Guerra dos Canudos

Ser a favor da defesa do meio ambiente é um acordo silencioso mantido na nossa sociedade. Atitudes contrárias a isso podem fazer você parecer um otário e ser excluído do seu grupo de amigos. Sim, poluir não é cool. Por exemplo, todo mundo sabe que é feio jogar lixo no chão, usar água excessivamente ou negar o aquecimento global. Embora esse último possa não só garantir para você um grupo de amigos como também a presidência dos Estados Unidos.

O fato é que as pessoas querem ser green seja para ter o meio ambiente limpo ou a consciência limpa. Para que isso valha de alguma coisa, tem que começar de algum lugar e, pelo o que se observa, o principal inimigo do meio ambiente é o plástico, representado aqui pelos canudos.

A batalha contra o plástico cilíndrico vai desde decisões pessoais sobre não usar mais o utensílio, até empresas revendo sua utilização. O Barclays Center— que sedia jogos do New York Islanders, da NHL, e do Brooklyn Nets, da NBA, — abandonou o uso de canudos em eventos esportivos lá sediados.

A Arcos Dorados, empresa que administra o McDonald’s na América Latina e Caribe, implantou a medida de entregar canudos aos clientes apenas se for requisitado. A partir de agosto de 2018, isso vai valer no Brasil e depois vai ser estendido aos outros países em que a rede de fast food é administrada pela empresa.

A Disney também decidiu que vai parar de usar canudos até 2019. Segundo o anúncio da Walt Disney Company, essa medida eliminaria cerca de 180 milhões de canudos e mexedores descartados nos parques por ano.

Antes do Mickey ou do Ronald McDonald, a Starbucks anunciou a abolição de canudos, com meta até 2020. A rede faria com que o utensílio não fosse utilizado em nenhuma das 28 mil unidades do mundo. Esse anúncio veio logo depois da cidade sede da empresa, Seattle, barrar os canudos de plásticos de restaurantes.

Não são só pessoas ou empresas que estão mudando seu comportamento. O uso de canudos está começando a ser regulamentado por leis, como é o caso da cidade estadunidense e do Rio de Janeiro. O Erre Jota é a primeira capital brasileira a proibir o uso dos canudos de plástico, com multa de até R$ 3 mil para estabelecimentos que descumprirem a lei.

Se esses exemplos não servem para repensar o uso, aqui vai um argumento mais pesado: 16 motivos para parar de usar canudinhos neste ano, segundo o Buzzfeed.

Mais do que repensar o uso, poderia ser melhor apenas parar de chupar. E, sim, eu teria feito um trocadilho com a palavra “chupar” mais cedo no texto se ele já não tivesse sido feito nessa campanha:

Porém, o mais interessante no vídeo não são as celebridades dizendo que chupam. O que chama a atenção são os dados: 1 bilhão de canudos são descartados diariamente no mundo; são 450 anos para a decomposição disso tudo no meio ambiente; 95% dos lixos nas praias brasileiras é plástico; 90% de aves marinhas e uma a cada três tartarugas já ingeriram algum tipo de plástico e seguindo nesse ritmo, estima-se que em 2050 vai ter mais plástico do que peixes nos oceanos.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, 8 milhões de toneladas de plástico acabam no mar por ano e 90% do lixo que flutua nos oceanos é plástico.

Alternartivas

Os números realmente justificam, então, toda preocupação e medidas. E o próprio vídeo já fala em alternativas. Afinal, não é porque uma chupada foi ruim que não se deve tentar outra. Realmente, existem outras opções ao canudo de plástico para nós, chupadores: além de não usar, tem os comestíveis, de vidro, de papel, bambu e aço. Essa causa, inclusive, motiva pesquisas para pensar soluções, como foi o caso de estudantes de ensino médio da França que propuseram canudos feitos de amido de milho.

Só que não podemos simplesmente proibir os canudos. Com o constante levantamento da pauta e a proibição no Rio, um ponto importante foi levantado nas redes sociais: o uso de canudos por pessoas com deficiência.

Canudo de plástico é dobrável e não machuca

Marina Batista Francisco é blogueira e pessoa com deficiência, cadeirante, tetraparésica por doença degenerativa (atrofia muscular espinhal tipo 2). Ela tuitou sobre a importância dos canudos de plástico e dobráveis para PCD.

Ela também não deixa de falar das alternativas já citadas. A partir de uma tabela, explica porque nenhuma delas é tão funcional como o canudo de plástico.

Metal: pode machucar, não é posicionável, caro para o consumidor; Bambu: pode machucar, não é posicionável, caro para o consumidor; Vidro: pode machucar, não é posicionável, caro para o consumidor; Silicone: não é posicionável, caro para o consumidor; Acrílico: pode machucar, não é posiconável, caro para o consumidor, não dá pra usar com líquidos quente; Papel: pode engasgar, não é posicionável, não dá pra usar com líquidos quentes; De macarrão: pode engasgar, pode machucar, não dá pra usar com líquidos quentes.

Pessoas sem deficiência, entretanto, não tem por que usar canudos de plástico. Só que aí vem outra má notícia: pode ser que o não uso pessoal pouco interfira no meio ambiente.

Solução(?)

A digladiação entre ser humano e natureza pode ser muito mais ~estrutural~ do que usar ou não canudo. E não sou eu que estou dizendo isso. O professor do Instituto Catarinense de Pós Graduação e especialista em Relações Internacionais, Gilberto Barros Lima, afirma que o capitalismo colabora com a “situação degradante do meio ambiente” devido a “processos de alta produtividade e a continuidade de fatores que causam danos e destruições”.

O professor da Universidad Autónoma de Zacatecas — do México — , Guillermo Foladori, também relaciona o estado do meio ambiente com o capitalismo. Ele pontua a produção ilimitada, a organização econômica voltada ao lucro — e não à necessidade — como fatores primários para a compreensão da crise ambiental. Além disso, ele também diz que deve-se encarar a organização capitalista da sociedade humana, isso porque “as relações sociais entre os seres humanos condicionam qualquer tipo de relações ecológicas”.

Ou seja, as empresas antes citadas não param com canudos para serem green. É muito mais para ser cool, porque o que importa mesmo para as empresas é imagem e lucro.

Quer um exemplo mais prático de como isso tudo pode se relacionar? Desde a proibição dos canudos plásticos no Rio, cresceram as vendas de canudos alternativos. Alguém acaba lucrando, mas se é consolador pensar assim, que seja um lucro “mais sustentável”, se realmente isso for possível.

Pode ser que nem exista uma solução definitiva. Você usa canudos de acordo com sua consciência. Mas preciso compensar a falta de soluções com um pedido: alguém acorde o Euclides, tá acontecendo a Guerra dos Canudos.