das palavras que nunca foram ditas

Se isso fosse uma carta para você, eu começaria pedindo desculpas por não ter sido capaz de oferecer aquilo que tanto cobrei: um amor, puro, fidedigno, livre de impurezas ou egoísmos. Pois hoje, são os meus erros que me atormentam na madrugada, não os seus. É o manto frio do remorso que ouço pra perto fingindo reconforto na minha autocrítica. Mas até os menos sábios sabem que de nada lamentar pelo passado, que lágrimas sob o leite derramado azedam ainda mais rápido.

Eu diria que te entendo, que te perdoo. Eu me consolaria com a ideia de que deve haver espaço para o ódio no amor nesse mundo caótico, diria que pode haver cólera até nos mais bondosos corações e que, principalmente, nunca será tarde para tentar diferente.

Hoje a minha convicção de outrora não me acompanha mais. Meus pilares confiantes foram destruídos pelas chamas do lado obscuro desse amor. E eu não diria que estou pior. Eu não fui derrotada em coisa alguma. Hoje percebo que essa destruição foi o meu despertar. Minha chance de perceber que muitas das minhas estruturas eram falsas, que tantas vezes baseie-me em ilusões, fantasias, suposições ingênuas. Há um corte de navalha cega em mim que não sangra e nem cicatriza. Ela é o lembrete de que o superficial não basta. De que nada adianta fingir mudar, fingir ouvir, querer e não tentar. Que o pouco nunca basta, que o esforço deve ser contínuo e doer faz parte. E é por isso que hoje toda vez que eu tomo uma decisão imediatamente lembro de você e dos seus olhos cansados. Da forma como você me encarava e dizia distraidamente “você está errada”, enquanto puxava o décimo quinto cigarro do dia. E é a isso que sou grata é que sinto muito.

Queria dizer para você, sem precisar de palavras ou gestos pomposos, que eu sempre encontrarei algo bom para dizer sobre você, e agradecer a vida por esse encontro, cada desavença, cada contraponto. É isso que me conforta. O amor que resta após a guerra. Aquilo teimoso que cisma em ficar, em transformar, em reconstruir. Ah, como são tolos os corações desse mundo! Hoje somos a plantinha tímida que vive entre as ruínas. Pudera eu ser árvore e fazer sombra para um fim de tarde ao teu lado, desfrutando da serenidade de quem plantou um amor com cuidado.