ao desfiar as horas, elas fiavam a esperança do reencontro.

As mulheres diziam que cada saia desfiada correspondia a uma onda e o ato de desfiar as saias, misturado ao fiar das redes, num ritual sincronizado, acontecia no tempo que a maré levava para baixar. De sete em sete ondas alterosas o mar acalmava. Uma onda para cada saia e assim como o mar, os corações das mulheres batiam em ritmo mais calmo. Quando a última saia estivesse desfiada, o barco encalharia na parte rasa do mar e a agonia estaria momentaneamente dissolvida, até a próxima partida, então o lamento começaria novamente, numa sucessão de ciclos.

Para conter a expectativa da espera e como forma de distração e união, as mulheres entoavam cantos, que para Isabel pareciam mais uma repetição de lamúrias. “Sete saias trazes ao cair da anca e a blusa branca que te está mesmo a matar, então os rapazes só querem que caias para contarem as saias com que andas a bailar.” O som do canto, indiferente das palavras que eram pronunciadas, concentrava sempre a saudade, a preocupação, a amargura e o desencanto que estavam no coração dessas mulheres. O canto revelava o fardo da vida.

A avó gostava de dizer que o número sete era especial, por isso os barcos estariam seguros após sete ondas. Isabel pensava que os dias da semana também eram sete, assim como sete eram as notas musicais dos instrumentos. Sete eram os planetas sagrados, também dizia a anciã, outra coisa que Isabel se perguntava como ela poderia saber. As cores do arco-íris eram sete e o padre do vilarejo dizia que sete eram as virtudes que os homens poderiam desenvolver, mas Isabel não acreditava muito nas virtudes dos homens. Em suas narrativas, a avó costumava contar uma história que dizia que o gato tinha sete vidas e sempre que ouvia isso, sabendo que dispunha de só uma, Isabel se perguntava quantas vidas veria ser dissolvida antes da dela. Essa espécie de pensamento costumava causar-lhe arrepios.

Ela odiava esses períodos de espera, assim como toda a agonia que se concentrava em torno desse ritual. Se sete era a quantidade de ondas que hipoteticamente deveriam garantir a segurança dos barcos de pesca e dos seus respectivos tripulantes, definitivamente o mar havia traído a confiança da jovem Isabel. Seu pai foi um dos homens que retornou da pesca sem vida, e foi trazido morto pelas sete ondas, morto pelas fúrias das águas em conflito com o vento que soprava a superfície do mar.

A vida de Isabel era marcada por uma sucessão de perdas. Antes da morte do seu pai, sua mãe morreu por uma doença que, depois de instalada, a destruiu lentamente. Seu irmão mais novo, afogou-se ainda pequenino numa onda forte na maré cheia, por um descuido momentâneo da mãe, que jamais conseguiu perdoar a si mesma e acabou sendo devorada pela tristeza. O corpo do irmão foi levado pelo mar e depois de muito desespero foi devolvido sem vida. Antes do irmão a avó faleceu devido ao avanço da idade. A morte da matriarca foi suave, tal como era o som da sua voz, mas antes de partir, ela disse para Isabel, como uma profecia, que não havia mal pior que alguém pudesse infringir a si mesmo do que não perdoar os próprios erros. Um ensinamento que ela presenciou pessoalmente.

— O mar tem ciúmes de te ver na praia, menina, disse-lhe a anciã um dia. Naquele momento, sentiu-se querida pelo mar, mas o querer durou pouco e o tempo mostrou que o mar, além de ciumento, também poderia se mostrar vingativo. Assim foi com o seu pai e com seu irmão e também com sua mãe, mesmo que indiretamente. Definitivamente, ela dispensava um amor assim. O mar só não tirou dela a avó. Ah! Como ela sentia saudades da sua decrépita e peculiar sabedoria.

Da pequena família, só restou Isabel, metade forasteira e metade nativa, num pequeno vilarejo junto ao mar, e o mar e o vilarejo eram tudo o que ela conhecia do mundo. Ao mesmo tempo, o mar e o vilarejo representavam tudo que ela desconhecia de si mesma. Isabel só tinha certeza acerca dos anseios do coração, e manter a lealdade ao coração era sempre um ato de heroísmo diante da vida, ela pensava.

