Benção ou Infortúnio?

Caio Cardoso
Aug 24, 2017 · 4 min read

Se, hoje, com 16 anos e algumas vivências, perguntarem como me enxergo e como definiria o universo ao meu redor, com certeza o termo mais esclarecedor seria: melancolia. Vive-se ódio, guerra, disputas, inveja, ganância e o sofrimento do povo.

E, sim, considero que esse termo define muito mais o que é a “vida” do que a (falaciosa) felicidade que todos pregam. Mas não somos preparados para essa situação, pois é esse o funcionamento da sociedade: devemos inibir os sentimentos fora da normatividade e por isso sorrimos, amamos, pulamos e mostramos contentamento, mesmo quando estamos sentindo uma puta tristeza ou dor ou repressão. Fazemos isso a nós mesmos e ao outros sem ao menos pensar. Apenas segue-se o ritmo. Alienados e ignorantes, mas que, talvez, pelo menos não conseguem ver a veracidade crua e podre. E é esse o ponto que quero chegar: não defino se isso é bom ou ruim, mas quero escrever sobre minha experiência em torno disso, até mesmo justificando pra mim mesmo neste texto algumas atitudes que venho tomando. Vamos lá:

Autorretrato de Egon Schiele.

Compreendi a mim mesmo e abracei quem eu sou aos 11 anos após “descobrir” minha sexualidade. Logo, aos 12, estava começando a me envolver com o que já era o ativismo e a militância. Desde então, estudava, me engajava e talvez posso me considerar até um intelectual, e não falo de maneira esnobe, até porque não acredito nesse elitismo que essa palavra supostamente traz consigo. “O Caio”, então, sempre foi o “menino à frente da sua idade”, sempre interessou-se em “coisas que não era pra crianças”. E os resultados colhidos? Percebi algumas dores mais cedo do que os outros: relacionamentos abusivos, dificuldades emocionais e psicológicas, responsabilidades, pensamentos suicídas (isso é mais recente do que imagina-se) e, a mais importante para o texto, a consciência — que vem com uma carga dolorosa e importante para mim.
Conjuntamente, todas essas vivências me tornaram quem sou e sempre deixei isso claro, até porque, a maioria das coisas que fiz, me orgulham e me fazem quem sou. Porém, com tudo isso, a vida não deixa de ser um porre, na verdade, hoje analiso e vejo o quanto me influenciou na questão emocional e psicológica e na minha leitura da sociedade.

Eu descobri minhas opressões; encontrei um mundo muito mais cheio de dificuldades do que eu já havia sequer imaginado; comecei a lutar e buscar a diferença por ter esperança, mas vi que não é tão fácil; vi a minha existência e o quanto meus privilégios influenciam a sociedade; discuti, mesmo não tendo como chegar a um resultado prático…

E, no final das contas, a consciência e o resultado dela serviram para uma coisa: me mostrar a realidade humana — que é dolorosa e frustrante. Que machuca e que irá te matar, seja pela alienação, seja pela consciência, e consequentemente a dor, que serão julgadas e banalizadas.

E o que fazer? Sei lá. Talvez eu preferisse não ter noção de alguns mecanismos da sociedade. Seria mais fácil. Mas seria bom? Sigo me questionando. Todavia, sempre me priorizando. Por exemplo, nos últimos tempos, que me afastei da atuação presente nos movimentos sociais, entendi e precisei entender que a maior militância é você cuidar da sua própria saúde mental e psicológica, porque a minha está (ou talvez estava) destruída.

Vou seguindo assim. Seria a ignorância uma benção? Pra quem? Pra mim? Você? E quando saímos da bolha? E quando você é um dos poucos “iluminados”? Qual o resultado? É realmente positivo pra você?

Quando ela toma consciência sobre o “ritmo”, o que acontece com depois?

É essa a parte que ninguém fala. Ou ninguém se importa. Porque é pungente. Porque, enquanto o resto for diferente e continuar dançando presos ao ritmo, você vai sangrar até não aguentar mais. E pra quê? Não sei.

É isso que eu questiono: até que parte a consciência (de alguns aspectos) fez bem pra mim?


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Caio Cardoso

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Queer, entusiasta das ciências sociais e aspirante a professor e político. Em busca de aprendizados e luz. Escrevo quando posso.

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