Três palavras para desvendar a alma holandesa

Nada como o amor para abrir as portas a um novo mundo. Eu que o diga!

Nem sempre eu fui tão interessada pela Holanda. Na universidade, estudei alemão e só queria saber de Goethe, Kafka e Celan. Mas foi numa visita a Berlim que conheci e me apaixonei por um sujeito lá da terra do Van Gogh. A partir daí, fui tomada por uma grande curiosidade sobre esse pequeno país no norte europeu.

Este ano, tive a oportunidade de passar um tempinho na Holanda e aprofundar minhas competências no idioma. Por causa da minha formação em Germanística, aprender holandês tem sido um desafio divertido e, sobretudo, possível (com a exceção da pronúncia de vogais longas, que, no meu caso, nunca são longas o suficiente…).

Porém, como linguista, fico especialmente intrigada com o uso do idioma — quero conhecer não somente as palavras, mas sim entender como, quando e por que elas são empregadas no dia a dia. Por isso, escolhi as três palavras a seguir. Para mim, elas revelam muito sobre a cultura holandesa.

Gezellig: a intraduzível sensação do bem-estar holandês

Nenhuma palavra é tão holandesa quanto gezellig. Esse adjetivo, sem tradução em outros idiomas, descreve não um sentimento, mas sim uma sensação: você não se sente gezellig, mas sente que algo ou alguém é gezellig.

Mas, afinal, o que é gezellig?

Gezellig é, sobretudo, uma sensação de bem-estar social: encontrar uma amiga querida para o almoço, receber visitas em casa para o jantar, tomar uma cerveja e dividir petiscos com colegas num bruin café, o bar típico holandês. Ou seja, é quando você compartilha algo com alguém querido num ambiente aconchegante. De fato, a origem da palavra é encontrada em gezel, que significa “companheiro”.

Porém, pessoas e lugares também contam: um amigo gente boa e uma feira de antiguidades bacana podem provocar a sensação de gezelligheid, isto é, podem ser gezellig. Além disso, nada funciona tão bem quanto o precioso adjetivo para se referir àquela festa divertida do fim de semana.

Gezellig revela a devoção, quase religiosa, que os holandeses têm pela harmonia. Uma das características positivas da sociedade holandesa é a busca incessante pelo meio-termo: o comprometimento e entendimento entre todas as partes. Por outro lado, quando consensos viram exigências, as coisas podem ser tornar extremamente ongezellig — a negação de gezellig.

Há um famoso ditado que diz: Doe maar gewoon, dan doe je al gek genoeg — “Aja de forma normal, assim você já está sendo louco o bastante”. Quem não se conforma ou é diferente pode ser considerado ongezellig. Isso, para muitos holandeses, é uma ofensa mais grave do que todos os seus xingamentos hipocondríacos juntos.

Traduzir gezellig é um desafio. Como sempre, tudo depende do contexto: às vezes, um simples “acolhedor” pode dar conta do recado. Outras vezes, a criatividade tradutória realmente precisa brilhar. De toda forma, é difícil não perder a referência cultural.

Lekker: (quase) tudo é gostoso

Quem sabe alemão, logo consegue entender lekker (lecker, em alemão): é aquela exclamação entusiasmada que você dá depois da primeira mordida num stroopwafel quente e fresquinho durante uma tarde chuvosa em Amsterdã— Lekker! Que delícia!

Porém, ao contrário do adjetivo alemão, lekker não é usado apenas para caracterizar delícias culinárias. Ele também atua como advérbio, provando que, para os holandeses, quase tudo pode ser feito de forma gostosa: dormir (lekker slapen), sentar-se (lekker zitten), sonhar (lekker dromen).

De fato, o uso de lekker, seja como adjetivo ou advérbio, é bem comum e raramente se deixa traduzir por um simples “gostoso” ou “delicioso”.

