Aos Amores Pendentes


Aos amores pendentes deixo um recado, deixo marcado meu manifesto tão honesto: Todo o acontecido será eternamente lembrado, ficará em mim gravado como ferida que dali brota raízes de esperanças. Solidão vira aprendizado. Saibam que as mágoas não serão capazes de apagar minha identidade, de amargar minha essência. As escolhas são fardos, amores doentes, ouçam meu conselho… Se despeça de mim sem anseios, para poder te jurar eternidade.

Aos amores vividos pela metade deixo minha mensagem, minha eterna satisfação por ser obrigada a estimular minha imaginação, por saber que a pessoa que se torna nossa paixão é sempre uma invenção. E aos amores sem resposta, sem conceito e nem proposta riem de mim, por graça, por farsa, já não sei. A esses amores sem dono, sou grata, mas já estou farta!

Aos amores em abandono, repito o discurso que me tira o sono. Pois sei que somos forasteiros sem direção, se amando em repleta solidão. Para nós, haverão sempre incógnitas e enigmas, mas nem sempre a solução a palma da mão. Existe espaço para o amor, então? Pois o amor que desiste, é também o que insiste em erros, desencontros, desenganos e confrontos. Veja o que éramos e o que nos tornamos, amores ausentes. Viemos ao mundo com vontades e fomes tão extensas que só sobrou lugar para nós nas fronteiras. Nascemos para sermos amantes da liberdade mas nosso amor foi criado em cativeiro, construído entre as quatro paredes que nos excluíam do resto do mundo. Que insulto!

Aos amores indecisos, deixo as histórias para contar… Nunca soube dizer se o que me mantinha ali era a teimosia imatura que só se dá em meninas, ou se eram as limitações que me traziam rugas insatisfeitas, como uma pobre anciã. Retrato de amores corroídos, vejam as raízes já podres. Olhe só o que plantamos, amores incertos, a porta do abismo é a negligência. É o lavar de mãos, é o auge da indecência.

Aos amores imperfeitos deixo meu reconhecimento. Pois sei que também fui causadora de toda dor vivida, sei que fui vilã e vítima. Assinei meu papel de palhaça, interpretei nossa novela de trapaças. As falas gravadas, regravadas, enviadas, cuspidas e escarradas. Mantive-me presente, amores impotentes, por saber que ainda sou a melhor freguesa de suas ofertas baratas. Nossa bagunça subentendida, suspensa no vácuo, no paraíso ilusório que existe entre nós dois, amores suspensos, amores intensos.

Aos amores sem razão, deixo minha condição: não se aproximem de mim para pedir perdão. Pois sei que nada foi feito ou dito em vão e o que nos separa, amor, são nossas verdades paralelas, são nossos contrastes irreversíveis. A tua doçura que nasce na minha brutalidade e a minha dor que surge na sua ascensão. Não há escapatória, não há solução. O que cria o amor, eu me pergunto, e a o que o amor nos leva. As imperfeições, os estragos, as revoluções. Os abandonos, as falhas nas conexões, o desejar do impossível. Está tudo aí, amores decadentes, o caos de dançar em cima do muro está feito. Reerga-se, limpe a bagunça e siga em frente: mas nunca sem deixar de lembrar deles, os amores pendentes.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Cecilia Fialho’s story.