As mulheres na filosofia

A história do exercício filosófico parece ser um campo dominado por homens, uma vez que muito pouco se ouve falar da atuação das mulheres nesse âmbito do saber, ainda mais quando se investiga os primórdios da filosofia.

Quando iniciei minha graduação nessa área, a indagação que fiz para mim mesma foi: Onde estão as mulheres? Pergunta que de fato incomodava bastante.

Juliana Pacheco Borges da silva, Mestranda em filosofia pela PUCRS escreveu um livro sobre o assunto. “Por que não há mulheres filósofas?”, eis a pergunta feita por ela, em “Filósofas, a presença das mulheres na filosofia.”

O livro está disponível para download gratuito no site da Editora fi.

Além do livro de Juliana Pacheco Borges da Silva, encontrei um projeto lindíssimo e riquíssimo da Universidade de Lisboa com o título “Mulheres na filosofia — Marginalidade e alternativa”, coordenado por Maria Luísa Ribeiro Ferreira e Fernanda Henriques, que que resultou numa publicação impressa com o mesmo título.

Sobre as mulheres e o exercício da atividade filosófica

A tradição filosófica ocidental surgiu na Grécia, por volta do século VII A.C.

A partir desse período, basta observar os grandes nomes que obtiveram destaque. Desde os filósofos denominados como pré-socráticos, pós-socráticos, do período medieval, e do renascimento são nomes masculinos, com raríssimas exceções.

Bom, sendo assim, quer dizer que a atividade filosófica pertencia somente aos homens?

De jeito nenhum!

Como escreveu Maria Luiza Ribeiro Ferreira: “A existência de mulheres no campo da filosofia é óbvia, contudo, os protagonistas da filosofia são homens.”

Se a filosofia nunca foi uma atividade exercida somente por homens, o que explica o fato de ser protagonizada em sua maior parte, por eles?

Segundo Margarida Gomes Amaral, Doutora em Filosofia, “pelo facto de, por tantas vezes ao longo da História, as mulheres terem sido relegadas para segundo plano, as suas reflexões, de certeza existentes, não conheceram na maior parte das vezes a luz pública. O fim desta condição a que as mulheres foram condenadas — a qual, por assim dizer, as obrigou a atrasarem a sua exposição intelectual — permite-lhes trazer ao domínio público a riqueza do seu pensamento. O que me parece pouco interessante, e até contraproducente relativamente à própria valorização da mulher, é insistir na ideia de um pensamento filosófico feminino ancorado no pressuposto de uma diferenciação de superioridade das mulheres em relação aos homens. Creio que toda a humanidade teria a ganhar se se ultrapassasse a questão da superioridade intelectual entre homens e mulheres, se esta questão deixasse de ser sequer um assunto, e nos concentrássemos na compreensão de um mundo já por si suficientemente, e cada vez mais, complexo.”

Sendo assim, a partir da reflexão feita acima, o problema não é a existência óbvia das mulheres no campo filosófico, mas a invisibilidade delas que, em virtude de estarem inseridas numa cultura que foi patriarcalista, exerceram a filosofia à margem.

Como Margarida Gomes Amaral deixa claro no artigo, não se trata de medir a superioridade intelectual de um em detrimento do outro, tampouco de questionar os valores de suas obras, mas sim de mostrar a inegável marginalização das mulheres que se propuseram a esse campo de saber.

O conceito do feminino ao longo da história da filosofia

A Grécia foi um palco de antagonias quando se trata do conceito do feminino. De um lado temos a mulher deslocada para um segundo plano, do mesmo modo que as crianças e os escravos, e que fundamentou toda nossa tradição ocidental, refletindo até hoje nas bases do pensamento. Do outro, temos o conceito do feminino sustentado pelo arquétipo da força, coragem e convicção, narrados a partir dos mitos.

Em tempos onde o Mito era a linguagem do conhecimento, o feminino era certamente o transmissor do saber. A palavra e toda autoridade que dela emanava, era um poder conferido às nove Musas, nascidas de Mnemosyne e Zeus.

“Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.”

Entretanto, com a substituição da linguagem do mito para a linguagem do logos, a cultura patriarcal não isentou os filósofos de se sustentarem numa postura machista, na qual estavam submersos completamente. É importante ressaltar que nem por isso o valor de suas obras pode ser reduzido.

Vejamos alguns exemplos da manifestação dessa postura machista dentro do âmbito da filosofia, propostos por Maria Luísa Ribeiro Ferreira em seu artigo “As mulheres e a filosofia”, que seguirei nessa reflexão.

