Em CPMI, pesquisador parceiro da CDR revela estruturas de grupos que promovem desinformação no WhatsApp

Rafael Evangelista, pesquisador da Unicamp e da Lavits, também destacou o modelo econômico das grandes plataformas e das operadoras de telefonia, que favorece a disseminação de notícias falsas

Por Enio Lourenço

O professor e pesquisador do LabJor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Rafael de Almeida Evangelista, esteve presente na 17ª reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, realizada hoje (11/12), em Brasília. O acadêmico integra a Rede latino-americana de estudos sobre vigilância, tecnologia e sociedade (Lavits), entidade que compõe a Coalizão Direitos na Rede.

Convidado para uma oitiva composta também pelos especialistas Leonel Azevedo de Aguiar, diretor da PUC-RJ; e Diogo Rais Rodrigues, doutor em direito constitucional da PUC-SP; Evangelista abordou sua intervenção focada nos impactos dos fenômenos da pós-verdade e da desinformação na política e na democracia.

“Um dos objetivos do meu trabalho é entender a economia dos dados e da atenção da internet. É entender como o escândalo, o sensacionalismo, o ódio e também as rivalidades políticas despertam a atenção e o engajamento das pessoas nas plataformas. E isso, por sua vez, serve ao lucro das plataformas, que comercializam a atenção e os dados dos usuários”, explicou.

Em 2018, quando trabalhava em um centro de estudos sociológicos de vigilância no exterior, Evangelista iniciou uma pesquisa com grupos brasileiros no WhastApp e no Telegram, com especial destaque para aqueles que fomentaram a greve dos caminhoneiros, notando especial presença de militantes de direita e de extrema direita. Ele chegou a cinco conclusões:

1- Alta presença de informações claramente falsas e forjadas, frequentemente sendo distribuídas simultaneamente em diversos grupos;

2- Alta presença de análises enviesadas ou distorcidas de fatos com o propósito de arregimentar apoio para certos candidatos e correntes políticas;

3- Com frequência os números de telefone dos administradores desses grupos são internacionais, em especial com prefixo dos EUA;

4- Indícios de que esses grupos são gerenciados por uma estrutura única e possivelmente profissionalizada, que incide sobre o fluxo de mensagens nos chats e direciona ataques a pessoas que estão fora ou dentro desses grupos;

5- Manutenção de um controle sobre os membros dos grupos, de modo a que aqueles que se manifestem contrariamente à linha política sejam expulsos ou atacados.

“O cidadão entra em um desses grupos imaginando que são autênticos, em que todos os membros são iguais, são cidadãos como ele. Porém, na verdade, esse membro inocente está sendo monitorado por atores políticos interessados, que operam em diversos grupos de maneira coordenada. Esses atores mandam imagens, áudios, vídeos para diversos grupos e buscam conquistar a atenção das pessoas e persuadi-las politicamente”, pontua Evangelista.

Zero rating no WhatsApp

Créditos: The Next Web

O modelo de negócio conjunto das operadoras de telefonia e das plataformas chamado zero rating — a inexistência de cobrança do tráfego de dados móveis a alguns serviços online, como ocorre frequentemente com o WhatsApp, do grupo Facebook — foi lembrado por ser um “agravante” utilizado como política para países periféricos do Sul Global.

“A informação recebida em canais como o WhatsApp quase nunca pode ser checada. As pessoas que assinam os planos de telefonia mais baratos e com pouca franquia de dados terminam confinadas ao WhatsApp, quando essa franquia acaba. É uma infraestrutura que favorece a desinformação e o espalhamento de notícias falsas”, afirma Evangelista.

“Para combater as fake news, é preciso olhar para os estímulos econômicos que têm sido criados para a disseminação de notícias falsas e, no limite, para o ódio na política. Esses estímulos econômicos distorcidos também estão presentes em estruturas que restringem o acesso amplo à Internet. Estruturas que fazem com que os consumidores de mais baixa renda só consigam acessar ao WhatsApp, sem ter acesso a outros meios para conferir a veracidade das informações que recebem”, conclui.

Confira o vídeo da reunião na CPMI:

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