Cacos

Garrafas dançavam refletindo a luz de novas possibilidades, outras possibilidades, todas as possibilidades. Enquanto isso, minhas mãos tateavam todas elas. Sentiam suas curvas, a solidez fria. Onde os olhos corressem, vidros e mais vidros brindavam suas transparências.

Nunca consegui ser transparente comigo mesmo. Muitas vezes disseram que não conseguiam ver o que se passava na minha cabeça. Invejava os vidros.

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Como ser transparente? Como eles conseguem? São como essas pessoas, que as vezes até caricatas, conseguem ser tão transparentes, revelar seu mundo interior — mesmo que vazio — sem nenhuma turbidez. Como eles conseguem essa claridade? Como? Se quando olho para dentro — nem eu — consigo entender o que dentro há.

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É como se cada vez que eu olhasse para dentro, mergulhasse num abismo. Talvez não um abismo, já que nesse, mesmo sem claridade, é possível saber onde está. A sensação é, como se eu — eu estivesse dentro de um vidro, não como esses que tilintam seu brilho agora, como aqueles que, quando crianças, fazíamos aquele experimento divertido, de se admirar, de colocar água, tintas, purpurina, miçangas, lantejoulas para então chacoalhar e ver aquele cosmo todo de coisas cintilantes e plásticas se misturar. Lampejos flutuantes que se ocultam nas densidades da tintura e, na própria mistura que é, revelam outros.

Próximo

Água, tintas, purpurina, miçangas, lantejoulas e — eu. Essa é a sensação que me é familiar. Não só no meu universo interior, como também nesse mundo real. Como se dentro e fora fosse habitado por faíscas flutuantes que chegam ao auge, para desaparecer no clarão de outras deixando eventualmente apenas um eco para me lembrar que existiram, ou que existem, ou que desistiram. É como se estivesse constantemente muito próximo e distante da realidade. Eu não tenho controle disso, não é como se eu tivesse escolhido me distanciar — talvez seja o que minha falsa transparência aparente — mas, a verdade, é que simplesmente estou perdido. As vezes é como se eu entrasse num modo automático para fugir. Porque parece o mais coerente pro meu modo de operar. Entre o estar e o não-estar, o último parece mais simples de executar já que meu estado mental sempre está num estado de não estar que não consigo resgatar. Sempre. Uma sinestesia de ecos, faíscas, cacarecos.

Próximo — a caixa da Casa China me encara.

Olho para a minha cesta cheia de vidraças e novamente para a caixa. Vejo tudo que quero comprar para sair da minha rota atual e gastar tempo com outras possibilidades.

Esqueci algumas coisas — aponto para os corredores e dou as costas.

Nem sei como cheguei nas Casa China, tá certo que fica próxima de casa, mas foi como se eu tivesse surgido ali. Não lembro o que me fez parar lá. Foi como se eu tivesse entrado em algum modo de fuga automático com rota aquela infinidade de possibilidades de coisas exprimidas em corredores entulhados para caminhar no meio da perdição. É impossível ir para lá e comprar apenas o necessário, sempre acabo comprando uma penca de coisas que não preciso realmente— não sei se porque são coisas baratas e úteis ou se, simplesmente, me dão uma satisfação barata de algum dever cumprido já que em fuga dos meus.

Desisto das minhas compras.

Eu não tenho dinheiro para fugir e estou em cacos.