Ludwig Feuerbach e a essencia da religião

Ludwig Andreas Feuerbach foi um filósofo alemão, ateu e aluno de Hegel, que nasceu em 28 de julho de 1804 e faleceu em 13 de setembro de 1872 em Nuremberg.

Antes de iniciar o cerne dessa reflexão e demonstrar a ótica de Ludwig Feuerbach acerca da origem da religião, é importante exprimir alguns conceitos fundamentais que o autor tem de alma e imortalidade, para somente então adentrar no espaço daquilo que ele concebe como sagrado.

Sobre a alma, ele escreveu: “Tudo aquilo que o homem ama e exerce apaixonadamente é que é a sua alma”. Em relação à imortalidade, Feuerbach considera somente possível sob a condição de ser observada sob o ponto de vista da antropologia, e por isso só existe enquanto o homem é parte integrante da coletividade que é a espécie. Desse modo, a alma do homem só poderia ser diversa e específica quanto os próprios homens. Por isso a imortalidade, no antigo sentido da palavra, aquela existência eterna, ilimitada, só é possível a uma alma indefinida, vaga, que não existe na realidade, que é apenas uma abstração humana e uma fantasia.

Entretanto, enquanto a grandeza da natureza humana é inegável, ela é contraposta pela finitude imposta pela característica mortal do indivíduo. Do confronto entre a essência da humanidade, imortal e grandiosa, versus a individualidade circunscrita pela natureza, resta ao homem projetar para fora de si o seu poder e a sua vastidão. A finitude da consciência é exposta e fica explícito para o homem que ele não é nenhum ser absoluto e muito menos imortal. É a partir da constatação dessa finitude do ser que Ludwig Feurbach afirma que o homem constrói a incredulidade sobre a sua própria grandiosidade. Além da incredulidade na própria grandeza do homem, há a sensação de medo sobre essa finitude, e o medo é um aspeto da dependência, a matriz da religião. Primus in orbe Deos fecit Timor, ou, o medo foi o primeiro que criou deuses no mundo. E o medo pode ser definido como o sentimento da dependência de um ser sem ou pelo qual um indivíduo não é mais nada.

Théos é a palavra grega para Deus, o objeto da religião, que é, portanto, a transferência do manancial ilimitado e infinito da espécie humana para algo que é difícil de definir e nomear. Por isso a história da religião — que tem Deus como objeto — nada mais é do que a história do homem. Desse modo, tal como o homem, Deus também passa por diversas formas de representações que alicerçam a história da humanidade, e a religião passa a ser o fundamento da vida humana, o fundamento da moral e da política, ainda que fantasiosa.

Desse modo, Deus é somente uma deidificação de possibilidades da humanidade projetada para fora dela e é por essa razão que Ludwig Feurbach afirma que o homem que é o criador de Deus e não o contrário. Em suas palavras, “Que resta de Deus se eu na imaginação, anular o mundo? Onde fica sua força, se ele nada faz? E sua sabedoria, se não existir mundo em cujo governo consiste precisamente sua sabedoria? Onde sua bondade, se nada existe com o que ele possa ser bom? Onde sua consciência, se não existe um objeto através do qual ele tenha consciência de si? Onde sua infinitude, se nada finito existe? Porque ele só é infinito em relação ao que é finito. Por isso, se eu excluir o mundo, nada mais me resta de Deus”. [i]

Se na base ontológica de Deus está a projeção criadora do homem para um objeto de representação, a personificação dessa potência torna-se também um obstáculo construído que escraviza o indivíduo. A criação volta-se contra o criador. Por conta do medo da morte, o medo de Deus. Do medo, a contínua necessidade de dependência nefasta dessa projeção denominada de Deus. Se tudo depende de Deus, a dependência é a base da religião. De um simples objeto de projeção, Deus passa a ser um obstáculo para o homem.

— Catarina Spagnol

[i] Feuerbach, Ludwig. A essencia da religião. Página 90