Por mais que implorasse, os pescadores não permitiam que ela saísse ao mar junto com eles. Talvez, se ela pudesse avistar outros horizontes, sua vida teria algum desafio, além daquela rotina monótona que mais parecia um fardo que não estava disposta a carregar durante toda a sua vida. Seu desejo era ser viajante, mercador, marinheira ou qualquer outra coisa que a levasse para longe dali. Mas poucos eram os desejos concedidos às mulheres num mundo comandado por homens com punhos de ferro e corações de chumbo.

No vilarejo, o lugar preferido de Isabel era o farol. Quando encerrava suas atividades diárias, ela gostava de ir passear por lá, principalmente para fugir do lamento das mulheres nas horas de espera que para ela, pareciam durar uma eternidade. No farol, ela conseguia vislumbrar melhor o horizonte e repensar sua vida.

Antônio era quem vigiava o farol durante o dia, junto com outro rapaz que ela mal conhecia. Antônio e Isabel eram amigos desde a infância e devido a um problema que ele tinha na perna e causava lentidão aos seus movimentos, os homens do vilarejo não permitiam que saísse para pescar com eles. Sua função era vigiar o farol e tocar o sino se notasse que o vilarejo estivesse sendo invadido. Eles riam da condição de recusa que havia sido infringida a ele, sem considerar suas vontades pessoais. Antônio era o seu melhor amigo no vilarejo. O único que ela ousava escancarar seus desejos e que a ouvia sem julgamento ou estranheza. Um amigo sincero e com o coração puro.

Se por um lado Antônio era impedido de pescar os peixes do mar, por outro, a tarefa no farol e a proximidade com o céu o faziam ser um exímio observador das estrelas. Do farol, a noite revelava uma infinidade de pontos brilhantes, e o amigo era íntimo delas, usando-as como oráculos que narravam a vida dos homens.

Ali no vilarejo que nasceu, Isabel não tinha a sorte de sentir que estava em casa. Em seu âmago, ela sabia ser figurante de uma vida que não pediu, de um sonho que não sonhou, de promessas que não poderia cumprir. Suas fantasias, assim como sua curiosidade, foram desde cedo nutridas pelas histórias da avó e pelo horizonte que essas histórias proporcionaram para ela. Havia nela desejos que talvez nunca pudessem ser supridos.

Era o nono dia do mês de dezembro do ano de 1807. Ela convidou Antônio para colher flores na praia vizinha e apesar de estar de vigília, ele foi, pois, nenhum barco ou navio costumava aparecer naquela época do ano e como o outro rapaz também estaria por ali, ele não viu maiores problemas. Na areia da praia ao lado nasciam flores que eram boas para preparar chá para constipações intestinais. Naquele dia a névoa da maresia deu uma pausa, o sol estava escaldante, apesar do inverno, e o vento estava gélido, como de costume naquela estação. O vento parecia soprar com mais intensidade naquela região do farol.

Na noite anterior, as estrelas narraram um mau agouro, contou-lhe Antônio antes de descerem a colina em direção a praia. Isabel pensou em muitas possibilidades, mas naquele dia, o sol brilhava e ela não conseguiu pensar em nada tão triste. Eles colheram flores, conversaram e esqueceram-se do tempo. No caminho de volta, cruzaram com um veado e ela constatou que fazia algum tempo que não via mais esse animal. Na infância, eles apareciam com certa constância e uma vez a avó contou que eles eram animais consagrados à grande deusa.

O veado é um animal sagrado, minha pequena Isabel. Ele aparece sempre em momentos de encruzilhada ou de sacrifício. Na Arcádia, o homem vestido da pele de um veado era caçado e comido, e a caça era punição a alguma transgressão, contou a avó. A lembrança fez um arrepio percorrer a coluna de Isabel.

Ao retornar eles foram surpreendidos por uma agitação anormal. O farol, assim como o povoado, havia sido invadido por soldados franceses. Nazaré estava sob o domínio da França. O companheiro de vigia de Antônio estava morto. Assim que os avistaram, os soldados apontaram armas para ambos, querendo saber quem eles eram e onde estavam. Um deles segurou Isabel com força nos braços. Ela tentou soltar-se dele, mas ele apertou-a com ainda mais força e ela se rendeu a dor. Na confusão, Antônio foi ferido.

Assim que eles perceberam que eles não representavam perigo, ela levou o amigo ensanguentado para sua casa. Na dispensa, tinha alguns cataplasmas produzidos com ervas cicatrizantes e aplicou-os sobre os ferimentos no abdômen, mas o amigo já ardia em febre. Naquela noite, ele não resistiu e foi levado pela morte que foi trazida pelos homens que vieram do mar.

