A filantropia segundo a nova geração de líderes

Original: How a New Generation of Business Leaders Views Philanthropy, por Paula Goldman.

Tradução: Chrystal Caratta

Entre os conselhos que deu em seu ensaio “Riqueza”, de 1889, Andrew Carnegie, empresário e filantropo norte-americano, dizia que a primeira parte da vida deveria ser dedicada a estudar e aprender tudo que estivesse ao seu alcance, a segunda, a ganhar todo o dinheiro que você pudesse para, na terceira, gastá-lo até o último centavo com causas que valessem a pena.

Hoje em dia, os líderes começam a abordar problemas globais e de suas comunidades desde muito cedo em sua trajetória. Mas não é só isso, eles também estão questionando a tradicional separação entre negócios e filantropia. “Quando saí da faculdade, acreditava que os negócios eram feitos para ganhar dinheiro e a filantropia, para fazer o bem. Hoje acredito que ambos podem servir como meios para mudar o mundo”, compartilhou Bill Ackman, um bem-sucedido gestor de fundos hedge. Sir Ronald Cohen, o pai do capital de risco na Inglaterra, concorda. “Estamos vivenciando uma revolução”, explica Cohen. “Da mesma maneira que a tecnologia e o empreendedorismo transformaram nossas vidas, o uso das ferramentas empresariais e de investimento para abordar questões sociais está promovendo uma revolução generalizada, da filantropia para o setor público aos investimentos financeiros”.

Essa mudança de mentalidade entusiasma a todos na Omidyar Network. Com o objetivo de entender melhor como os filantropos atuais utilizam as forças do mercado para fazer a diferença no mundo e o que eles aprendem com isso, minha equipe e eu entrevistamos várias figuras icônicas nos dias de hoje, como Ackman, Cohen, Richard Branson, do Virgin Group, e Reid Hoffman, do LinkedIn. Nestas conversas, alguns temas se destacaram: investimentos de impacto para organizações com e sem fins lucrativos, medida de resultados (sem colocar os negócios em risco) e posicionamento de negócios baseado no bem coletivo.

Investimentos de impacto para organizações com e sem fins lucrativos. Em dezembro de 2015, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg e sua esposa Priscilla Chan anunciaram seu desejo de destinar aproximadamente US$45 milhões em ações do Facebook em prol de um mundo melhor através de uma sociedade limitada (LLC) em vez de uma fundação nos moldes tradicionais. Este também foi o caminho escolhido há mais de uma década por Pierre Omidyar, fundador do eBay, ao criar a Omidyar Network (onde eu trabalho) com duas frentes de atuação: uma sociedade limitada e um fundação. Como Zuckerberg, o objetivo dele era ampliar as ferramentas que poderiam ser aplicadas para transformação social, não apenas com subsídios a organizações filantrópicas, mas também através de investimentos de impacto em empresas com fins lucrativos dedicadas a suas missões.

Investimentos de impacto contam com entusiastas de peso — do Papa Francisco à Casa Branca — e ganham cada vez mais adeptos em diversos setores como a educação, inclusão financeira e energias alternativas. Alguns observadores acreditam que nem tudo são flores: esse tipo de investimento deixaria de fora importantes organizações sem fins lucrativos. A Omidyar acredita que é uma questão de encontrar a solução adequada para cada problema. “O importante é investir naqueles que realmente fazem a diferença, independente da constituição jurídica de suas organizações. O segredo é aproveitar todas as ferramentas que estão ao seu alcance”.

Medida de resultados, mas sem colocar os negócios em risco. Outro princípio empresarial que a nova geração de filantropos adota em suas iniciativas de transformação social é a ênfase em métricas rigorosas de resultados. O altruísmo eficaz é um movimento que cresce a cada dia e defende que as decisões de financiamento devem ser tomadas com base em evidências e critérios racionais, não em emoções e intuição. Dustin Moskovitz, cofundador do Facebook, e sua esposa Cari Tuna decidiram seguir este caminho para identificar causas de menor visibilidade, como a deficiência de iodo nos países em desenvolvimento, em que seu dinheiro faria uma diferença significativa.

