A escolha é um abismo que só pode ser visto nos olhos de quem a enfrenta. Sentado no banco áspero, ele só via as pessoas passando por debaixo do céu cinza. Via, não olhava. Aquilo era insignificante.

Ele não pensava na multiplicidade de suas opções. Seu trabalho agora era investigar, dentro de si, o que lhe faria mais feliz. Nada mais difícil.

O mundo lhe falava para escolher uma vocação e seguir em frente, mas e se não houvesse vocação? Apenas se sentia feliz ao ouvir algo belo. Também não se importava com o que as pessoas abaixo do céu diziam ser belo ou não. Belo era o que mexia com suas entranhas e ponto final. Era o que o tocava por dentro e o que transformava no próprio instrumento musical. Pedir um violão e aprendê-lo foi apenas uma extensão de seus impulsos. Essa era a maior ponte com o sobrenatural que já acessara na vida, a música. Nela, ele vivia o presente e se esquecia de si. Era como se dissolver em algo maior.

E nem por isso o estudar do instrumento era prazeroso. Ele não gostava de ouvir o desafinado saindo dos seus dedos, queria logo se envolver naquilo que realmente admirava. Cada vez que precisava treinar repetidamente qualquer movimento, invejava a habilidade de seus artistas favoritos. Queria já estar lá, ser como eles. Por que esperar quando se ama? Era quase a vida fazendo de tudo para separa-lo da arte. Mas continuou amando e, por uma simples visão de si no futuro tocando a música favorita, insistiu. Quando as primeiras boas melodias saíram de seus dedos, experimentou uma alegria ainda maior que a de ouvir. Aquele som era seu filho, saíra dele e, agora, era seu.

Os mais velhos lhe diziam ser o estudo algo sempre doloroso, mas que precisava insistir, persistir, seguir em frente e etc. para realmente conseguir algo. Nunca se adaptara àquilo. Fazia só o que queria fazer, aquilo que demora fazia parte só do futuro. Não existia. Como toda criança, foi torturado para ir ao colégio. Estude para viver bem, disseram-lhe. Se não estudar, vai morrer de fome. Era verdade. Por mais que não gostasse, tinha que admitir. O mundo era simplesmente assim.

Mas antes de se aprofundar na melodia, já imaginara a si mesmo como o fabuloso, feliz e rico engenheiro. Tinha facilidade com a matemática, todos diziam. No colégio, sequer prestava atenção nas aulas. Já sabia poder fazer tudo aquilo sem pestanejar. A cada quesito resolvido, um elogio. Os pais já falavam aos amigos sobre seu pequeno engenheiro, era um dom natural. Quando soube o significado disso, simplesmente gostou da ideia de ter todas as coisas necessárias e desejadas fazendo algo que lhe era tão automático, e assim sobrariam muitas horas para jogar vídeo-game, bola ou fazer qualquer outra coisa. Estaria na piscina de sua casa. Iria para uma empresa de teto alto e imponente na qual precisavam dele para fazer o que quer que fosse. Seria um jovem gênio e feliz, todos premeditavam o seu destino traçado.

Um pouco mais tarde, pensou nos benefícios de seu enxuto e grandioso plano. Ter dinheiro poderia ser útil para o mundo, certo? Poderia inventar um jeito de diminuir a poluição e o lixo. Poderia doar o dinheiro para quem precisasse. Olharia todas as imagens de destruição do mundo com a consciência tranquila de quem sabe estar fazendo a coisa certa. O poder lhe faria ser uma pessoa ainda mais livre e alegre. Não confiava nos outros, somente em si. Algum som em um canto remoto de sua mente dizia ser a finalidade da vida a construção de um mundo melhor para todos. Ele acreditava.

Então fez o necessário para entrar na faculdade. Os anos e meses de tortura nos estudos foram esquecidos no momento em que conseguiu. Estava tudo indo bem, seguindo o seu caminho. Engenharia era matemática, seria tudo tranquilo, fácil, rotineiro. Mas a vida começou a lhe cobrar. Se quisesse ser o poderoso e fabuloso imaginado, teria que ir além de notas e aulas. Teria que penetrar em estudos que lhe eram desconfortantes. Tudo fazia com que ele se perguntasse, a cada par de minutos, qual era a razão daquilo. Não queria estudar, isso doía. Não lhe trazia prazer. As promessas do futuro apenas incomodavam, eram uma felicidade tão falsa quanto a palavra vocação. Sequer sabia se ainda a queria.

Mas fizera uma promessa de futuro a si mesmo. Esse hipotético lugar no tempo, que tanto evitara, agora fazia parte de sua definição dele mesmo. Ele é o que seria. Era só fazer o que precisava fazer, dizia a si mesmo. Mas todo aquele sonho lhe exigia mais, era obrigatório o mergulho. Não sabia como conciliar. Quanto mais adentrava naquilo que tinha que fazer, mais aprovação tinha. Mais perdido ficava. Ao mesmo tempo, a árvore da música foi se enraizando dentro de si.

Tinha, agora, duas visões de futuro, aquele tempo que lhe perseguia. A de um músico que, após ter se fundido à sua arte, era aplaudido de pé. A de um jovem rico e inteligente que ajudava a todos no universo. Há quem diga que se pode ser os dois, a vida dizia ao contrário. Quanto mais pendia para um lado, mais definhava no outro. No meio do caos, um fantasma dizia: você tem que escolher. Sentado naquele banco duro da faculdade, ele não estava sob o mesmo céu cinza que cobria os outros. Seu futuro era incerto e seu caminho também, quase como se as nuvens caíssem em cacos sobre sua cabeça. Não podia mais fazer qualquer movimento sem se comprometer, iria andar em direção à sala ou às partituras? Sem que ninguém pudesse ver, um limbo se abria perante seus pés. Não poderia se mover até ter escolhido.

Poderia deixar a escolha para os dados de tabuleiro, assim o destino não seria mais sua responsabilidade, e tudo se tornaria culpa do acaso. Mas havia muito o que considerar. Não sabia se seu dom nas cordas era do mesmo teor do anterior. Se sua vida de músico fosse mal, o que frequentemente acontece com tal profissão, perderia os seus dois sonhos. Até o banco da faculdade, duro e também cinza, parecia exigir-lhe um lado: o fato de estar ali fora uma conquista sua e era uma das coisas mais seguras que conquistara em sua pouca vida. O desejo de ser alegre, exigindo sua atenção, pedia para que escutasse sua música favorita, era um jazz dessa vez.

Olhando o abismo debaixo de seus pés, ele quis chorar. Pensou na crueldade que é determinar a própria vida. Por que não se pode viver duas ou três vidas de uma só vez? Assim poderia conquistar um sonho de cada vez, um por um, e morrer feliz. No entanto, ele chegaria, sendo otimista, aos cem anos. Tinha uma vida só. Uma vida indefinida e exigente, a qual lhe dizia, a todo momento, para pegar uma de suas cores. Mas ele relutava, perdido em um caleidoscópio de muitas possibilidades, aquela multiplicidade colorida guardada nas profundezas de si mesmo.

Amante. @lendoalexia