  • Na obra “Timeu”, Platão conta que os homens que exercerem más ações correm o risco de nascerem em outra vida na condição de mulher. Veja as palavras do filósofo sobre isso.
“Aquele que viver bem durante o tempo que lhe cabe, regressará à morada do astro que lhe está associado, para aí ter uma vida feliz e conforme. Mas, se se extraviar, recairá sobre si a natureza de mulher na segunda geração; e se, mesmo nessa condição, não cessar de praticar o mal, será sempre gerado com uma natureza de animal, assumindo uma ou outra forma, conforme o tipo de mal que pratique.”
  • Em Geração dos animais, Aristóteles deixa claro que a fêmea é um macho mutilado.
  • Espinosa em “Tratado Político” nega com veemência a participação das mulheres na democracia.
“Se as mulheres fossem por natureza iguais aos homens e sobressaíssem igualmente pela fortaleza de ânimo e pelo engenho, que são aquilo em que acima de tudo consiste a potência humana e, por conseguinte, o direito, sem dúvida que, entre tantas e tão diversas nações, se encontrariam algumas onde os dois sexos governassem em paridade e outras onde os homens fossem governados pelas mulheres e educados de modo a terem, pelo engenho, menos poder. Como isto não aconteceu em parte nenhuma, é totalmente lícito afirmar que as mulheres, por natureza, não têm o mesmo direito que os homens e estão lhes necessariamente submetidas, de tal modo que não é possível acontecer que ambos os sexos governem de igual modo e, muito menos, que os homens sejam governados pelas mulheres.”
  • Jean Jacques Rousseau, um dos principais filósofos do iluminismo não pensava muito diferente. A seguir a transcrição das palavras dele.
“Na união dos sexos cada um concorre igualmente para o objecto comum, mas não da mesma maneira. […] Um deve ser forte, o outro passivo e fraco: é preciso, necessariamente, que um vigie e tenha poder, sendo suficiente que o outro ofereça pouca resistência. Estabelecido este princípio, deduz­‑se que a mulher é feita especialmente para agradar ao homem. (apud Henriques, 1998b: 188­‑189)”
  • Para Kant, a capacidade que o homem possui de usar o próprio entendimento é o que o conduz à saída da menoridade. Entretanto, para esse filósofo, “a passagem das mulheres à maioridade intelectual” é considerada completamente difícil. Desse modo, para ele as mulheres seriam incapazes de pensarem por si mesmas.
  • Nem mesmo Friedrich Nietzsche escapou de uma visão machista sobre o mundo. Veja o que ele escreveu em “Para além do Bem e do Mal.”
A mulher não compreende o que significa a alimentação: e quer ser cozinheira! Se a mulher fosse uma criatura pensante teria descoberto “na sua qualidade de cozinheira” há milhares de anos os maiores fenômenos fisiológicos e teria sido capaz de ter obtido o monopólio da medicina!

De modo geral, Platão teve uma postura muito confusa em relação às mulheres. Em “Timeu”, como já foi mencionada anteriormente, ele declarava que a condição do feminino podia eventualmente ser um castigo aos homens. Já na obra “Fédon, a imortalidade da alma”, ele expulsa as mulheres do quarto como se fossem indignas de participar de um debate filosófico. Em “A República”, ele propõe na medida do possível para a cultura vigente, uma igualdade entre o homem e a mulher, apesar da diferença do gênero. No Banquete, ele deu voz à Diotima de Mantínea, a sacerdotisa que lhe transmitiu o conhecimento acerca do que é o amor.

“E a ti eu te deixarei agora; mas o discurso que sobre o Amor eu ouvi um dia, de uma mulher de Mantinéia, Diotima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros — foi ela que uma vez, porque os atenienses ofereceram sacrifícios para conjurar a peste, fez por dez anos recuar a doença, e era ela que me instruía nas questões de amor — o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir — vos, a partir do que foi admitido por mim e por Agatão, com meus próprios recursos e como eu puder.”

Segundo a professora Fernanda Henriques, a proposta de Platão na “República” de estabelecer uma igualdade entre os gêneros e desse modo possibilitar a mulher de desfrutar de um acesso máximo ao saber e poder foi completamente ignorada, apesar da aceitação da importância da obra. De acordo com ela, é importante ressaltar que nem mesmo a proposta de igualdade faz de Platão um assíduo defensor das mulheres. Nesse caso, o filósofo seria somente a favor da legitimidade da mulher perante o exercício filosófico.

