A Maternidade precisa ser um constrangimento social?

Tenho observado com bastante inquietude uma exclusão de mamães e gestantes dos ciclos sociais e profissionais. Quando a mulher engravida já começam a questionar o seu desempenho, julgar se ela não está sonolenta demais e muitos deixam de chama-la para projetos futuros por presumir que ela provavelmente já tem coisas demais na cabeça.

Existe um movimento muito importante de promover rodas que acolhem mulheres para iniciarem diálogos e trocas sobre assuntos complicados referentes a maternidade, como o puerpério, a amamentação, depressão pós parto etc. Esses círculos tem feito toda a diferença desmistificando o fato de que nascemos prontas para sermos mães. Nessas conversas mulheres descobrem com seus próprios exemplos, que a maternidade é algo que cada uma de nós constrói como pode, a custa de muitos choros, erros, acertos e que não existe o surgimento de uma mãe espetacular na primeira mamada. Porém, o que ainda não vi foi um espaço para as futuras mamães conversarem sobre o seu retorno ao mercado de trabalho, retorno a mesa de bar, ou até mesmo retorno ao tinder… É como se essa angústia não merecesse atenção e se uma mulher está preocupada com isso é porque ela nem deveria ser mãe.

Tenho visto que, ser mulher em uma sociedade machista é uma resistência, mas ser mãe e querer continuar vivendo em sociedade é querer escalar um muro, chamado patriarcado, com cerca elétrica, cerca viva, cachorro bravo e pessoas jogando tomates em vc.

A maternidade incomoda e incomoda muito. Tudo é um tabu, parece que adultos que não tem filho vão direto para a quinta série e ficam extremamente desconfortáveis com fralda de coco, peito que sai leite, bebê que chora e sai catarro e sempre olham torto com nojinho. Passam a justificar esse “eu quinta série” com um discurso de que “boa mãe” é aquela desaparece e não obriga a sociedade a conviver com o seu filho. Já ouvi gente falando que neném que viaja de avião deveria ser sedado, pois ninguém é obrigado a conviver com choro de criança: “Choro de criança invade a minha individualidade”.

Quando vc exclui uma criança de um ambiente porque ela faz birra ou porque vc acha cult/desconstruído falar “eu não gosto de criança” você exclui uma mãe também. Até parece que todo mundo aqui nasceu sabendo conviver em sociedade, com educação perfeita e nunca deu trabalho para ninguém. A criança precisa da convivência para amadurecer seus limites sociais assim como a mãe precisa dessa mesma convivência para viver e ser feliz. Temos que acolher as mães que querem continuar vivendo em sociedade e nem sempre podem contar com uma rede de apoio paterna para ajudar na labuta de criar esse filho.

Temos que ser essa rede de apoio pois a criação de uma criança não é responsabilidade inteira da mãe, ela é da comunidade. Engana-se quem acha que não tem nada a ver com a criança “dos outros”. Afinal, pasmem, mas a criança de hoje é nada menos do que o adulto do futuro. E pensa bem, que tipo de adulto você quer vivendo no futuro? Um ser individualista sem a menor paciência para a dificuldade dos outros? Já parou para pensar que você é o velhinho do futuro que vai precisar de ajuda para ler algo com letra pequena, ou vai precisar de ajuda para entender alguma novidade tecnológica, ou ajuda até mesmo para atravessar a rua. A gente vive numa pseudo realidade egocêntrica como se a gente se bastasse e nunca fosse precisar de um acolhimento social para viver com qualidade e dignidade.

Para tentar ter um pouco da sua empatia, convido você a pensar naquele seu amigo bêbado mais inconveniente. Aquele que vomita no taxi, dirige alcoolizado, grita quando tem gente querendo dormir, chora ligando para o ex…pensa na paciência que você tem com ele. Agora pensa na paciência que você tem com uma criança, que está aprendendo a viver em sociedade e amadurecendo suas decepções, sentimentos e visões sobre o mundo. Pensa no quanto toleramos pessoas com comportamentos auto destrutivos porque rendem "histórias engraçadas" e torcemos o nariz para crianças que ainda estão em formação nesse mundão tão complexo. Pensa no quão mesquinho você é quando olha torto para a mãe quando vê o seu filho fazendo birra no supermercado.