Quando o sol finalmente decide dar as caras, você pode exclamar: Lekker weer! (“Que tempo ótimo!”). Mas se estiver ficando doente, diga apenas Ik voel me niet lekker (“Eu não me sinto bem”). Gostou da sala de estar espaçosa do seu amigo? Elogie com um Lekker ruim! (“Que espaço bom!”).

lekker belangrijk não significa que algo é de extrema importância, visto que a expressão é usada sarcasticamente, no sentido de um bom “tanto faz”. (O humor holandês, aliás, é bastante sarcástico e aproveita bem as nuances da língua, mas esse já é outro assunto.) Lekker puh! (algo como “Bem feito!”, a depender do contexto) também não é simpático, mas geralmente quem fala isso é uma criança querendo se gabar de algo.

Apesar desses casos, o efeito de lekker é quase sempre bom. E, para mim, é a palavra que melhor representa uma característica importante do povo holandês: a positividade. Jogue um lekker no meio e tudo fica mais gostoso num instante. Não importa o quê.

Agora que tal tornar a expressão ainda mais holandesa? Lekker gezellig!

Een beetje: só um pouquinho

Está certo: een beetje (“um pouco”) é formado por duas palavras, mas a expressão funciona como uma só entidade.

Assim que comecei a aprender holandês, descobri a força da expressão. Se um nativo perguntar Spreek je Nederlands? (“Você fala holandês?”), responda com um sucinto e seguro een beetje e ele logo ficará impressionado. Pois, acredite: se tratando da língua holandesa, às vezes basta um pouco para se ir longe.

A rainha consorte Máxima sabe bem disso. Em 2001, ela foi aconselhada a usar a expressão para conquistar o coração dos holandeses. Quando o rei Willem Alexander, então príncipe, anunciou o noivado, a notícia foi recebida com ceticismo pela imprensa. Máxima, afinal, era estrangeira (nascida em Buenos Aires), católica (a Casa de Orange-Nassau, da família real, é protestante) e—o ponto mais controverso — filha de Jorge Zorreguieta, ex-ministro do governo do ditador argentino Jorge Videla.

No anúncio oficial do noivado, ao comentar uma declaração polêmica do futuro marido, Máxima declarou: Hij was een beetje dom (“Ele foi um pouco tolo”). Essa frase, acompanhada do sorriso aberto de Máxima, conseguiu quebrar o gelo da situação. Desde então, ela é bastante querida pelo povo holandês, que aprecia sua espontaneidade — ainda que ensaiada.

Beetje também traz um som muito conhecido no idioma: o je (pronunciado “ie”). Em holandês, o diminutivo pode terminar em -je, -pje, -kje ou -etje. Porém, nem todas as palavras com essas terminações são diminutivas, como é o caso de beetje (beet, por exemplo, significa “mordida”).

Ainda assim, gosto de relacionar een beetje com o diminutivo, não apenas por causa do som e do sentido. Os holandeses têm a tendência — muito fofa, na minha opinião — de usar o diminutivo no discurso informal. Esse emprego, muitas vezes, funciona como um marcador de bons modos. Num bar, por exemplo, é mais simpático pedir um biertje (“cervejinha”) do que um bier (“cerveja”).

O uso frequente de een beetje e do diminutivo também se relaciona com a questão da conformidade, já mencionada na explicação sobre a gezelligheid. Para manter a vida em sociedade confortável, nada deve ser muito intenso. Dessa maneira, é melhor reduzir do que dar a impressão de exagero.

Além disso, vejo aí uma outra característica holandesa: a frugalidade. Os holandeses são famosos por sua relação econômica com o dinheiro. Basta lembrar da expressão inglesa going Dutch, que significa separar ou dividir a conta. Então, faz sentido que esse senso de economia chegue também ao idioma.

Para terminar, deixo o clássico Een beetje verliefd, do popular cantor André Hazes. Hazes faleceu em 2004, deixando milhares de fãs saudosos. Nesse hit dos anos 1980, ele está perdidamente apaixonado. Bem, desculpe, só een beetje.

Fontes: