Uma partida de futebol

Os jogadores estavam em campo. Prontos para mais um clássico.

O jogo prometia ser longo. As duas equipes carregavam na memória o histórico de inúmeras partidas já enfrentadas.

Nos preparativos para o próximo jogo, pensavam ainda na partida anterior — empate justo -, onde ele jogava em casa, com vantagens da boa preparação, da tradição do elenco. Era o artilheiro das palavras, assim como o árbitro delas. Seu time estava completo. Já eu, no entanto, entre esquemas táticos inovadores e chutes bem agarrados, entre ataques promissores e defesas medíocres, espero que haja sorte no dia do jogo. Talvez, uns três ou quatro passes certos me levem à vitória. Eu jogava para ganhar a partida, manter a posição na tabela. Já ele, jogava pelo título. A emoção das arquibancadas, o calor das ruas, a pressão dos reservas, deixavam ainda mais acirrada a disputa suada de nossas escolhas incertas, que nos levariam a tão sonhada vitória.

Todo dia era dia de treino. Os técnicos — ou talvez forças maiores — adiavam constantemente a data do próximo jogo. ‘’O tempo anda instável demais’’ Eles diziam. A Comissão Brasileira do Futebol para Amantes já estava ficando puta. Queria logo que alguém ganhasse aquilo pra acalmar a imprensa. Meu time adversário chamava atenção. Brilhava em campo mesmo sem nunca ter conseguido erguer a taça de campeão do (seu) mundo. Treinava todo dia. Em uns, se aquecia comigo para jogar com a vida, em outros, se aquecia com a vida para jogar comigo.

Mas hoje é dia de jogo. Me sinto inquieta.

Os comentários pré-jogo são totalmente irrelevantes. Apostas, tensões, procuras de distração em vão.

Bola rolando.

Camisa 10 atuando.

Até o nosso juíz(o) se sente pressionado.

Estou te encarando. Após uns cinco minutos de passes dados, o jogo tomou o seu rumo: um passe perfeito vindo do lateral esquerdo (do peito) me levou a frente do gol, sem chance de defesa. Lá estava eu, pronta para amar a nossa vitória, até que…

Tropecei. Me rendi aos passos corridos e cansados.

Nunca mais joguei futebol na vida.

(Mas ainda sou Flamengo.)

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