Você não poderá ver as coisas maravilhosas que a humanidade perdeu

Agência Cative!
Sep 4, 2018 · 9 min read

Por Isis Rangel

O Museu Nacional em chamas (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Eu estava entrando no banho quando vi no Twitter uma foto do Museu Nacional pegando fogo, enviei para o grupo da pós-graduação a notícia e fui lavar o cabelo.

40 minutos depois as notícias era de que não havia água nos hidrantes e que perderíamos tudo.

4 horas depois eu tive coragem de ligar na GloboNews e assistir imagens ao vivo do palácio em que Dom Pedro e Leopoldina assinaram a Independência do Brasil em completo colapso, mas os bombeiros finalmente tinham conseguido a água necessária para combater o fogo.

Quando eu me dei conta do tamanho da tragédia, lembrei imediatamente das aulas de Retratos da Cultura Indígena, que eu tive o privilégio de frequentar no primeiro ano da minha pós-graduação em História.

Então a ideia do texto era falar sobre o que eu senti enquanto jornalista com um pé na História sobre o incêndio no Museu Nacional. A falta de ar e o choro que saiu descontrolado. Era também a ideia conversar com outras pessoas da área para saber como lidar com essa tragédia. Então liguei para meu professor, Fábio Grossi, que além de historiador e arqueólogo, também é diretor do Museu Municipal de Jaú. O título desse texto foi uma das primeiras coisas que ele me falou quando eu contei que nunca tinha visitado o Museu Nacional — e também uma das primeiras coisas que pensei quando liguei a TV e vi as imagens do prédio em chamas.

Abaixo você confere um resumo do que rolou na nossa conversa:


“Para mim simbolicamente o que aconteceu no Museu Nacional foi o assassinato da História brasileira. Assim como o World Trade Center, nos Estados Unidos, era um símbolo do capitalismo e foi atingido, eu acho que a gente foi atingido aqui. Estamos num momento difícil e agora atacaram a nossa memória. Levaram abaixo literalmente. E dói. São 200 anos de existência desse prédio, onde Dom Pedro assinou a Independência do Brasil, onde Dom Pedro II reinou… a sala do trono não existe mais. É uma perda incomensurável, não só do lado das Ciências Humanas, lá tinha um acervo de botânica, de zoologia, de mineralogia, de geologia, e foi tudo abaixo. O maior acervo de meteoritos da América Latina estava lá, o maior dinossauro do Brasil estava lá, a gente tinha múmias Incas, o acervo egípcio trazido por Dom Pedro II, um dos únicos sarcófagos do mundo que não tinha sido aberto ainda, os painéis de Pompeia, do século I depois de Cristo, o acervo greco-romano, o trono de um rei Daomé, um dos principais reinos da África, o mapa original etnográfico do Curt Nimuendaju, e sem falar da minha área [Arqueologia], em que perdemos a Luzia.

Ainda não sabemos o paradeiro de Luzia

Pouca gente sabe, mas existe um embate político sobre a história do povoamento da América. Os Estados Unidos falam que eles são mais antigos, que tem esqueletos de 12 mil anos lá em cima. Sim, porque a Luzia não é fóssil, como normalmente falam, isso é um erro. A Luzia é um esqueleto, ela não se transformou em fóssil ainda. Quer dizer, não tinha se transformado, né. Juntando Canadá e EUA, eles têm cinco esqueletos com mais de 8 mil anos, no Brasil a gente tem em torno de 80 e a maioria deles estava no Museu, entendeu? Não foi só a Luzia, foram todos esses esqueletos e aí, como a gente vai mostrar essa riqueza agora?

São 90 pesquisadores que trabalhavam lá. Então dói, é físico até, a dor é física e emocional. Não é uma perda para o Brasil, é para a humanidade. Justo nesse momento político violento que a gente está passando, a gente já perdeu o Instituo Butantã em 2010, onde perdemos 100 anos de pesquisa também. A gente perdeu o Museu da Língua Portuguesa, que por sorte, o acervo já era digital. Quase perdemos o Ipiranga, que está fechado, porque quase desabou. Então isso é uma onda de descaso que vem de gerações.

Eu me doo pelo patrimônio nacional enquanto brasileiro, me doo enquanto pesquisador e me doo em solidariedade aos meus colegas que dedicaram a vida àquele lugar. Imagina você trabalhando lá, numa pesquisa e ver aquilo indo por água abaixo. Se acontece algo parecido aqui em Jaú, eu acho que tenho um treco!

A tradição do museu está diretamente relacionada a educação. Se você for para o Peru, como lá essa coisa do patrimônio arqueológico é muito forte, a questão do museu está inserida na grade escolar. A cada passagem de ciclo da escola deles, como atividade final, eles têm que visitar um museu da região, um museu local, isso vale nota. Eu presenciei isso e achei muito importante. Além da educação, temos que ter a visão sobre o museu como atrativo, não só como esse depositário de velharia.

A gente precisa levar nossas crianças aos museus

Na França, que é uma das capitais de museus do mundo, por que muita gente visita museu? Eles têm essa tradição de transformar o museu num centro de educação. O museu oferece cursos, não é um lugar que você entra no museu, assina o livro de presença, olha e vaza. Se você quiser, tem um curso de artesanato, tem um curso de arte, curso de restauro de documentos, a pessoa está frequentando lá. Tem loja no museu, tem lanchonete, tem café, a pessoa está andando no centro, cansou e vai no museu tomar um café, aí já aproveita para visitar. É uma série de coisas que eles têm no cotidiano desses países que não temos aqui.