A busca por cada vez mais dados e análises de qualidade sobre a eficácia dos programas já é amplamente aceita como uma das melhores práticas do setor. “Quando há dados disponíveis, o mais interessante é adotar uma abordagem de dados em painel”, afirma Jean Case, um dos pioneiros na Case Foundation juntamente com Steve Case, fundador da AOL. “Na falta deles, temos que investir para gerar dados ou ‘ser os dados’ num movimento de inovação e de abertura de novos caminhos para que os que venham depois de nós possam ter uma curva de aprendizagem mais rápida. Não deixe que a falta de dados se transforme em uma desculpa para não assumir riscos”.

Para o fundador do LinkedIn, Reid Hoffman, este é mais um dos princípios emprestados do mundo dos negócios: “No mundo dos negócios, os investimentos de risco que tendem a gerar maior impacto a longo prazo são aqueles em iniciativas pouco convencionais, que as pessoas não acreditam que podem dar certo. (…) O que acontece é que muitas ideias de impacto social trazem consigo esse elemento fora do padrão, o que leva as pessoas a duvidar de seus resultados”. Ele lembra do Change.org, fundado por Ben Rattray em 2007. Hoffman diz que, nos primórdios da Internet, as pessoas acreditavam que as petições online eram apenas “ativismo de sofá que não mudam nada, mas fazem as pessoas se sentirem bem”. Mas o site mostrou que era capaz de fazer as pessoas se levantarem do sofá, afetando os processos de decisão de governos e empresas no mundo real. “Meu conselho para aqueles que querem empreender com impacto social é que ousem e imaginem o mais longe que puderem”, diz Hoffman. “Teste suas ideias em projetos pequenos, que permitam que você meça os resultados e descubra o que funciona”.

Posicionamento de negócios baseado no bem coletivo. Hoje, mais de 1000 empresas levam o selo B Corporations da B Lab. A B Lab é uma instituição sem fins lucrativos que certifica empresas que atendem a rigorosos padrões sociais e ambientais, de responsabilidade e transparência. Da Method à Warby Parker, estas empresas colocam o impacto social positivo ao lado dos lucros em suas metas de faturamento bruto.

Essas certificações formais são apenas mais uma das maneiras que os líderes de hoje utilizam para que suas empresas contribuam com a sociedade para um bem maior. Sir Richard Branson, por exemplo, pressionou a Virgin e outras empresas a tomarem uma posição sobre questões alinhadas a seus valores. Junto com o CEO da Unilever Paul Polman e o CEO da Salesforce Marc Benioff, Branson ajudou a fundar o B Team, uma iniciativa que visa persuadir mais executivos a se comprometerem com a proteção dos direitos humanos fundamentais. Ele afirma que isso não é bom apenas para a sociedade global. É bom para os negócios. “Se as empresas se transformam em uma força pelo bem, as pessoas que trabalham para elas estarão muito mais motivadas e suas marcas vão ganhar um importante papel de destaque entre as marcas da concorrência”, explica. “Os clientes se importam com isso e vão demonstrar seu apoio adquirindo seus produtos e serviços”.

Mohammed Dewji, CEO do conglomerado MeTL, na Tanzânia, e eleito o Homem do Ano de 2015 pela revista Forbes, também destaca a importância de uma “estratégia de negócios que veja as pessoas economicamente desfavorecidas não como casos de caridade, mas sim como sujeitos dispostos a consumir produtos que atendam a suas necessidades e caibam no seu bolso”. A empresa de Mohammed oferece uma ampla gama de produtos acessíveis para pessoas de baixa renda na África Oriental que, em outro cenário, seriam excluídas do mercado de consumo por não poderem pagar o preço estabelecido.

Há inúmeras oportunidades para aproveitar o poder dos mercado em prol de um bem maior, especialmente para a próxima geração de jovens que podem transformar o mundo com base nestas ideias. Richard Branson resume bem a situação: “Se você puser a caridade de um lado e a lucratividade de outro, o que vamos ver no meio destas duas coisas são modelos híbridos incríveis, que emergem como a grande oportunidade do tempo que vamos passar no mundo”.

Hoffman faz coro: “Hoje, as organizações com poucos recursos podem conquistar alcance e escala que antigamente eram privilégio de empresas com centenas de funcionários e com milhões de dólares em caixa. Nunca foi tão fácil gerar tanto impacto a partir de boas ideias.

Paula Goldman é vice-presidente e líder global de investimentos de impacto na Omidyar Network.

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