Ah! o mar, Isabel pensou. Essa antiga relação com o mar. As feridas de Isabel estavam reabertas e vertiam lágrimas. Ela era lágrima e saudade. Perda e solidão. O mar mais uma vez violentara sua ternura. O mar mais uma vez extraíra suas forças. Sentindo-se fraca, ela viu o mundo escurecer e apagou.

Com a cabeça a latejar fortemente, Isabel sentia-se como se tivesse retornado de um passeio no inferno, seja lá o significado que isso pudesse de fato ter. Apesar da dor, sentia-se aquecida e percebeu estar num quarto desconhecido. Receosa, ela sentou-se na cama e de repente, a porta se abriu.

Que bom que acordou, já estava preocupado com a senhorita, disse o homem ao entrar no quarto.

Quem é você, ela perguntou.

Sou o capitão Raoul, e peço-lhe imensas desculpas pelo descuido dos meus homens, tenha certeza que tudo farei para reparar a sua perda.

Apesar da invasão ao farol; que era um ponto estratégico de rota; e à vila, a ordem do capitão era para evitar conflitos desnecessários com os habitantes do vilarejo e poupá-los de violência.

A voz do capitão soou tão doce e por um ínfimo momento, Isabel sentiu uma pontada de segurança, mas ao lembrar-se do último acontecimento, ela deitou-se e adormeceu mais uma vez.

Raoul era um bravo, um filho da guerra que teve a sorte de ter um homem culto como pai. Aprendeu muitas línguas e entre elas, o Português. Quando percebeu a agitação causada pela moça desmaiada, dirigiu-se até a casa de Isabel e comovido pela beleza dela, carregou-a nos braços para a morada onde havia se instalado. Ao cuidar dela o capitão encantou-se de um modo que não conseguia explicar nem para si mesmo.

Isabel acordou novamente no quarto desconhecido. Ainda abalada, mas sentindo-se mais forte, levantou-se e encontrou o capitão sentado numa mesa da sala mexendo em alguns papéis. Conversaram bastante. Ela não conseguia entender porquê, mas sentia-se atraída por ele. Entre eles, uma afinidade cada vez maior foi sendo revelada. Apesar da invasão do forte e da revolução francesa que tinha chegado até Nazaré, a sobrevivência dos habitantes da vila dependia da pesca e por isso, as tarefas precisavam ser cumpridas, mas ao final do dia, eles se encontravam e passavam horas conversando. Ele tinha muitos livros e ela adorava ler. Ele ensinou cartografia para ela e também a língua francesa.

Com Raoul, o horizonte de Isabel expandiu consideravelmente, e ela voltou a sentir a alegria da vida, apesar de tantos acontecimentos tristes. Em uma noite estrelada, eles consumaram no corpo o amor que transbordava na alma. Por um instante, Isabel não soube responder se era o amor que revelava a intimidade ou se era a intimidade que revelava o amor entre duas pessoas. O que importa, afinal? Pensou, enquanto vivia a presença contida naquela entrega e sentia o som da respiração ofegante do outro deitado sobre sua pele desnuda.

Sete longos meses se passaram e durante todo esse tempo, o amor entre eles crescia. Eles fizeram planos. Entretanto, Raoul precisava regressar para a França, para tratar dos assuntos que estavam sob sua responsabilidade. Eles combinaram que ele abdicaria do seu cargo, retornaria para terras portuguesas para buscar Isabel e levá-la com ele de vez para a França. Ela não poderia viajar junto dele porque as leis francesas não permitiam às mulheres fazer parte de embarcações com estratégias militares e eles queriam evitar problemas. Três meses era o tempo que programaram para que tudo pudesse estar resolvido.

Depois de ter conhecido Raoul, a vida de Isabel já não era mais um sonho que não tinha sonhado. Sentia-se como se fosse a protagonista da própria história. Entre as muitas variáveis de sortes do mundo, Isabel tinha a sorte de um amor correspondido. No dia em que Raoul partiu, Isabel foi subitamente dominada por uma apreensão nunca sentida. Ela lembrou-se de como reclamava do lamento das mulheres quando esperavam pelos companheiros que tinham partido para o mar. Sentiu vergonha por ter desfeito das dores que agora sentia na pele.

Não vês que a última estrela no céu nublado se vela? Colhe a vela, oh pescador”, dizia uma das canções que o pai cantarolava quando os dois caminhavam em direção ao trabalho. Ela lembrou-se do pai e lembrou-se do que aconteceu com ele. Entre as memórias de Isabel, estava a da fúria do mar quando vento, raio e trovão o desafiam. O pai dela sucumbira a esse confronto e afogou-se quando lançado nas águas num dia de tempestade. O mar não gosta de ser contestado.

