O que aconteceu naquele domingo?

Parte 1

Eu não sei descrever muito bem o que aconteceu. O Dr. Utterson pode achar que esta é uma forma de negar aquilo que fiz, apagendo tudo de minha memória como uma autodefesa. Mas eu juro, eu juro que não a ataquei por querer.

Só estava deitado, tentando pela centésima vez desvendar o problema de hidrodinâmica que o professor havia passado há mais de um mês. Eu olhava para os números acima e abaixo da linha, fingindo que aquela era a questão mais importante da minha vida naquele momento. Alice estava na sala e tudo indicava que aquele seria um dia sem problemas. Digo isto porque, como tentei explicar outra centena de vezes ao Dr., Alice havia me acusado de deixá-la sozinha em uma rua deserta, apenas cinco dias antes, quando voltávamos do cinema. Na verdade, ela somente chegou em casa e gritou comigo como se eu fosse o Dr. Jekyll de O Médico e o Monstro. “Dissimulado”, ela bradou. Era tudo mentira.

Mas não duvido que o mundo inteiro tenha acreditado nela, principalmente aqueles que se deixam seduzir pelo seu jeito sorridente e infantil, sempre prestes a cantar sozinha enquanto olha para o nada. Eu somente a deixei no bar, onde certamente deveriam estar suas amigas, e voltei para casa. Mas não importava qualquer das palavras que ela esbravejasse sobre mim. Ela gritava e gritava, então sabia que existia. Enquanto eu, calado quanto ao meu cunho de “monstro”, apenas deixei de falar com ela. Eu só queria a minha namorada de volta, estava muito só.

Eu fingia estar sempre ocupado para não dar a entender o quanto estava triste com o nosso distanciamento. Eu quase me ofereci para ir dormir no sofá, mas ela fez isso sozinha. Aquela cama era enorme para uma pessoa só. Mas eu olhava e olhava para os canos e números da hidrodinâmica, tentando controlar a minha mente ao trocar o retrato de Alice enfurecida pelo rosto desapontado de meu orientador. Eu tentei.

Já estava escuro quando escutei as batidas fortes e apressadas na porta do quarto. Tinha algo de errado. “O que você falou para a minha mãe?”, ela falou com uma raiva que meu deu enjoo. Seu rosto estava deformado e, antes que eu pudesse responder, ela passou a andar de um canto a outro da casa, gritando sem parar. “Quem você acha que é? Ninguém pode se meter assim na minha vida! Seu monstro, seu covarde… Ela é a única pessoa que eu tenho. Você… você quer me destruir, me matar!”. Ela passou a gritar para os vizinhos: “Socorro, socorro… ele quer me matar!”.

Segurei em seus braços. “O que eu fiz? O que eu fiz? Sempre tentei ajudar vocês!”. “Você sabe o que você fez… seu imundo… Ela é minha mãe, você não podia!”. Fiquei cego. Meus pensamentos pararam de me ocorrer como o sangue para depois do coração morrer. “Me solte! Socorro, socorro!”, foi a última coisa que escutei. Quando nos acharam, eu estava em cima dela. Meus olhos estavam embaçados de sangue. E eu gritava. Eu gritava como se não houvesse outra forma de me fazer entender. Eu gritei, gritei e gritei. Ninguém podia me ouvir. Ninguém entendia o quanto doía. Doía tanto que eu só podia gritar. Foi o que fiz.

Espero que o Dr. Utterson me entenda após ler o meu diário. “É só para você entender melhor a si mesmo”, ele falou. Eu já entendo o suficiente.

Parte 2

A porta rangeu como um animal que sente dor. Olhando ao redor, Alice não mudou de expressão ao ver o psiquiatra idoso. Olhando os cantos das paredes mofadas e o chão de cimento, o seu leve franzir de sobrancelhas mostrou uma desaprovação não intencionada. O Dr. Utterson fingiu não notar, estava acostumado a isso.

⎯ Bom dia. Alice, certo? ⎯ Ele olhava para a prancheta em sua mesa sem levantar os olhos. ⎯ Pode sentar, por favor.

⎯ Bom dia, doutor. ⎯ Alice vestia uma blusa preta de mangas curtas, contrastando com a calça vermelha quase tão apertada que não poderia ser usada no trabalho. Cruzou as mãos em seu colo de forma a mostrar os hematomas no braço. Seu rosto estava inteiramente contraído e severo. Olhava fixamente para o psiquiatra.

Após mais alguns momentos de papéis revirados, ele levantou os olhos. A face de Alice estava ruborizada e seus olhos, semi-cerrados.

⎯ Você pode me contar o que aconteceu naquele domingo? ⎯ O Dr. Utterson parecia ignorar toda a tensão na postura da pessoa a sua frente.

⎯ O que aconteceu está bem claro, não?⎯ Ela levantou os braços e apontou com a cabeça para as manchas roxas. ⎯ Ele é cruel, ele é mau. Na semana anterior, nós estávamos saindo do shopping quando pedi para ele parar no bar. Eu ia só dar oi para as minhas amigas. Mas ele estava tão enciumado que me deixou lá por vingança. Ele é frio, nunca vai mostrar o quão perverso ele é para qualquer pessoa. Sempre com seus cadernos e reuniões de pesquisa, calmo e tímido, nunca fala com ninguém. Mas na verdade o Artur é perverso, ele é um monstro e fez tudo isso comigo sem razão alguma.

⎯ Entendo, senhora. ⎯ Seu olhar passivo contrastava com a enxurrada de indignação com da paciente. Sem alterar em nada a sua postura, o Dr. Utterson perguntou: ⎯ Vocês estavam discutindo sobre algo relacionado a sua mãe, certo?

⎯ Agora o senhor está tentando dizer que eu causei toda a agressão que ele me fez? Vai me prender no lugar dele porque eu estava tentando me defender? Ele tem uma bochecha cortada pelas minhas unhas, e daí? Eu estava me defendendo. ⎯ Ela batia com a mão no peito. ⎯ O senhor não está entendo nada, doutor. Naquele dia, a minha mãe me ligou e me disse que eu deveria parar de mentir. Que eu só ia ser feliz se conseguisse parar de brigar com todo mundo. Com certeza ele havia falado daquele incidente no bar para ela. Ele tinha feito ela achar que eu sou a errada, a criminosa. Isso é abuso, abuso psicológico. Violência. Ele não podia colocar a minha família contra mim.

⎯ Desculpe, Alice. Eu não estava tentando culpar você. Estou aqui apenas para ajudar vocês dois a entenderem a situação. ⎯ Ele fez uma pausa. ⎯ Você tinha problemas com a sua família? Artur já tinha feito isso antes?

Alice arregalou os olhos e abriu a boca para falar, mas nada saiu. Olhou para os lados, baixou a cabeça e engoliu a seco. Por fim, respondeu:

⎯ Ora, mas o que isso tem a ver com o que eu passei? Repito, doutor, o senhor não está entendendo nada. Eu e minhas irmãs… Nós… Nós não nos damos muito bem. Elas têm inveja de mim porque eu saí de casa mais cedo… porque sei me colocar melhor, me vestir melhor. Uma delas, a Ana, estava lá em casa no mês passado e disse que eu estava tentando olhar o celular dela. Tudo mentira.

⎯ E o Artur? Ele ajudava você com as suas irmãs?

⎯ De vez em quando… Uma vez ele disse para a minha mãe que eu estava… Que eu estava afetada por não ter passado no último concurso. Que o incidente com Ana não ia… Acontecer de novo. Que era besteira… ⎯ Alice olhava para os lados.

⎯ Então ele normalmente tentava ajudar, certo? ⎯ O Dr. Utterson voltou a olhar para os papéis, acabando com as tentativas de estabelecer contato visual já que Alice desviava o olhar constantemente.

⎯ É. Mas não foi assim dessa vez… Ele… Ele colocou a minha mãe contra mim! O senhor está me escutando? Está vendo isso em meus braços? Ele é um monstro! Ele me agrediu!

⎯ Entendo.

Parte 3

Universitário agride namorada

Segundo a vítima, o agressor teria “dupla personalidade”

Um aluno de doutorado de 28 anos foi pego em flagrante agredindo sua namorada, de 24 anos, dentro do apartamento do casal neste domingo, no bairro Louis Robert, em Steveson (UK). O suspeito teria tido um surto de raiva enquanto discutia com a parceira.

De acordo com o boletim de ocorrência, a desavença teria começado quando ela o acusou de tentar destruir seus laços familiares. Os vizinhos relatam terem escutado repetidamente a palavra “monstro” antes de começarem os gritos.

No depoimento da vítima consta que o autor do crime teria uma espécie de “dupla personalidade”, pois dava a todos a impressão de ser uma pessoa calma e centrada. Sobre o assunto, o delegado da 6ª Delegacia de Polícia da cidade de Steveson diz que o ex-casal terá acompanhamento psiquiátrico garantido pelo serviços do prefeitura.

Segundo a Polícia, o agressor foi autuado por lesão corporal leve e deverá se manter distante da ex-companheira enquanto responde em liberdade. “Ele não possui o perfil de um sujeito perigoso, mas vamos averiguar”, disse o policial que realizou a prisão em flagrante.

Amante. @lendoalexia

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