O negócio das “fake news” e os dilemas do jornalismo na era digital

A polêmica mundial sobre o fenômeno das notícias falsas (fake news) é, talvez, a primeira grande manifestação do impacto que as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) têm, e terão, no conjunto de valores, comportamentos e práticas da sociedade em que vivemos. Não se trata apenas de corrigir um problema por meio de uma solução técnica, política ou judicial, mas de lidar com um fenômeno que tem bases econômicas, que desestabiliza os nossos conceitos de verdade, objetividade ou imparcialidade e que, potencialmente, pode acelerar a maior mudança já registrada na imprensa nos últimos dois séculos.

O artigo “Como funciona a engrenagem das notícias falsas no Brasil”, publicado na Folha de São Paulo, no dia 19 de fevereiro, mostra com riqueza de detalhes como um controvertido blogueiro de Poços de Caldas ganha dinheiro por meio da disseminação de notícias falsas, geralmente sensacionalistas, sobre política brasileira. Trata-se de uma leitura obrigatória para quem está preocupado/a com disseminação das fake news no Brasil, mas a reportagem não cobre todo o tema que é muito mais complexo. O blogueiro Alberto Júnio da Silva não é o único a usar as redes sociais para espalhar falsidades.

Quem monitora as páginas de direita e esquerda no Brasil perceberá que a grande maioria delas tem como estratégia central a polarização político-ideológica usando como instrumento a disseminação de notícias não confirmadas ou fora de contexto. Talvez o caso mais gritante de uso político das “fake news” são as mensagens de Donald Trump via Twitter. A estratégia comunicacional do presidente norte-americano está quebrando o modelo de relacionamento entre a Casa Branca e a grande imprensa norte-americano, o que pode gerar uma situação irreversível, onde a tendência é os dois lados perderem força e poder.

Pacto de suicídio

O professor de comunicação, Jeff Jarvis, publicou no dia 19/2 um artigo com o título “Trump e a imprensa: um pacto de assassinato e suicídio” (Trump & Press: a Murder and Suicide Pact ) onde afirma que o presidente e a imprensa acabaram se metendo numa relação em que ambos perdem. Trump, porque os grandes jornais e telejornais norte-americanos acabarão investigando os negócios privados do presidente para evitar que ele consiga convencer os seus eleitores de que a imprensa dos Estados Unidos vive de notícias falsas. Ver esta postagem do presidente no Twitter:

Reprodução

Por seu lado a imprensa tende a perder pontos porque será obrigada a entrar numa polêmica sobre credibilidade e confiança, algo bastante incômodo para muitas publicações. Até agora, as grandes corporações midiáticas norte-americanas estavam, de certa maneira, protegidas por um pacto supra partidário de não agressão com as elites governantes do país. O fenômeno Trump, surgido da necessidade dos republicanos de ganhar votos no eleitorado interiorano e tranquilizar a classe media baixa nos centros urbanos, deflagrou uma situação inusitada na política americana e com ela uma ameaça ao poder da imprensa num momento em que ela vive as agruras da transição para a era digital.

Mas o problema das noticias falsas é ainda mais complicado porque envolve negócios milionários onde os principais protagonistas são empresas controladoras de plataformas digitais de publicação de informações como Google, Facebook, Twitter, Instagram, You Tube, Whatsapp e outras. É o que mostrou o pesquisador e empreendedor norte-americano Sean Blanda no artigo “Medium, and The Reason You Can’t Stand the News Anymore” ( A mídia e as razões pelas quais você não pode mais confiar nas notícias). No texto, Blanda, mostra como os cliques e curtidas alimentam a indústria da publicidade na internet, responsável por quase 90% das receitas das grandes redes sociais que teriam graves problemas financeiros caso percam esta fonte de renda.

Um modelo de negócios

Assim Facebook, Twitter e as demais adotaram um discurso anti fake news mas, ao mesmo tempo, têm todo interesse que os seus usuários apelem para recursos que aumentem as visitações e clicadas porque isto significa faturamento para ambos. O blogueiro Beto Silva, de Poços de Caldas, bem como os adolescentes da Macedônia que alimentaram a batalha midiática online que precedeu a eleição de Trump, são os exemplos mais conhecidos deste oportunismo informativo sem escrúpulos, movido pela expectativa de pegar uma migalha do faturamento milionário das redes sociais.

O fenômeno das fake news na internet não é apenas um negócio de jovens inescrupulosos a cata de dinheiro fácil, mesmo as custas da reputação alheia. As bases do fenômeno estão no modelo de negócios das grandes redes sociais e de muitos outros sites na Web, que se sustentam financeiramente com a renda auferida da publicidade baseada nos cliques gerados por visitantes. Uma mudança nesta receita financeira acabaria com a festa dos hackers e indivíduos como Beto Silva mas secaria também a fonte de rendas milionárias do Facebook, Google e outros. É muito pouco provável que as grandes redes abandonem um sistema que lhes traz tantos lucros.

Este dilema levou a plataforma Medium, uma espécie de Facebook de pessoas inteligentes, a anunciar o abandono do modelo clássico de publicidade por curtidas para enfrentar o crítico desafio de buscar a sustentabilidade financeira num contexto desconhecido. A Medium foi fundada pelo criador do Twitter, Ev Williams, que investiu sua fortuna numa aposta visando criar um diferencial de qualidade e responsabilidade entre as redes sociais.

Mais cedo do que Ev esperava, ele se defrontou com o dilema de ceder à lógica imediatista do Facebook ou optar pelo desconhecido na busca de sustentabilidade financeira. É este mesmo desafio que está colocado diante de quase todos os projetos jornalísticos online, não importa o seu tamanho ou proposta. A maioria deles já conseguiu muitos avanços na forma de produzir notícias no sistema multiplataformas online, desenvolveram princípios básicos sobre como se relacionar com a comunidade de leitores, mas não tem a mínima ideia por onde lograr uma mínima estabilidade financeira capaz de arcar com custos operacionais e remunerar colaboradores.

Trata-se de um desafio muito complicado porque ele depende do estabelecimento de uma nova relação entre o jornalismo, os jornalistas e o público, algo que não está nos manuais de redação, é pouco estudado nas escolas de jornalismo, tira o sono de executivos e seguramente não terá uma solução rápida.

Enquanto este novo modelo não for criado, vamos ter que conviver com as incertezas das fake news, o que pode ser ruim por um lado, porque implica incertezas e insegurança informativas, mas por outro, ajuda a desmontar as falácias do modelo atual de sustentabilidade financeira na indústria do jornalismo.

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