Paixão de ônibus
Jamais me esquecerei daquele olhar. Nunca ouve em minha vida outro igual. Meu espanto foi tal que, num átimo de segundo, meu estômago subiu e desceu. Por um breve instante senti tudo suspenso em meu interior. Tal o poder do olhar de uma mulher. Já havia notado que ela me notava. Ela certamente já havia feito o mesmo juízo de mim. Divididos por um corpo de algum trabalhador que tornava à casa cansado do trabalho. Não, não é possível. Meu acaso tem de ter entrado em acordo com o dela. De todos os milhares de segundos que se passam numa viagem de ônibus entre a rodoviária e nossas casas, como quiseram nossos olhares encontrar o do outro distraído no mesmo exato instante? Logo eu, que ía afundado em meus textos, mas com a periferia de minha visão atenta aos movimentos dela. Preparei-me para o melhor instante, o que estivesse mais desatenta, e quando parecia não ser capaz de me notar, desviei os olhos para contemplar seu lindo rosto. O que não esperava é que nesse exato instante, ela resolvesse fazer o mesmo. Por um segundo pude jurar que jamais vi dois olhos fitando uns aos outros com mais intensidade que os nossos naquele momento. A vibração interna foi instantânea e abrupta. Entrou-me pelas pupilas e correu-me retinas à baixo tal um raio descendo das nuvens à terra. Não sei se ela sentiu o mesmo. Mas pela sua paralisação, diria que sim. O um segundo mais longo que já vivi. E quem diria, num olhar. Mas não se engane, caro leitor, com o aspecto de memória longínqua dessas linhas. Ela ainda está ali. Talvez a um braço de distância. Com seus lábios carnudos, rosados, uma franja caída de lado, que agora esconde seus olhos convictos, e com uma pequenina pinta no canto esquerdo do rosto, entre o nariz e a boca, que eu queria poder ver mais de perto. Como eu queria lhe falar que escrevo sobre ti. Que meu desejo é de lhe cheirar o pescoço e ouvir tua voz. Que depois de Capitu, teus olhos são os mais belos que este país já conheceu. Mas seguirás calada seu rumo, e eu, igualmente, o meu. O silêncio que nos separa e os sonhos que, ao seu lado, agora atravessam minha mente, são tão intangíveis quanto o verso que não escrevi, e tão efêmeros quanto a ideia que há pouco me ocorreu mas perdi. Paixão de ônibus, veja só. Não foi a primeira e não será a última. Esse mesmo coletivo guarda inúmeras histórias que se iniciariam com um simples olhar. Talvez nem tão vibrantes como o nosso. Mas ele também é testemunha de quantas amores se perderam na próxima parada. Tu em breve descerá e levará contigo um futuro que se perderá. Chegará em casa. Irá se despir, a começar pelo casaco, depois a calça, então a blusa, e finalmente, o sutiã. Se deitará por alguns minutos. Depois, levantará para jantar, ajudar sua mãe com a louça, ou tomar um banho. Mais tarde, procurará seus livros, séries, amigos no celular, ou irá escutar aquela música que mais lhe agrada. E eu não estarei lá. A vida seguirá seu curso e jamais nos será dado provar o sabor do amor que poderia ter sido, mas não foi.
