.19 — Entendeu? Ou quer que eu desenhe?
Uma das coisas mais fascinantes da animação é o quanto elas podem ser intensamente profundas, mesmo que sejam incrivelmente simples. Este curta de Loek Vugs foi um trabalho de graduação apresentado em 2017. As pinturas de texturas mescladas com desenho digital retratam tanto a metalinguagem desse vídeo, quanto o próprio discurso em si.
Analógico vs Digital. 2D vs 3D. Película vs 4K. Esse binarismo da sétima arte difere de qualquer outro com que lidamos no dia-a-dia porque em vez de limitar, ele se amplia e se aprofunda. Inúmeras vezes se mistura. Permite-se para impactar e comover o espectador. Nesse curta, por exemplo, o minimalismo sugerido pelos traços do desenho, discursando sobre a digitalização de momentos rotineiros da nossa vida. A dualidade nos é apresentada com uma naturalidade… é simples, é simbiótico.
Não foi preciso colocar carros se transformando em robôs, nem batalhas intergalácticas com híbridos máquina-homem — sem desmerecer, claro, a criatividade dessas vertentes. É que, às vezes, estamos olhando tão fixamente para a grandeza de um quadro, pensando em tanta informação, que esquecemos que a qualidade está, na verdade, no pixel. Naquela pincelada em que o artista colocou um pouco mais de tinta para dar uma luz diferente. No ponto. Naquele quadradinho pequeno que vai compor o todo.
Você já parou pra pensar em como a gente fala demais? Ou pensa demais? É um overthinking e um overspeaking crescente. Uma necessidade de oferecer mais e mais, de querer consumir mais e mais, que nos coloca num looping de ansiedade por comunicação. E esquecemos que a maneira como pensamos é fragmentada. Que agrupar por pedaços menores é mais fácil de compreender e assimilar do que ter diante de si um bloco indivisível.
Creio que esse trecho de Inside Out (Disney, 2015) pode resumir bem o que eu tenho falado.
Aliás, esse filme da Disney é o meu Inception (2010). Volto a assistir de tempos em tempos para aprender algo novo ou ter uma nova perspectiva.
Acontece que com a animação parece que fica mais fácil de compreender porque pensamos e, logo, existimos tão complexamente. Quando, na verdade, deveria ser um processo bem simples. Talvez seja ridículo levantar essa questão, mas já parou para pensar no significado daquela típica frase “entendeu? ou quer que eu desenhe?”. Eu sempre peço para desenharem.
