Crônica do fofoqueiro

Sempre alerta para os acontecimentos da vida alheia, o fofoqueiro passa o dia entre dois estados de espírito: a expectativa visceral de cuidar da vida do outro e o repúdio pelo vazio que é sua própria existência.

A vítima do fofoqueiro? É escolhida aleatoriamente diante de qualquer deslize ou de qualquer conquista ou de qualquer movimentação diferenciada de qualquer humano ao seu redor ou de qualquer lugar do mundo.

O defeito do fofoqueiro não é a seletividade, o defeito maior do fofoqueiro é julgar-se perfeito aos olhos do mundo. O fofoqueiro esquece-se de aceitar o desafio de encarar a si mesmo e passa a vida atento ao conhecimento fugaz que possa vir a ter do outro.

O outro?! Ah, o outro! Um mundo a ser disseminado sem dó nem piedade pelo enfadonho fofoqueiro.

Mas não pense você que o fofoqueiro é prestativo em relação ao alvo da sua fofoca. Longe disso, aliás. Muito longe. Todo o seu trabalho gira simplesmente em torno do aperfeiçoamento da arte do fuxico.

O fofoqueiro só quer mesmo saciar a curiosidade sobre a vida alheia e acredite, a cada novidade, um gozo. Afinal, uma vida vazia tem que ter certa dose de prazer.

Curioso é o fato que a fofoca dificilmente corresponde à realidade do fofocado, mas afinal, fofoqueiro que é fofoqueiro nem se importa com isso. Entre uma fofoca e outra, o fofoqueiro procura pelo ouvido mais próximo.

Ah, o ouvido mais próximo. O êxtase do fofoqueiro é vislumbrar um novo ouvido para uma nova fofoca e assim dar continuidade a sua infindável atividade.

Para o fofoqueiro, todo ouvido é penico e assim, o fuxiqueiro passa adiante sua maior preciosidade: a fofoca, que vale dizer, é considerada por ele como um tesouro. O triunfo dos justos.

Discorrer sobre o fofocado é o troféu das línguas soltas do mundo. Não basta saber, para o fofoqueiro é preciso contribuir ativamente na difamação.

E coitado do ouvido mais próximo. Na ânsia despeitada de passar adiante o mexerico, o infame fofoqueiro nem sequer se importa em saber se o desventurado à sua frente está disposto a ouvir o enfadonho enredo.

Há no fofoqueiro um toque de maldade diluída, afinal. E talvez todo mundo tenha um pouco do fofoqueiro dentro de si, mas convenhamos senhores e senhoras, convenhamos, alguns exageram na dose e são mais que eficientes na insensível arte da fofocagem.

Sujeitinho infame, o fofoqueiro.

~Catarina Spagnol

Like what you read? Give Catarina Spagnol a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.