Eu ando tão chateada com algumas coisas que acho mesmo que vou largar tudo por aqui. Mas antes de mais nada:
a maioria do que penso está relacionado com esse livro do Verger que eu namoro há tempos. ele está exposto na ldm, uma livraria perto de casa também conhecida como a-livraria-que-eu-mato-aula.
eu estou obcecada com o quanto somos capazes de nos vender, e, já que está na nossa natureza, com o quanto nosso valor é pífio.
deixe-me explicar:
esse livro é uma coletânea de fotografias sobre Salvador, que eu queria já ter comprado pra mim, ma$ é um pouco $algado e no fim das contas talvez seja bom, já que ele tem a diagramação grande e eu não teria muito onde colocá-lo — a ideia de alguém mexer nele me deixa coisada. ele tira fotos realmente muito bonitas a respeito de nossa cultura, e ainda escreve sobre o que viu/sentiu/cheirou aqui na Bahia, e muito disso me é familiar — recente, porém já sinto que faz parte de quem sou.
e não vou nem dizer que comparar a Salvador que ele conheceu com a que eu conheço me deixou irritada -que é minha reação natural para as coisas que não concordo. só me deixou extremamente triste. sei que isso é clichê, afinal de contas não podemos impedir a bla bla bla modernidade seja lá o que isso for, mas eu notei a quantidade de árvores que tinha na Praça Cairu pra quantidade que temos hoje — quero dizer, o Mercado Modelo tinha realmente um anel verde e maravilhoso de arborização, e hoje quando ando por lá me parece tudo concreto.
não sei por que isso me deixou tão triste, já que sou fruto dessa geração e pra ser sincera não conheço outra Salvador além dessa, e pra ser ainda mais sincera olha que eu já vi o estado daqui pior, mas eu não consegui tirar isso — e as imagens — da cabeça, desde quando voltei de lá e quando cheguei em casa pra dormir (é, eu tô chateada mesmo) isso ainda ficou martelando, assim como ao acordar. e eu senti uma tristeza muito, muito profunda pelo jeito como nos deixamos vender aqui.
sou muito impaciente e me lembro de quando saía com meu pai pra programas tradicionais, tipo ir na ribeira, sempre passávamos pela av. contorno e então o comércio, e não importava quantas vezes isso acontecesse — e eram muitas — ele sempre tecia os mesmos comentários a respeito da deterioração dos prédios, e eu sempre pensava exatamente a mesma coisa, que era um misto de desinteresse com amuação (porque detesto quando tô afim de fazer um passeio com a pessoa e ela fica botando um monte de defeito em tudo, mesmo que esses defeitos existam). e eu pensava que a beleza de Salvador era justamente essa, isto é, ser uma cidade que resiste.
Pode ser um pouco de ignorância da minha parte, mas pra mim sempre houve algo de familiar nos prédios que estavam semi-acabados, nas construções muito antigas, porque a impressão que se tem é que apesar de ameaçarem, elas nunca vão cair. Assim como Salvador, que apesar de ter passado por tantas coisas — desde a escravidão até os dias atuais — sempre se sobrepôs. O Verger chamou esse lugar de “provinciano”. Hoje, ele é tudo, menos “provinciano”.
Eu costumava julgar Salvador uma beleza escondida. Para encontrar os lugares mais bonitos, você precisa procurar, não só pela nossa geografia, que eu considero um pouco confusa, como também pelas condições sociais e o que elas interferem no processo. Você precisa abrir mão das suas concepções e, sobretudo, precisa abrir mão de si mesmo para tentar entender. Não estou dizendo que é uma cidade feia. É uma cidade que só se mostra se você estiver disposto a amá-la e compreendê-la.

Existem pessoas que fazem viagens até esse lugar e clamam que nunca viram nada demais, mas já conheci gente que ficou pra sempre. Talvez isso seja um fenômeno mundial e eu só esteja sendo territorialista. Lembro da primeira vez que fui sozinha ao Humaitá, e entrei por uma rua tão estreita e mal-iluminada (eu tinha chegado tarde e o que era pra ser um pôr do sol terminou sendo noite mesmo), em uma piscada eu estava na frente de uma borracharia, e quando pisquei de novo, lá estava, a praia sem ondas típica da cidade baixa, com as marolinhas se estendendo e o caos que é a cidade nada mais do que luzes do outro lado da água.
