A arte imita a vida?

Quem me conhece, já sabe que eu amo dar esses hiatos infinitos (só que não). Estive sem muito tempo — nem condições mentais — para escrever algo na minha segunda casinha. Mas agora estou estável e livre para trazer verdades que a escola não trouxe! *pula*.

Outro dia, perguntei a uma pessoa se havia um porquê de telenovelas mexicanas serem tão exageradas. Ela me respondeu: “Porque os mexicanos são assim, oras. A arte imita a vida, não é verdade?”. Mentalmente, respondi que não. Mas, afinal, se a arte não imita a vida, o que ela faz?

Don’t panic, Inês Brasil!

Para responder a pergunta, é preciso rebobinar as fitas e voltar mais de dois mil anos no tempo, parando na Grécia Antiga. Aristóteles já tratava desta questão artística em sua Poética. Ele cunhou o conceito de mimese, usado nas Artes e mesmo na Biologia — neste caso, o fenômeno do mimetismo. Este termo emergiu na época do Renascimento, quando as pessoas puderam revisitar os grandes pensadores da antiguidade e traduzi-los. A arte deste período era somente uma cópia do que era produzido pelos hermanos greco-romanos.

Logicamente, o conceito aristotélico foi entendido de maneira errônea. O próprio homem livre disse que mesmo a coisa mais grotesca ou triste, na arte, causaria prazer no ser humano. Sendo assim, mimese NÃO é imitação, mas uma representação do real. Acrescento que essa representação pode ser também uma transfiguração, às vezes.

Que tal entender a mimese na prática? :D

Os Elefantes, de Salvador Dalí

No mundo em que vivemos, não existem elefantes com pernas magérrimas e gigantes, não seria vantajoso para a sustentação de seus corpos. Porém, nesta calorosa obra de Salvador Dalí, podemos enxergar, mais uma vez, que as construções humanas não tem compromisso com a verdade. Nem mesmo aqueles textões do Facebook. Deal with it 8-)

Mimetismo animal

Mesmo a evolução tem sua maneira de representar o meio ambiente, ainda que de maneira inconsciente. O mimetismo serve para as espécies se misturarem ao lugar, seja para despistar um predador, seja para conseguir a caça com mais destreza. É tudo uma questão de adaptação.

Foca nas fontes!

Algumas civilizações mimetizaram as pessoas, a natureza, enfim, as coisas ao seu redor a partir da escrita. Um exemplo que gosto muito é o próprio kanji, ideograma usado em nações como a da China e do Japão (as Coreias usam o Hangul). Esta foto é interessante pelo fato de enfatizar que evolução nem sempre é “melhoria”. As pessoas tendem a pensar que a borboleta é a evolução da lagarta; que o Homo sapiens é o ápice da humanidade e que, por a língua variar demais, ela não evolui. Evolução, principalmente no sentido darwiniano, é adaptação. É muito mais cômodo e rápido desenhar tracinhos do que um desenho perfeito, não é mesmo? :)

Mapa colorido de Utopia, da obra A Utopia (Thomas More)

Já sabemos que a poesia é pura mimese e não é diferente com a prosa. Este ano, graças à professora Ildney Cavalcanti, conheci um pouco mais acerca dos estudos da utopia. Seu nascimento data 500 anos com o lançamento da obra Utopia, do chanceler Thomas More (Ou Mórus). A utopia é o ancestral comum de inúmeras obras, quer na Literatura, quer nas artes plásticas, quer no cinema, quer nos jogos. Até a política.

A ilha de Utopia é a transfiguração da nossa realidade, pois tudo é mais igualitário, mais pacífico, iluminado. Claro que tem aquele um porcento que breca, afinal, como o próprio autor propôs em sua brincadeira linguística e tantas outras ambiguidades, o bom lugar não existe.

Um agradecimento especial à Ildney e ao professor Roberto Sarmento Lima.

Enjoy!

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