Discorrer sobre a preponderância do protagonismo masculino no âmbito filosófico é absolutamente significativo porque nos mostra que não é que as mulheres não exerciam a atividade filosófica, mas que esse exercício por parte das mulheres era mantido sob uma névoa de invisibilidade.

As brilhantes mulheres na filosofia

A lista de mulheres que concederam à filosofia a honra de sua presença é imensa e estará disponível no final dessa reflexão.

Certamente que o ideal seria abordar cada uma delas, mas o texto ficaria demasiadamente longo e de qualquer forma, os links para os sites que serviram de fonte poderão ser posteriormente consultados.

Se não podemos por hora nos ater a cada uma delas, prossigamos ao menos, em alguns exemplos, mantendo a proposta central dessa reflexão, que é mostrar a invisibilidade e consequente marginalidade da mulher no âmbito filosófico.

Hoje diz-se que uma boa ação é aquela que gera o máximo de bem possível e poderíamos dizer que devemos isso a John Stuart Mill, correto?

A resposta é não.

Harriet Taylor foi esposa de John Stuart Mill e segundo consta contribuiu com as obras dele. Porém, dizer que Harriet Taylor contribuiu com ele é o mesmo que marginalizá-la, não atribuindo a ela o devido lugar de destaque, tal como foi conferido a ele.

“Todos os meus escritos publicados eram tanto o trabalho da minha esposa quanto o meu. A sua participação aumentou constantemente à medida que os anos avançavam.” J.S. Mill

Onde estão as mulheres na filosofia? Segundo Isabel Roldán Gómez — da Universidade de Salamanca, na Espanha — elas aparecem nos apêndices e nas margens.

Em 1964 Hannah Arendt concedeu uma entrevista a Günter Gays. Ao ser questionada sobre o fato de ser a primeira mulher a participar da serie de entrevistas como filósofa — uma vez que o exercício da filosofia era uma atividade exclusiva dos homens — ela respondeu que não acreditava ser admitida no círculo dos filósofos tal como ele supunha.

“É perfeitamente possível que uma mulher chegue algum dia à filosofia”, complementou.

Ora, se em 1964 seria possível que uma mulher chegasse ao exercício da filosofia como ofício, é porque até então nenhuma ainda havia chegado, ou não era comum ou se era, ainda estava submetida à névoa da invisibilidade.

Uma rara exceção à submissão da mulher à margem foi o caso de uma importante filósofa do período medieval. Se o feminismo possui uma precursora, certamente o cargo pertence à Hildegard Von Bingen, que aos trinta e oito anos de idade contrariou o adágio da igreja sobre a necessidade da mulher permanecer calada e fazia peregrinações com o claro propósito de pregações, ignorando todas as ordens vigentes.

Poetisa, mística, profeta, filósofa, compositora, cientista, Hildegard foi uma mulher que conseguiu conquistar o privilégio de exercer atividades exclusivas dos homens, deixando um rico legado filosófico e principalmente teológico.

Abaixo, descreverei uma lista de importantes mulheres no âmbito da filosofia.

  • Enheduana
  • Temistocléia
  • Aristocléia
  • Sabo de Lesbos
  • Apásia de Mileto
  • Diótima de Mantinéia
  • Hipárquia
  • Maria, a Judia
  • Hypatia de Alexandria
  • Hildegard Von Bingen
  • Heloísa de Paráclito
  • Catalina de Siena
  • Christine de Pisan
  • Teresa de Jesus (de Ávila)
  • Louise Labé
  • Harriet Taylor
  • Mary Astel
  • Mary Wollstonecraft
  • Olympe de Gouges
  • Rosa de Luxemburgo
  • Lou Andreas-Salomé
  • Santa Teresa da Cruz (Edith Stein)
  • Maria Zambrano
  • Any Rand
  • Hannah Arendt
  • Simone de Beauvoir
  • Graciela Hierro
  • Simone Weil
  • Ângela Davis
  • Judith Butler
  • Iris Marrion Young
  • E.M Anscombe
  • Anne Dufourmantelle

Portanto, como escreveu Margarida Gomes Amaral em “Mulheres e a filosofia”, “é claro que há mulheres filósofas!” A questão é que agora elas podem se distanciar da posição de marginalidade a qual foram submetidas durante muito tempo.

— Catarina Spagnol

Fontes: