Eu quero contar a história de um pedaço de pano. Era branco, mas não daquele branco brilhante que recebera uma gotinha de azul sua composição. Era um branco sereno, branco-bege, o que hoje chamariam do off-white adequado para peles que ganham um tom dourado ao Sol. Era feito de um fio cintilante. E, sem precisar chegar tão perto assim, percebia-se que era composto de pequenos quadrados. Não na forma do xadrez, que tem pelo menos três tons. Mas era um quadriculado discreto. Alto relevo, baixo relevo, alto, baixo, etc. Tratava-se de algo tão elegante quanto todas as coisas que conseguem verdadeiramente serem fortes e sutis, tão rico quanto todas as coisas que misturam a si mesmas milhares de vezes para formar algo diferente. Isto é, nasceu e cresceu como qualquer das comidas que nos nutre.

Esse pedaço de pano já foi uma semente, já foi um caule, uma folha e uma pequena nuvem indistinta de algodão que tentava imitar as nuvens do céu. Foi arrancada de seu pé por mãos tão pertencentes ao universo quanto ela mesma. Imaginando o dia em que ia virar pó e, como pó, saberia que um dia iria novamente se juntar àquelas mãos. Demoraria a virar terra, no entanto. A nuvem de algodão, antes tão leve, juntou-se a tantas outras iguais a ela. Puxada, franzida, esticada e mergulhada no nada, ela teve o vento tirado de dentro de si, mas ainda podia senti-lo.

As nuvenzinhas viraram fios, os fios viraram feixes, os feixes viraram feixes de feixes e, assim, transformaram-se no pano entremeado de que falei. O pano, por sua vez, foi cortado e se viu tão junto a tantas fitas métricas por tantas vezes que perdeu a medida de si mesmo. Se achando de novo, o pano virou manga, saia, corpete, gola e anáguas. Transmutara-se em vestido. O brilho que lhe tingira agora tinha propósito. As mãos que passavam por cima dele eram agora apenas de um só pessoa, ela seria sua dona.

A dona o vestia dia e noite, cortando aqui e ali, enfiando linhas e agulhas num processo aparentemente interminável. Mas terminou. Terminou e o pano, agora vestido, estava pronto para o casamento. Não o casamento dele com as nuvens, como imaginara quando era ainda planta. Nem o casamento dele com as cinzas, pois pensara que seu destino iria ser tão breve quanto o do mundo ao seu redor. Não, o seu futuro era diferente. Ele seria eterno, pois sua dona nele se casaria. Certo dia ela o vestiu na calada da noite e disse para o espelho: “Esse é o meu destino”. “É o meu também”, o pano pensou. Não poderia estar mais correto.

Ela casou e o pano jamais vira tanta excitação, mais mãos passavam por ele do que jamais teria a capacidade de notar. Seus entremeados cintilantes pareciam causar uma certa comoção. “É lindo”, disseram. Era lindo mesmo. Andou pela igreja, arrastou pelo chão, absorveu o suor, conversou com a poeira ao seu redor. Aquele era seu mundo, seu apogeu, mas era sua despedida também. Ao final do dia, tudo ficou escuro. Ele agora iria descansar por muitos anos.

A dona do pano, ela tivera filhos que eram tão seus quanto de seu vestido de noiva. Se não fosse por ele, ora, as coisas não seriam do jeito que foram. A prole, a casa, as fotografias e a poeira dos móveis eram tanto de um quanto da outra. Descansando na caixa, o pano pensava que iria finalmente virar pó, tamanha era a quantidade de pequenos bichinhos que dele se alimentavam. Ser comido, esse era o seu novo destino. Cumprira sua função e agora descansava em paz nas trevas. Não havia nada a temer. Deixou calmamente seu branco virar um amarelo sujo e o amarelo sujo virar marrom. Ele abraçava a terra de bom grado e, de vez em quando, até sonhava com as mãos que lhe tiravam lá do caule um dia.

Mas chegou o momento em que viu a luz novamente. As mãos começavam a tocar nele como quando ainda era novo e inteiro. “Mas que cheiro horrível!”, era sua dona se referindo a ele. Então o vestido revisitou a água e o sabão, seus velhos amigos. Foi agredido por algo transparente e, mesmo sem sentir dor, lamentou-se por ter perdido seus novos tons de amarelo e marrom. “Assim está melhor”, atou sua dona logo depois. Mesmo discordando, ele estava ali para servir. Não havia o que temer.

Viu, então, a sua prole. Balançou com o vento em sua homenagem. Quis dizer: “Você é meu filho também e um dia estaremos todos juntos como pó, não é maravilhoso?”. Fingiu brincar com o menino com a ajuda do balançar do vento. A criança, como se entendesse, fez daquele novo branco a sua tenda de quintal. Não, não havia nada a temer. A vida lhe dava demais. O vestido foi guardado na caixa escura com a mesma gratidão com a qual um dia brotou do chão. Estava na hora de descansar novamente.

Já estava amarelo-marrom, ainda mais que na vez anterior, quando viu a luz outra vez. Seus buracos expressavam sua festa de comunhão com os pequenos bichinhos. “Os vestidos dessa época eram muito grandes, não eram?”, era a sua nova prole que falava. Nas mãos de seus novos filhos, ele quis sorrir. “Eu sou vocês e vocês sou eu”, tentou dizer.

E então imaginou quantos filhos e filhas ainda iria colocar no mundo. Já vira dois deles, um filho e uma filha do filho. A sua dona não estava mais lá, agora ela era o pó e com ele fazia sua comunhão, aos poucos… Quantos filhos ele ainda poderia ver antes de juntar a sua matéria às estrelas? Não sabia. “Eu e vocês somos um só, meus filhos”, era o que seu brilho cintilante dizia. “Estamos separados, mas estaremos juntos algum dia”. “Sim, algum dia voltarei a ver você”, eu respondi, pensando na dona do pano.

Quantos filhos terei? Quantos pais eu tive? Eu não sei. A quantos bater de asas eu devo a minha formação? Não sei. A quantos camundongos terei que pedir a bença? Nada. Mas me unirei a todos que me geraram. Apertando o pano nas mãos, eu entendi. Eu me cumprirei por meio do pó, pois sou filha dele também.

Amante. @lendoalexia