É um pouco bobo desejar que as coisas sejam “como antigamente”, ainda mais se não viveu o “antigamente” e todo mundo sabe que temos a tendência a romantizar as coisas e sempre achamos que no nosso tempo tudo era melhor, porque a dimensão da memória é eterna. Mas não posso deixar de sentir inveja de uma cidade em que, pra norte de Amaralina, tudo era praia. Algumas coisas ainda estão aqui e são as mesmas, o cheiro de frutas de feira vendidas na rua, caju misturado com manga, a fumaça de azeite subindo quando os acarajés são fritos, mas na nossa ânsia de tornar tudo não sei nem a palavra, e acompanhar o ritmo da cosmópolis, a gente perde a essência. Boa parte eu ponho na conta do capitalismo, mas a maior é da nossa ganância que cresce assustadoramente.
Acho tão engraçado porque dizem que nós, que nascemos depois dos anos 70, somos uma geração iluminada, que isso e aquilo, mas o que vejo é tudo ser diluído e misturado em cinza, e as pessoas têm um cheiro esquisito e gostos mais esquisitos ainda. E em relação à todas as “boas vibrações”, nossa ânsia em ascender ao metafísico, às vezes tudo o que penso é que é uma armadilha para satisfazer nosso próprio ego. Também sou muito dura em todos meus julgamentos e devia abstrair, mas a verdade é que isso me cansa. Nós simplesmente sucateamos tudo o que era vivo e farto e vendemos para algum Imperialismo lá fora, ainda que eu não saiba dizer que Império é esse, se ele é material, se ele realmente existe e se todo esse grito alojado em minha garganta eu poderia deixar no quintal de alguém. E eu fico aborrecida não porque não temos mais bonde em Salvador, mas porque o metrô parece uma grande cobra prateada cuspindo poluição pra tudo o que é canto, e todo mundo quer ter um carro, e isso é tão estúpido e eu não entendo qual é a desse grande, enorme esquema que eu sou pequena demais pra compreender que dirá resolver.
Parece que tudo é uma mentira repetida sei lá quantas vezes para que você acredite, como se quisessem te empurrar uma violência só para que você compre um carro. Como pedestre, fui assaltada duas vezes — em uma delas a falta de dinheiro fez com que o ladrão me devolvesse meus “pertences” que não valiam nada, na outra eu tava com uma câmera antiga que usava pra tirar fotos do mar. Nas duas ocasiões, eu só pensei que tudo é um efeito colateral da cadeia que vivemos atualmente, a que não permite que você saia de casa sem um celular e que fique mais preocupado com o aparelho do que com a própria vida.
(acho que tô muito resmungona, mas se não puder escrever, como não explodir?)

Eu queria mesmo não ficar resmungando a respeito de tudo. Eu decidi que não vou levantar punho pra nada, nem bradar contra nada, porque não preciso que minha voz alcance alguém mais do que a mim mesma, e pra isso ela pode ser apenas um sussurro. Então só vou deixar registrado um dos meus dias preferidos, porque ando precisando.
(foi o dia que fiquei de peruar lá na UCSAL, e matei aula do cursinho pra isso. Mas estava tudo de um azul tão brilhante que saltei no Rio Vermelho bem cedo da manhã, e com a câmera na mão, fiquei observando os homens descamando a pesca do dia. Eu não sou fotógrafa e não tenho a mínima experiência com fotografia, nem tenho jeito de abordar pessoas; então simplesmente fiquei lá, encarando o trabalho, quando um homem perguntou se eu queria tirar fotos do barco, e eu disse que sim. Ele era um negro muito forte e tinha nas mãos um facão e o odor característico de peixe misturado com salitre. Perguntou se eu era bióloga; disse-lhe que não. Aí perguntou se eu era turista. Respondi que era daqui mesmo, mas que não conhecia muita coisa cultural de Salvador, e perguntei a ele há quanto tempo pescava e se conseguia sustentar a família com isso, e sentindo minha apreensão baixar porque era a única mulher num reduto de sei lá quantos homens, e que posso fazer?, sou uma menina amarela e tenho medo das coisas.
Ele me respondeu que pescava há vinte anos, mais ou menos, e criara toda a família com aquele ofício. Depois de registrar um pouco da casa de Iemanjá, com ele me explicando que eram eles, os pescadores, que mantinham o lugar arrumado, eu lhe indaguei se não queria, ele, aparecer em alguma foto. Ficou desconcertado e não quis, eu insisti um pouco. Então ele se aprumou e tentou fazer uma pose, ao que eu lhe assegurava que se a foto ficasse ruim, tiraria outra.
Bom: Essa é uma das fotos. Voltei pra casa no mesmo dia e nunca contei ou mostrei isso a ninguém, principalmente porque era a coisa mais real que eu já tinha tangenciado.
Certas coisas, talvez, permaneçam as mesmas por aqui.