No terceiro dia após a partida de Raoul, Isabel acordou cedo, vestiu sete saias, mas ao invés de ir para o trabalho, foi até a praia colher flores para espantar a angústia. Um mau tempo formou-se com rapidez e ela correu para proteger-se num abrigo no pé da colina. Desafiado pela tempestade, o mar se levantou em fúria e se havia algo no mundo que ela sabia, era do que a fúria do mar era capaz.

Diante do tempo, o fio do destino de Isabel parecia ser feito de pontas soltas, naquele instante, nem o desfiar das sete saias fiaria a esperança no coração de Isabel. Naquela noite, ao retornar para casa, ela deitou-se desorientada e seus pensamentos resgatavam outro fragmento de uma canção antiga, “como no céu gira a estrela, como a todo o ente o seu fado“, e devido ao turbilhão de emoções, foi possuída pelo cansaço e adormeceu em sono profundo. Sonhou com a morte do seu amor.

De repente, o seu mundo transformou-se num longo inverno. Assim que amanheceu, Isabel saiu em direção ao farol e vestia suas sete saias. O mar tem ciúmes de te ver na praia, menina, ela lembrou-se das palavras da avó. Do alto do penhasco pode ver o corpo de Raoul, dos outros marinheiros e vestígios do navio que foram cuspidos pelo mar na areia da praia. Ao redor deles, os moradores da vila corriam de um lado para o outro, aflitos, mas sem notar a presença dela que acompanhava em silêncio todo o desespero. Isabel ficou ali no alto paralisada pelo choque de ver o corpo do seu amor sem vida, estendido na areia na praia.

Corra chamar Madame Isabel, ela ouviu um soldado gritar para outro em francês. Aquela altura ela já tinha aprendido falar a língua natal de Raoul.

No silêncio da constatação da perda que estava diante de si, sua dor mais profunda foi semeada e enraizou-se nela com a velocidade de um raio. Diante da confabulação da sucessão de eventos da sua vida, sentia-se pouco a pouco se desvanecer. Se ao menos, conseguisse suportar a dor e em procissão interna aceder ao espaço onde são confeccionados os sonhos, onde tudo aquilo que é, pode vir a ser diferente em possibilidades, mas não, absolutamente não sonharia mais daquele momento em diante. Ao menos, não um sonho que valesse a pena.

De que adiantava suas mãos moldarem o barro e expressar beleza se a vida a moldava em uma sucessão de tristezas? A sonoridade da voz familiar do desencanto sussurrou no ouvido de Isabel, era uma voz conhecida. Quando a avó contava que o gato tinha sete vidas, sabendo que dispunha de só uma, ela se perguntava quantas vidas ela veria ser dissolvida antes da dela. Maldita seja a curiosidade, ela pensou. Agora ela sabia a resposta. Sete. A da avó, a do pequeno irmão, a da mãe, a do pai, a do amigo, a do amor, a própria. Como se mais nada restasse, atirou-se do alto do penhasco, em direção as rochas, ali, onde a dor de um coração partido sucumbiu ao peso da vida.

Sete vidas foram levadas pelo mar num vilarejo português. O mar, que enciumado não deixou Isabel ficar com mais ninguém. Naquele dia, o mar recebeu o sangue que escorria do corpo desfalecido de Isabel no choque com as pedras. Ela era um cálice de sacrifícios. No mar, o vermelho do sangue misturou-se ao branco das espumas que se formavam do choque das ondas com as pedras.

Naquele dia, sete ventos sopraram em homenagem ao drama de Isabel. Depois daquele dia, o mar se recolheria em sete dias de calmaria para vivenciar a ausência de Isabel. Os habitantes da vila de Nazaré fizeram sete dias de vigílias pelo corpo dos amantes e dos outros tripulantes. Os bardos cantaram sete canções em sua homenagem.

Ela vivera em Nazaré, onde as mulheres vestem sete saias. Agora, Isabel era só uma memória, só mais um fragmento de imagem junto a tantos outros destinados ao esquecimento, arquivados na memória do mundo e de quem já não vive mais para recontar. Mas o vento que sopra no farol de Nazaré não esqueceu e sussurrou a história de Isabel para uma viajante que visitou o penhasco de onde a dama das sete saias se atirou.

— Catarina Spagnol

Imagem: Herbert James Draper

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