Cabelo molhado, enrolada na toalha já molhada, completamente despida. Chorava. Cena do caos. Tudo doía novamente, os fantasmas sempre voltam. E uma hora explode. Vulnerável, pegou-se de surpresa no epicentro da desrazão. A música de fundo era um blues barato. O copo cheio, álcool na mão e na alma.

Estava intoxicada, mas não tinha droga o suficiente. Eram tempos difíceis, comprar qualquer bebida era um gasto fora do planejamento — nunca se esqueçam de colocar drogas no planejamento do mês. Foda-se, ninguém precisa de xerox morto.

Porque a vida mata a gente lentamente. Ela mata a cada problema. Ela mata a cada centavo que a gente gasta em um suposto objeto necessário. A vida mata a gente. Quando leva a vida de quem a gente ama. Quando fataliza nossa miserabilidade.

Victor Hugo estava certo.

E não estava no inferno. Não estava bêbada. Estava despida e vulnerável, do modo como odiava estar. Vulnerável a qualquer amor barato, qualquer investida filha da puta, suscetível a qualquer bala que viesse na direção dela — e muitos tiros são dados no escuro.

Os olhos de cigana estavam molhados. Despira-se das argolas douradas. Balançava-se no ritmo da música. Sabia que não sobreviveria aquela noite. Mais uma tragada, mais uma dose.

Perdeu-se na noite. Cercada de pessoas, estava clichê, estava só. Não tinha nem a si. Não era de ninguém. Incomodava a todos por suas escolhas, afastava a todos por seus sentimentos e perdeu-se de si em alguma esquina estranha da estrada em que cursou.

A cena era repleta de drogas. Não romantizadas, como um cigarro que deixa a mão mais bonita e a vida mais leve. Ia morrer naquela noite. Talvez soubesse como. Mas as drogas eram feias. A realidade não era passível de fantasia para além dos livros e, como cigana, mal podia ler. Overdose. Fatal.