As armadilhas ocultas na narrativa jornalística online

Carlos Castilho
Apr 2, 2019 · 3 min read

Nós ainda não estamos plenamente conscientes e acostumados com uma mudança que altera radicalmente nossa forma de lidar com notícias. Hoje, as narrativas, ou o que muitos chamam de versões, são mais importantes do que os fatos quando se trata de condicionar percepções e opiniões alheias.

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Narrativa é a forma pela qual os fatos são organizados e apresentados, seguindo uma ordem de importância estabelecida por narrador ou jornalista, no caso da imprensa. Isto implica, é claro, uma dose variável de subjetividade porque todos nós vemos o mundo de acordo com nossa bagagem cultural, conhecimento, experiência, interesses e inserção na realidade. A subjetividade sempre esteve presente no jornalismo porque ele é feito por seres humanos, mas o discurso das empresas jornalísticas criou a ideia de que as notícias são isentas e objetivas.

O que assistimos hoje é uma supervalorização das narrativas porque é por meio delas que os veículos de comunicação procuram diferenciar-se uns dos outros para aumentar receitas com publicidade e assinaturas. Até a era da internet, o fluxo de dados, fatos e eventos noticiáveis era muito reduzido, o que permitia notícias exclusivas, os “furos” no jargão jornalístico. Hoje, os “furos” são raros por conta da avalanche informativa nas redes sociais e blogs, o que deu margem a que as narrativas se tornassem ferramentas de condicionamento da opinião pública.

O condicionamento envolve uma operação ampla, complexa e demorada porque o interessado na formação ou desconstrução de opiniões precisa impedir que o público alvo da ação perceba que está recebendo informações distorcidas, parciais ou totalmente falsas. Também é essencial a produção de um fluxo constante e massivo de fatos noticiosos que, ao se sobreporem uns aos outros, ocupam os espaços nobres na mídia, praticamente anulando a credibilidade de narrativas divergentes. A falta de informações sobre como as notícias são produzidas e difundidas faz com que o público ainda confunda fatos e narrativas, acreditando que só os primeiros são publicados.

O uso de narrativas disfarçadas de fatos está substituindo o recurso à força bruta, como intervenções militares em crise nacionais e internacionais, porque os custos financeiros e humanos são muito menores. O caso da invasão do Iraque é um exemplo claro onde foi usada intensivamente a narrativa baseada no suposto arsenal de armas de destruição em massa em poder de Saddam Hussein, fato que nunca foi comprovado.

O polêmico “nihilismo informativo”

A nova estratégia para conquistar corações e mentes colocou em evidência os especialistas em manipulação de fatos na forma de narrativas com algum tipo de viés político, social, financeiro ou ideológico. É o que ficou conhecido como políticas de desinformação baseadas em notícias falsas (fake news), meias verdades e em narrativas distorcidas para atingir uma determinada finalidade. Estes especialistas raramente aparecem para evitar que a narrativa, criada por eles, seja associada a contratos comerciais, capazes de comprometer a credibilidade do projeto.

A manipulação de fatos na construção de narrativas com algum tipo de viés torna ainda mais complicada nossa tarefa de identificar o que é digno ou não de crédito. Missão esta que é ainda mais complexa se levarmos em conta que vivemos num mundo cada vez mais midiatizado, onde somos obrigados a consumir não apenas a informação, mas também a informação sobre a informação.

Questionar dados, fatos e eventos não é mais um luxo intelectual de professores e pesquisadores, mas uma necessidade permanente de cada indivíduo. Aqui está o nosso principal dilema contemporâneo em matéria de informação. Já não dá mais para terceirizar integralmente o questionamento para a imprensa, como era feito até agora, porque ela não tem condições de contextualizar todas as notícias que circulam diariamente em todas as plataformas informativas na internet.

Também não é mais possível o que muitos classificam como “ nihilismo noticioso”, ou seja, o desligamento total do noticiário diário. Tudo bem, alguém pode decidir tornar-se um ermitão informativo, mas isto significa também alienar-se socialmente. A digitalização da informação e a internet nos condenaram, portanto, a ter que dedicar parte do nosso tempo a refletir sobre o bombardeio de notícias a que estamos sujeitos 24 horas do dia, sete dias por semana.

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