Dois amigos em confronto e uma carta de conforto

Tu vieste ao meu encontro como já acontecestes outras vezes. Tu vieste. E eu não lhe neguei afago. Viste, Cecilia? Como tua violência e tua solidariedade me contamina? Como posso me tornar exatamente igual a ti quando necessário, e, ao mesmo, mostrar como de ti me diferencio?

Tu vieste ao meu encontro antes que eu pudesse me desculpar por minhas falhas. Pois tu precisastes de mim antes da minha consciência doer ao ponto de tentar me redimir. Não possuo tua clareza, tua força. Não sinto necessidade de ter a coragem e a fome que tu tens. Não nasci pra ser nobre, nasci pra ser Eu. E tu, Cecilia, esperas que por termos tanta afinidade que eu seja exatamente igual a ti. Você não se conforma com os nossos contrastes, esperas que alguém possas admirar seus feitos ao nível de repeti-los e levá-los como metas para a vida. Não sou assim e tu sabes. De nada sou padrão e jamais me imponha o contrário. Sou fiel apenas a minha arte e aos meus devaneios, e não tenho vergonha de ser assim. Ouviste, Cecilia?

Pois tu não sabes como lido com a minha mente e o que preciso fazer para manter minha sanidade, mesmo que para isso eu precise ter criado um novo conceito para tal palavra. Tu nunca mediu os esforços que eu precisei para lidar com meus vazios e meus excessos. Peço, nesse minuto de glória e sobriedade, que respeite minha liberdade de ser exatamente o que me tornei. E tu, ora, criatura da palavra, propagadora da moral dos costumes ideais, me mostra como sabes ser mísera em seus momentos de fé abalada. Quem é o teu Deus nas horas de lágrimas? A quem recorre quando não consegue suportar sua própria voz, seus próprios feitos? A mim! Aquele que tanto criticas e subestimas.

Veja como éramos e o que me tornei. Será mesmo que deixamos aquelas crianças para trás? Que a perda da inocência nos corrompeu em definitivo, sem caminho de volta pra casa? Sei que deixamos histórias nas esquinas que percorremos e que ainda nos perseguem. Mas hoje carrego a convicção que o que nos une, não é mais o que nos uniu no passado. Passaram-se sete anos, Cecilia, tu lembras?

Mas sei também que seu amor me dominou. Tua forma singular de demonstrar seus afetos, e como a imensidade do seu amor sempre me assombrou. O seu olhar preocupado que pousava em mim a cada vez que eu desabava em teus ombros minhas dores, minhas incertezas. Já não te vejo mais como na primeira vez. Não vejo. A maturidade me cegou e ainda não tenho certeza se orgulho-me do reflexo que o Outro enxerga. Pois sei que muitos, enxergam um rapaz do qual já não sou ou nunca fui. As distorções que são faladas ao meu respeito, impõem a mim uma nova identidade, que nem sempre sou capaz de lidar. De reconhecer qual atitude seria louvável, adaptável e viável ao que eu faria e ao que pensam que eu faria. Reservo-me aos meus abrigos, aos meus costumes, a doçuras alheias. Dedico-me a arte como forma de poupar idas ao psiquiatra.

Mas, de qualquer forma, sua presença me conforta. Me alivia nas horas intensas e me liberta nos momentos de extrema solidão. Estarei do seu lado não da forma que esperas, mas da maneira que sou capaz. Errei contigo ontem e provavelmente errarei amanhã, mas uma coisa eu posso garantir:

Meu amor por ti, permanece aqui, intacto.

E você duvida.

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