Jornais x redes sociais: quando o lucro e a sobrevivência falam mais alto

A maioria das pessoas ainda não se deu conta, mas estamos no meio de uma guerra surda entre as empresas jornalísticas convencionais e os novos gigantes da internet, representados pelo Facebook, Google, Twitter, YouTube e Instagram. É uma guerra comercial e financeira, mas ela terá profundas repercussões na forma pela qual nos relacionamos com a informação e as notícias.

Ilustração Pixabay / Creative Commons

A guerra tornou-se visível e barulhenta quando os jornais acusaram as redes de difundir boatos e informações inverídicas. As redes se defenderam alegando que são empresas de tecnologia que não produzem conteúdo próprio e portanto não estão submetidas às leis e regras que normatizam a atividade das empresas jornalísticas.

A polêmica está ganhando tons cada vez mais ácidos ao mesmo tempo em que deixa claro que estamos no limiar de uma nova cultura noticiosa e informativa na qual mudam o conceito, rotinas e valores do jornalismo, bem como nossas percepções de credibilidade, veracidade e autoria. Estamos apenas no começo de uma grande transformação onde alguns tradicionais conglomerados jornalísticos podem acabar sendo substituídos por novos impérios digitais, igualmente preocupados com lucros e a diversificação de negócios.

O bate boca entre imprensa e redes sociais envolve fatos e muitas meias verdades. Facebook, Google e Twitter, por exemplo, não produzem notícias, pois seu forte é o compartilhamento de opiniões e percepções entre seus usuários. Mas tanto os jornais, revistas e telejornais, como as redes sabem que o que realmente importa é a forma como uma notícia ou informação é titulada e publicada. O contexto tem mais importância na formação da opinião pública do que o dado, fato ou evento em si. E aí, tanto a imprensa como as redes são praticamente iguais na hora de “emoldurar” o material jornalístico.

Jornais, revistas e as redes de televisão estão perdendo público e anunciantes para os novos conglomerados digitais, o que gerou uma batalha por fatias do mercado publicitário e por fidelização de audiências. Do ponto de vista comercial, trata-se de um confronto por dinheiro, o que não chega a ser muito diferente de outros embates similares ocorridos no passado entre os grandes atores do universo empresarial da comunicação jornalística.

A novidade atual é que a batalha midiática em curso leva a uma mudança radical dos comportamentos dos consumidores de notícias e de informação. Até agora, a imprensa tinha o monopólio do fornecimento de notícias e usava um sistema vertical e unidirecional. Os jornalistas era considerados os profissionais que sabiam o que as pessoas queriam ou necessitavam, e influíam diretamente na formação da opinião pública. O noticiário da imprensa poderia ser comparado a um discurso onde um fala e muitos ouvem.

Impérios em rota de colisão

Os novos gigantes empresariais da era digital partem de uma estrutura diferente. Para eles a interatividade entre seus usuários e clientes é o fator mais relevante. Importa que as pessoas comentem, recomendem e critiquem. O conteúdo dos comentários, sugestões e criticas é secundário. A descoberta do poder de expressar sentimentos e opiniões na internet gerou audiências gigantescas para redes sociais o que inevitavelmente intensificou a comercialização da publicidade online e colocou Facebook, Twitter e Google em rota de colisão com a imprensa convencional.

Os jornais e revistas se queixam, desde 2014, que as redes sociais usam o seu material noticioso sem pagar nada por direitos autorais. Muitos deles percebendo o crescimento exponencial dos usuários de redes sociais virtuais resolveram mudar de estratégia e apostar na publicação de textos jornalísticos no Facebook, por exemplo, pensando em conquistar novos leitores e novos anunciantes. A estratégia não deu os resultados esperados para os jornais porque as redes assumiram o papel de plataformas de publicação e, logicamente, ficaram com a maior parcela do faturamento publicitário.

A resposta veio através da polêmica sobre disseminação de notícias falsas, notadamente na campanha eleitoral norte-americana que levou Donald Trump a Casa Branca. O novo presidente botou ainda mais lenha na fogueira quando passou a usar intensivamente o Twitter como plataforma para divulgação de comunicados e opiniões pessoais, passando por cima dos jornalistas, ao mesmo tempo em que acusava a grande imprensa norte-americana de publicar notícias falsas sobre o governo.

A polêmica entre quem produz e quem não produz conteúdos jornalísticos é talvez o aspecto menos relevante da questão, porque estamos assistindo o início de uma mudança radical na forma como absorvemos informação. O sistema linear, sequencial e vertical usado até agora nas narrativas jornalísticas na imprensa convencional está cedendo espaço, cada vez mais, a formatos multimídia, não lineares, ou seja não há um começo e um fim predeterminados pelo autor, o que inevitavelmente interfere na ordem pela qual as pessoas navegam por uma notícia. Além disso, diminui o poder que um redator ou repórter tem de influir na maneira como o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta lê, ouve ou vê uma notícia.

Esta mudança, aliada ao fato de que o público passou a ser, também, um produtor e disseminador de informações, é que está complicando ainda mais a vida das empresas jornalísticas.