Em vídeo do portal g1, é possível ver o meteorito que ficava na entrada do Museu Nacional

Você vai num museu desses na Europa, eles sabem ganhar dinheiro absurdamente. No museu do Napoleão tem até o papel de parede, o lápis do Napoleão de suvenir e você, saindo do Brasil e indo para lá, é lógico que você vai gastar uma graninha para comprar um suvenir, né? Cada um que compra, já é uma grana que ajuda. A gente não tem essa visão econômica do museu também, porque não sabe tirar o potencial disso. Então é uma série de fatores mesmo, de ter essa visão cultural, de ter a visão educativa, de ter a visão que ele é um patrimônio passível de turismo, de transformar isso em dinheiro . Você não conquista isso do dia para a noite, é um processo longo.

E também o fato de que a gente foi criado historicamente para não valorizar isso, por que eu vou valorizar?

Museu desperta sentimento de nativista e o Brasil não foi criado para ser nativista. No Museu Nacional tinha coisas do Dom Pedro, tinha a Luzia, é coisa minha, é coisa nossa, isso desperta sentimentos. Desde lá de trás da História, por que eu vou por um museu que vai incentivar o nativismo? Se eu quero só montar uma empresa aqui, ganhar dinheiro e levar lá para fora, entendeu?

De fato, a cultura foi segregada para uma elite, né? Conhecimento é uma coisa que diferencia a elite do resto do povo. Se você pensar no Brasil, por exemplo, quando construíram os primeiros museus, os primeiros teatros, era para a elite frequentar, não o povo. Na própria história do museu, ele começou como antiquários, eles não eram abertos a público, eram dos ricaços que eram colecionadores e pegavam algumas salas de seus palácios, enchiam de suas coleções, promoviam saraus, encontros intelectuais e chamavam os seus colegas da elite e apresentava para mostrar que tem status, para mostrar seu poder.

É urgente a necessidade de mudar essa visão

O próprio museu surge desse colecionismo, desse antiquarismo de elite. Só que hoje o museu está completamente diferenciado. A gente tem essa visão de que hoje o museu tem que representar a sociedade na qual ele está inserido e tem muitos museus que fazem isso. Os museus do Nordeste, por exemplo, os museus ligados ao folclore lá em Sergipe, tem artesanato e parte do acervo pode ser vendida, porque os artesãos da região estão sempre alterando, mudando e fazendo peças novas. Os Museus da Imagem e do Som, o Museu da Energia em Itu…

Tem museus que já são diferenciados nesse aspecto, só que isso ainda não está claro para todo mundo. Isso aí precisa de uma ação contínua mesmo. Precisaria das escolas mostrarem e inserirem no cronograma , precisaria ter uma propaganda maior, falar “gente, venha para o museu”.

O Museu Nacional era um exemplo para a gente. Em Jaú, em Bauru, a gente mata um leão por dia, mas tem algo que move a gente. O Museu Nacional era esse algo, um alicerce, algo para a gente focar. A gente pensava “não, a gente está se ferrando aqui, mas o Brasil tem exemplos ainda!”, “olha o Museu da Língua Portuguesa, que maravilha, que exemplo”, “olha o Museu Nacional do Rio de Janeiro, que maravilha, que exemplo” e de repente PUM, você não tem mais esses exemplos. Você perde o norte mesmo, e agora, o que será de nós aqui, pequenos? Essa é a sensação que fica.

Está tudo recente ainda. Eu estou recebendo informação aos poucos de colegas que estão acompanhando pessoalmente e levantando o que foi perdido. Não tem mais o que fazer. Você tem acervo digital, mas não é a mesma coisa, a peça se perde para sempre. O passo agora é ver o que salvou — que não vai ser muita coisa — o que dá para consertar, né. Imagino que algumas coisas vão salvar.

Por exemplo, no acervo arqueológico, as peças de cerâmica, a gente sabe que o fogo não estraga na totalidade, mas na verdade estraga. Você vai ter a peça, dá para você dar uma restaurada, mas o fogo causa um processo químico. Por exemplo, se eu pegar uma cerâmica, que tenha mil anos de idade e eu queimá-la, o fogo zera o relógio biológico dela, entendeu? Então a estrutura dela estaria alterada. Eu, numa futura pesquisa, dependendo do que eu quiser nessa pesquisa, ela não vai me servir mais, percebe?

O incêndio visto de longe (Foto: Tania Dominici/Reuters)

Espero que seja aquela história que da tragédia venha algo bom. Espero que os municípios acordem e não deixem acontecer com seus museus o que aconteceu com o Nacional, espero que pelo menos incentive isso. Para mim, é uma vida que se perdeu, que seja feito um memorial no prédio novo para que a gente nunca esqueça do que aconteceu. Estamos num processo de luto, a ficha vai querendo cair e a gente não quer que caia a ficha, não quer aceitar.

A gente desanima muito, colegas meus falando “essa é a hora que dá vontade de fazer mala e abandonar o país”. Mas acho que é o contrário. É fácil para mim pegar a mala e ir para fora e esquecer aqui.

Mas a questão é que você pode deixar o Brasil, mas o Brasil não vai deixar você. Então a questão é essa: você vai estar lá fora vendo o Brasil queimar? Eu não imaginei que fosse ver isso na minha geração: nosso país está desabando e o incêndio do Museu Nacional deixou isso muito claro. Então acho que é o momento que a gente que trabalha com isso, historiador, jornalista, arqueólogo, sociólogo, antropólogo, etc., é onde a gente vai ser testado ao máximo para exercer nossa função: trabalhar o espírito crítico das pessoas, mostrar que ‘você tem que ser um cidadão e fazer alguma coisa’.

Agência Cative!

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Um time de mulheres comunicadoras especialistas em difundir o propósito de marcas visionárias. Conheça a nossa história em: https://linktr.ee/cativeagencia

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