O inócuo bate-boca entre Facebook e jornais

O bate boca entre Facebook e jornais sobre enquadramento das redes sociais nas leis que regulam a imprensa é na verdade uma polêmica inócua porque os protagonistas se situam em realidades distantes uma da outra por no mínimo meio século.

É evidente que a rede criada por Mark Zuckerberg é hoje um protagonista de primeira linha na difusão de notícias, mas submete-la à mesma legislação imposta atualmente às empresas jornalísticas é uma ideia tão despropositada quanto a aplicar as regras do basquete para partidas de futebol.

O Facebook alega que é uma empresa de tecnologia e não produz jornalismo. Já os legisladores, governantes e executivos de conglomerados jornalísticos contra atacam afirmando que as redes são as responsáveis pela onda das notícias falsas e o consequente caos informativo.

Na verdade ambos estão errados porque as redes se tornaram mídias digitais e a alegação de serem empresas de tecnologia é uma frágil desculpa para fugir do enquadramento em leis que regulam a imprensa. Os jornais recorrem também a uma desculpa não menos frágil, ao afirmarem que só a imprensa tem condições de garantir a confiabilidade das informações que publica.

O que está em jogo hoje é uma nova visão do papel das mídias (expressão criada a partir da palavra inglês media), entre as quais está a imprensa. A questão foi atropelada pelo fato da internet ter eliminado o monopólio que a imprensa tinha na veiculação de notícias e que permitia ao jornalismo administrar a formação da opinião pública.

Este monopólio conferia aos jornais, revistas, emissoras de radio e TV, uma função política única, ou seja, estes veículos transmitiam, e em boa parte ainda transmitem, as mensagens que os partidos, governantes e lobbies corporativos desejam passar aos seus eleitores e clientes. No sentido inverso, a imprensa condiciona as ações dos tomadores de decisões a partir das reações do público surgidas a partir de notícias que ela própria publicou.

Este papel estratégico da imprensa no conjunto das mídias foi desfeito pela internet e é aí que realmente está o problema na polêmica entre jornais e o Facebook. Quando a imprensa culpa as redes pelo fenômeno das fake news, ela usa o argumento que mais lhe convém, mas não pode ignorar que a complexidade informativa no espaço cibernético é o meio ambiente natural das redes sociais. Entender como elas (redes) passaram a existir e funcionar num contexto predominantemente digital não é uma tarefa fácil porque nos obriga a abandonar toda uma cultura informativa alicerçada no monopólio da imprensa sobre os insumos noticiosos oferecidos à população.

A midiatização das mídias

Não dá para regular as redes usando as regras da imprensa e vice versa, tomando como base a notícia. Primeiro porque a avalancha informativa gerada pela internet e pela digitalização reduziu a quase zero o valor da notícia como commodity fundamental na economia de jornais, revistas, rádios e televisões. Segundo porque estamos entrando na era digital onde ganha força o processo chamado de midiatização, ou seja, as mídias de todos os tipos, passaram a centralizar cada vez mais os fluxos comunicacionais na sociedade.

O que antes era feito basicamente pela imprensa agora foi transferido para a internet, entendida aqui como uma espécie de guarda chuva de um sub sistema de mídias que incluem veículos analógicos, digitais, impressos, áudio visuais, interativos ou de realidade virtual .

O aumento exponencial no volume de dados, fatos e eventos publicados na internet e a facilidade enorme para disseminá-los produziu uma cadeia de mídias onde uma informa a outra. A tradição jornalística de testemunhar fatos e eventos tornou-se quase inviável porque não há tempo e nem condições físicas para a equipe de repórteres de um diário cobrir todos eles sem recorrer ao que é publicado em redes sociais, bancos de dados virtuais, blogs, no Twitter e YouTube.

A velha máxima de Marshall MacLuhan, o meio é a mensagem tornou-se algo palpável porque as mídias passaram a interagir entre si sem a participação de humanos, como no caso dos algoritmos informativos. A internet também deu origem a uma multiplicação fantástica de novas plataformas de transmissão de informações e o que assistimos hoje é a onipresença de mídias em nosso quotidiano.

Uma camiseta com uma inscrição é uma espécie de outdoor ambulante que transmite informações sobre o que está impresso e sobre a pessoa que exibe a mensagem no seu peito ou costas. Os ônibus, aviões, automóveis e até os caminhões de transporte foram transformados em mídias ao exibiram marcas, mensagens e publicidade.

Se somarmos tudo isto ao que já acontece na internet no terreno das notícias fica fácil perceber o crescente caos informativo no qual estamos mergulhando cada vez mais e que tem como amostra mais visível, o fenômeno das fake news.

O enquadramento das redes sociais na mesma legislação que regula a imprensa terá um efeito mínimo no esforço para reduzir as consequências da disseminação de notícias falsas porque não atingirá os dois problemas centrais no bate boca entre Facebook, Google e os jornais: O do combate às notícias falsas que desorientam o público, e as dificuldades financeiras de empresas tradicionais no campo da comunicação.

A questão da credibilidade informativa não será resolvida por leis ou decretos, e sim por um esforço da imprensa e das redes em verificar o que está por trás de cada notícia, avaliando a sua publicação em função dos interesses do público e não de lobbies eleitorais, diplomáticos ou corporativos. E a crise do modelo de negócios na imprensa passa por uma revisão de processos administrativos, de captação de recursos e de relacionamento com jornalistas e com as respectivas audiências.

A imprensa precisa tomar consciência de que a complexidade e diversidade de notícias vieram para ficar. As redes sociais virtuais, por seu lado, também são responsáveis pela insegurança informativa porque também são veículos de comunicação.

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