Filmes para ver e conhecer Berlim (Parte I)

O lugar de Berlim na história do cinema mundial é inegável. Mais do que cenário de filmes inesquecíveis, a capital alemã é uma personagem vibrante, cuja voz muitas vezes soa mais alto do que a dos protagonistas de carne e osso.

Reúno aqui alguns filmes para ver e conhecer Berlim. Mais do que meus favoritos, cada filme traz uma imagem — e um imaginário — de uma cidade incrivelmente complexa e em constante transformação.

1. Gente no domingo (Menschen am Sonntag, 1930)

Esse filme mudo é parte ficção, parte vida real. Centrado num domingo de sol, o filme segue as aventuras de jovens amigos numa atividade de verão tipicamente berlinense: uma excursão a um lago em Nikolaissee, nos arredores da capital. Porém, a narrativa serve apenas para adornar o que é, na verdade, um belo documentário da vida em Berlim nos anos 1920.

Dirigido por Robert Siodmak e Edgar G. Ulmer, com roteiro de Billy Wilder e Siodmak, Gente no domigo conta com apenas um ator profissional entre os protagonistas. Esse é um dos fatores que contribuem para a autenticidade da película, cujas cenas parecem ser espontâneas e improvisadas.

Já colagem de cenas dispersas ao redor da cidade — a movimentada estação Zoo, os barcos que atravessam o rio Spree, o jogo de hóquei em Tiergarten, a vazia Hausvogteiplatz, entre outras — oferece um olhar íntimo e descontraído do cotidiano berlinense. As pessoas trabalham, correm, amam, discutem, comem, bebem, se divertem. É essa vulgaridade do dia a dia que torna o filme, lançado há quase noventa anos, tão próximo aos dias de hoje: as pessoas, afinal, não mudaram tanto assim.

Por outro lado, é assustador observar que a mesma Berlim, retratada de maneira vibrante e divertida em Gente no domingo, seria um dos palcos da Segunda Guerra Mundial poucos anos mais tarde.

Siodmak, Ulmer e Wilder conseguiram escapar e construir carreiras bem-sucedidas nos Estados Unidos. Mas é impossível olhar não com certo assombro para a gente comum exposta no filme, inconscientes aos horrores que seu futuro — nosso passado — reservava a elas.

2. Asas do desejo (Der Himmel über Berlin, 1987)

Asas do desejo é, talvez, o mais próximo que o cinema já conseguiu chegar da literatura. O roteiro é coassinado pelo escritor Peter Handke, cujo poema Lied vom Kindsein dá o tom literário ao filme.

Essa obra-prima de Wim Wenders segue os passos de Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander), dois anjos que silenciosamente escutam e amparam almas perdidas e desesperadas na capital alemã. Com belíssimas cena aéreas — o título alemão é “O céu sobre Berlim”, afinal — o filme reúne imagens da Berlim pós-guerra, uma cidade ainda devastada e, mais do nunca, dividida.

Inesquecíveis são as tomadas no Siegessäule e na Biblioteca Estadual de Berlim. Mas o filme inteiro é repleto de tomadas lindíssimas e provido de uma sensibilidade única. Traz imagens de uma Berlim que, às vezes, é quase irreconhecível. Potsdamer Platz, por exemplo, arruinada pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial, era uma região desértica e decadente nos anos 1980. Bem diferente do centro moderno e sofisticado que conhecemos na atualidade.

Ainda em Potsdamer Platz se encontra o Grand Hotel Esplanade Berlin, onde ocorre o show de Nick Cave & The Bad Seeds no filme. Um dos hotéis mais badalados de Berlim nos anos 1920, o Esplanade também foi alvo de bombardeamentos devastadores. Hoje o Kaisersaal, um dos salões sobreviventes, pode ser observado por uma fachada de vidro, como parte do Sony Center. A cena final de Asas do Desejo, com a exuberante Marion (Solveig Dommartin) no trapézio, também foi filmada no Esplanade.

Eu poderia continuar com os adjetivos porque realmente adoro esse filme, mas palavras não bastam para expressar quão belo ele é. Então, para descobrir mais localidades onde se passam as cenas desse filme eterno, clique aqui.

3. Corra, Lola, Corra (Lola rennt, 1998)

Sempre que penso em Corra, Lola, Corra, penso na MTV. Explico: o filme foi lançado em 1998, quando eu tinha apenas doze anos e passava tardes inteiras assistindo à MTV Brasil. Recordo-me dos VJs comentando sobre esse filme louco alemão, com uma mulher de cabelo vermelho vibrante correndo por aí.

De fato, o filme de Tom Tykwer, com Franka Potente (Lola) e Moritz Bleibtreu (Manni) nos papéis principais, acabou se tornando um símbolo da cultura pop dos anos 1990. Sua cinematografia única e inovadora inspirou de videoclipes do Bon Jovi a episódios de Os Simpsons e Scrubs.

