Velha Cortesã: O Show do Mundo (2016)

Impressões não especializadas sobre o primeiro EP da banda santa-mariense.

O EP O Show do Mundo apresenta o som da Velha Cortesã apenas formalmente, pois duas faixas já estavam disponíveis no canal da banda no Youtube, além do que já era tocado nos shows. Entretanto, ele pode representar uma forma de apresentação da banda para quem nunca havia ido a algum show deles.

Desse modo, quem ouve a Velha pela primeira vez a partir do EP vai encontrar uma única coisa: rock. E é difícil tentar encaixar as músicas em um subgênero do rock, pois como a própria banda afirma, eles “buscam fazer um rock autoral, sem rótulos e sem medo de mostrar suas referências”.

No minuto zero, a música Adelaide começa com um solo de guitarra e aos poucos vai ganhando a companhia dos outros instrumentos. A letra — obviamente — é sobre Adelaide que “não sabe de onde veio” e “só queria um emprego”. A composição parece simples. As estrofes são fixas e têm três versos, com exceção do refrão. Além disso, ela segue a lógica de estrofes-refrão-estrofes-refrão-solo-refrão até que a música termina. A simplicidade, contudo, de forma alguma desmerece a música. Na verdade, sendo a primeira do EP, chega chutando a porta e já animando quem escuta, graças ao riff que repete na introdução, depois do refrão e no encerramento e ao refrão de dois versos que não deixa Adelaide sair da cabeça de quem ouve.

A segunda faixa, já inicia com um riff frenético e o ritmo segue intenso durante as estrofes para falar do Velho Soldado que nomeia a música e “ainda não sabia viver”. O Velho Soldado é retratado como alguém vive fechado na caixa da sua cabeça retrógrada: Não acordou pro mundo / Não saiu do mesmo lugar / E levantou seu muro / E não consegue enxergar. Serve até como um manifesto contra todos os “velhos soldados” que não acordaram pro mundo.

Fuga do Gato é o nome da terceira música. É a mais longa do EP. Começa com a guitarra distorcida que depois toma a forma que acompanha as estrofes. Foi nessa canção que eu achei que o vocal de apoio se destaca melhor acompanhando o principal nos versos finais das estrofes e no refrão. Juntamente com as outras duas faixas anteriores, ela compõe a primeira parte do EP, em que é possível notar mais a influência dos anos 70 na banda, o que resulta com a guitarra mais forte e marcante.

Já a quarta faixa tem um som mais leve. E letra também acompanha; sem mais falar da vida confusa de Adelaide, ou da cabeça fecha de um Velho Soldado. Nostalgia não só é o nome da música, mas também é o sentimento que pede: “Traz de volta aquele encanto / Me carrega praquele lugar”. Embora ela ganhe o peso da guitarra no final, ainda segue com uma pegada diferenciada em comparação às três primeiras, além de já diminuir o ritmo para última canção do EP, que é uma acústica.

Por fim, o Show do Mundo, homônima do EP. Por ser acústica, é a mais leve. Em contrapartida, apresenta a letra mais densa de metáforas e, a meu ver, a letra mais interessante. Assim como destaquei quando falei da primeira música, as estrofes são fixas e culminam no refrão. Ela termina com versos recitados: “Isolada e deprimida / Ela voltou sozinha / Numa noite de temporal / As folhas leves na rua / Parecem passos em sua cabeça”. Provavelmente falando sobre a última das quatro personagens apresentada na canção, que não tinha outra opção além de ficar ali pra ver “O show do mundo / Onde os prédios mais concretos caem em apenas um segundo”.

Depois de tocar as faixas em shows, a Velha Cortesã agora pode dizer que tem o seu primeiro EP lançado. E ele pode servir para apresentar banda para quem ainda não conhece, mostrando um som sem um rótulo específico, tratando apenas de rock de forma ampla, com influências de clássicos do rock dos anos 70 como Black Sabbath e Led Zeppelin, mas sem deixar de lado o “Hoje” que está muito bem representado nas suas letras.

Ficha técnica:

Felipe Hoppe: bateria e percussão

Guilherme Gabbi: guitarra e violão

João Pedro Costa: vocal

Vagner Funck: baixo, vocal de apoio e violão 12 cordas

Participação especial:

Luís Silva: Saxofone em “Adelaide”

Leo Mayer: Produção, mixagem e masterização

Vivi Costa: Produção artística