Quando Sebastião Salgado dá lições de jornalismo

Quanto mais a gente revê o documentário Sal da Terra, sobre fotógrafo Sebastião Salgado, maior é a convicção da necessidade de revisão dos valores e procedimentos que, nós jornalistas, adotamos em reportagens sobre fatos, pessoas e realidades às quais os nossos leitores, ouvintes e telespectadores não tem contato direto.

O ritmo industrial imposto pela grande imprensa à cobertura da guerra na Síria, por exemplo, nos coloca na dependência de informações de terceira ou quarta mão, ou nas descrições de um enviado especial que, muitas vezes, teve apenas horas para entender o que se passa no país. O resultado são relatos em texto, áudio ou imagens que refletem basicamente a visão de mundo do repórter , as dificuldades que teve para realizar sua cobertura e os posicionamentos políticos e ideológicos da empresa à qual está vinculado. Tudo isto pode ser observado em reportagens sobre a guerra na Síria, para citar apenas um exemplo.

É um contraste brutal com o estilo de trabalho de Sebastião Salgado, que em todos os seus trabalhos preocupou-se , acima de tudo, em viver e entender as pessoas e os ambientes fotografados, sem a preocupação com o tempo para executar a cobertura. A questão do tempo é chave para percebermos a diferença entre uma reportagem produzida a partir da preocupação com o furo, com a concorrência bem como o custo da realização do trabalho, e outra onde a meta é entender o que realmente está acontecendo.

A falácia da notícia como retrato da realidade

O predomínio da mentalidade industrial nas coberturas jornalísticas é tão forte que acabamos nos esquecendo de que o que a imprensa nos traz diariamente não é a realidade mas uma representação da mesma, feita a partir da forma como a inteligência, sensibilidade, experiência e cultura informativa do repórter . A imprensa nos vende esta representação, que pode estar mais ou menos distante dos locais, fatos e pessoas reais, como uma verdade digna de credibilidade.

Aqui está a grande distorção criada pelo sistema atual de produção de reportagens em locais distantes ou desconhecidos pela maioria esmagadora dos leitores dos grandes centros urbanos. A responsabilidade da desinformação nas coberturas internacionais ou em regiões remotas aqui mesmo no Brasil, não é dos repórteres e correspondentes mas do sistema de produção de reportagens.

A velocidade do ritmo industrial, hegemônico na mídia nacional e estrangeira, é estruturalmente vinculada à superficialidade e ao impressionismo jornalístico, enquanto coberturas como as feitas por Salgado chegam a consumir anos de trabalho porque a preocupação central do profissional é entender o que ele vê por meio da vivência com as pessoas e situações. Em seus projetos fotográficos, Sebastião gastou mais tempo para viver a realidade de tribos da Indonésia, a tragédia da fome na África, a loucura de Serra Pelada e a xenofobia no esfacelamento da antiga Iugoslávia, do que acionando a sua Canon.

O jornalismo lento

Estes dois contextos são cruciais nas escolhas feitas pelos correspondentes com influências diretas na forma como os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas percebem e avaliam o conteúdo das reportagens. No ritmo industrial, o público assume a postura de espectador de um desfile de imagens e textos porque o ritmo veloz, as vezes frenético, gera percepções pelo acumulo de dados e não pela analise e reflexão. Já no chamado “jornalismo lento” (slow journalism, no jargão norte-americano), as pessoas são levadas a envolver-se emocionalmente com o que leem, ouvem ou veem, porque há tempo para que a comunicação sensorial aconteça.

Quem assiste o Sal da Terra, um documentário com uma hora e 50 minutos de duração, dificilmente consegue manter-se imune ao efeito de fotografias dramaticamente humanas . A maioria delas já apareceu em jornais, revistas ou telejornais, e o seu impacto emocional e informativo foi drasticamente reduzido pela inserção em noticiários preocupados em transmitir o máximo de fatos, dados e eventos no mínimo tempo possível. Mas quando as mesmas imagens integram um filme, num contexto informativo distinto, a reação das pessoas é bem diferente, mesmo entre aquelas que discordam das posições de Sebastião Salgado.

Quanto um tema é tratado com profundidade e contextualização, o envolvimento do leitor, ouvinte ou telespectador, é maior e as pesquisas já mostraram, uma tendência à redução de reações preconceituosas, xenófobas ou sectárias, o que aumenta as chances de entendimento e aproximação entre opostos.