Com uma missão impossível, Lola corre por Berlim em três atos distintos. Cada ato — ou corrida — dura vinte minutos, que é o tempo que ela tem disponível para arranjar cem mil marcos alemães. Pequenas diferenças nessas corridas afetam não apenas o destino de Lola e Manni, como também o futuro das pessoas que cruzam e se esbarram com ela.

Em todos os atos, a cena de abertura ocorre na rua Albrechtstraße, em Mitte. Lola também corre pela ponte Oberbaumbrücke, que liga os bairros Friedrichshain e Kreuzberg. Outras cenas se passam em Bebelplatz: o edifício onde o pai de Lola trabalha, o fictício Deutsche Transfer Bank, é conhecido hoje como o luxuoso Hotel de Rome. Também foram rodadas cenas em Prenzlauer Berg e Charlottenburg, para citar outras localidades.

Quem conhece Berlim, já deve ter percebido que seguir o itinerário de Lola é uma tarefa inviável. Os lugares pelos quais ela corre não estão em rota, mas sim em diferentes regiões da cidade. Longe de ser algo ruim, essa escolha permite algo bem bacana: observar as diferentes facetas de Berlim nos anos 1990.

4. A vida dos outros (Das Leben der Anderen, 2006)

Ao contrário dos demais filmes citados, a época do enredo e das filmagens de A vida dos outros é diferente: a história se dá sobretudo em 1984, enquanto o filme começou a ser rodado em 2004. Porém, apesar das transformações intensas pelas quais a cidade passou nesses vinte anos, o diretor Florian Henckel von Donnersmarck encontrou em Friedrichshain o cenário perfeito para as cenas externas.

Friedrichshain, hoje uma das regiões mais turísticas de Berlim, ficou sob o controle soviético no pós-guerra. Assim, quando o muro foi erguido em 1961, o bairro se encontrou na parte oriental, pertencente à República Democrática Alemã. Devastada com os bombardeamentos da Segunda Guerra, Friedrichshain foi reconstruída nos moldes soviéticos. A arquitetura stalinista, com a Karl-Marx-Allee — antes chamada Stallinallee — no centro, impressiona até hoje.

No filme, o agente da Stasi — o serviço de inteligência da RDA — Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) vigia o dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch), aparentemente um cidadão exemplar, e a namorada dele, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Logo o agente se vê envolvido emocionalmente com esses dois estranhos, tornando-se uma figura-chave, ainda que invisível, na vida de Dreyman.

Também foram feitas tomadas em outras regiões da Berlim oriental, como Prenzlauer Berg e Lichtenberg. A cena final, contudo, sem dúvida uma das cenas mais bonitas do cinema recente, ocorre na Karl-Marx-Buchhandlung, uma antiga livraria na Karl-Marx-Allee, em Friedrichshain.

5. Oh Boy (2012)

Acredite ou não: ser um homem branco alemão de vinte e poucos anos em Berlim também não é nada fácil. Essa é a premissa de Oh Boy, dirigido por Jan-Ole Gersten. Felizmente, o roteiro vem acompanhado de acontecimentos tragicômicos e autoironia, o que torna o filme uma experiência divertida.

Oh Boy é extremamente berlinense, não apenas por se passar na capital alemã e ter no papel principal um ator local, que cresceu em Mitte. Ou talvez eu diga isso por retratar a Berlim que conheço, dos anos 2010, e ter um protagonista que reconheço em muitas pessoas que já encontrei por aqui.

Dois anos após largar a faculdade de Direito, Niko Fischer (Tom Schilling) gasta seus dias (e a mesada do pai) com a namorada, viagens e seus pensamentos. Tudo isso enquanto tenta recuperar sua carta de habilitação, que perdeu por dirigir embriagado, com visitas obrigatórias ao psicologista.

Quando o pai enfim descobre que Niko não está mais estudando, decide parar de sustentá-lo. Niko logo percebe que o dinheiro que lhe restou não paga nem um café. Muito menos um café Columbia, orgânico, com leite soja, oferecido pela barista descolada que o atende na cafeteria.

Descafeinado, Niko perambula por uma Berlim em preto e branco, repleta de personagens mal-humorados e grosseiros. Em um dos melhores momentos do filme, ele vai ao legendário Tacheles assistir à peça de uma amiga de infância. O Tacheles era um centro artístico localizado em Mitte, que deixou de funcionar em 2012. Já a cena final foi filmada no King Size Bar, famoso bar berlinense na Friedrichstraße, cujas portas fecharam em julho deste ano.

Impressionante como, apenas cinco anos mais tarde, o filme já traz traços de uma Berlim que não existe mais.