Pós- verdade, pós- fato e pós- jornalismo
A cada dia fica mais claro que o principal desafio do jornalismo na era digital não está na tecnologia, nem no relacionamento com leitores e muito menos na descoberta de um novo modelo de negócios. Está na forma como a profissão lidará com o problema da veracidade de noticias e informações, porque este problema afeta o DNA do jornalismo, já que sem credibilidade, a atividade perde razão de existir.

O jornalismo sempre se propôs a ser um arauto da verdade. Na era industrial isto até poderia ser viável porque o fluxo de informações era limitado pelas limitações tecnológicas da imprensa, mas a partir do momento que começamos a ingressar na era digital, o conceito de verdade mudou e como ele os procedimentos, normas e valores associados à atividade.
Hoje está cada vez mais claro que não existe uma verdade absoluta porque não há, pelo menos no momento, uma inteligência suficientemente ampla com capacidade de trabalhar toda a massa de informações que começa a ser liberada pela computação e pela internet. Pode ser que um dia isto aconteça, mas agora, e pelo futuro próximo, é inviável pensar num supercérebro capaz de processar os zilhões de bytes e bits lançados, a cada segundo, na nuvem da internet.
A revolução digital permitiu o surgimento de um número, teoricamente infinito, de dados e versões sobre um mesmo fato. Na prática isto significa que não há uma versão definitiva que possa ser qualificada como verdade. Teremos sempre aproximações e situações como a que estamos vivendo agora com o debate em torno da pós verdade e das fake news. Este debate vai longe porque coloca de um lado o conceito analógico de verdade, baseado na dicotomia verdadeiro ou falso, e do outro a ideia, ainda pouco precisa, da relativização de dados, fatos e eventos em nosso quotidiano.
A discussão afeta a forma como nos relacionamos com a realidade que nos cerca. Fomos educados a crer na existência do verdadeiro e do falso, mas agora ficou muito difícil saber o que é certo ou errado diante da multiplicação exponencial de percepções e opiniões sobre um mesmo dado, fato ou evento. Para fazer escolhas, mesmo as simples, estamos sendo obrigados a pesquisar, discutir e refletir. Isto toma tempo e dá trabalho.
O pós jornalismo
No passado, atribuíamos ao jornalismo a tarefa de resolver nossas dúvidas e incertezas sobre o mundo que nos cerca. Só que hoje a imprensa também passou a viver o dilema de lidar com uma matéria prima, a informação, que já não pode mais ser enquadrada nas categorias usadas, antes da internet, para definir o que é verdadeiro ou falso. Prova disto é polêmica mundial sobre as fake news, uma expressão popularizada pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Alguns pesquisadores do jornalismo e da comunicação propõem que em vez de polemizarmos em torno da veracidade ou falsidade de uma afirmação, passemos a dar mais importância a se ela está baseada em fatos ou em especulações, desejos e imaginação. No primeiro caso, poderia ser considerada verdadeira e no segundo, a afirmação estaria baseada em suposições, crendices ou no whisfull thinking ( expressão inglesa para definir algo que gostaríamos que acontecesse).
O problema é que a avaliação da factualidade depende da forma como um indivíduo percebe o mundo que nos cerca, através dos cinco sentidos humanos, mas a ciência nos informa que a visão, audição, tato, paladar e olfato são funções personalizadas, ou seja, variam de pessoa a pessoa, dependem de fatores como cultura, raça, idade, experiência de vida e educação. A definição se uma afirmação é factual ou não, é menos sujeita a fatores subjetivos que a da distinção entre verdadeiro ou falso, mas também não está livre da necessidade de relativizar julgamentos em função de fatores que condicionam cada fato, dado ou evento.
A teoria do pós-fato sugerida por alguns jornalistas como um antidoto à polêmica em torno da pós verdade, sofre a influência da polarização ideológica em torno da adoção de novas rotinas, normas e valores no exercício da profissão. O desdobramento possível seria o surgimento da ideia de um pós-jornalismo, mas isto já é um tema para uma próxima reflexão. Coisa que só poderá ser feita de forma coletiva e interativa, começando por sugestões aparentemente estapafúrdias mas que, se lançadas na mesa do debate, podem funcionar como gatilho para grandes ideias.
