Como escrever um livro por ano

Toda vez que eu discuto meu método de escrita com alguém, escuto que ele não é para todo mundo. Entretanto, a cada texto que termino, cada vez mais rápido, duvido mais dessa incerteza. Ele pode até não ser para todo mundo e todas as histórias, mas eu acho que todo escritor deveria experimentá-lo, ainda mais no começo da carreira.

Ois, meu nome é Cecília. Estou escrevendo com intenções profissionais e ambição desde 2015. Desde então, escrevi dois livros, Os Cavaleiros do Inverno (Editora Wish, 2016) e Os Votos da Princesa (em revisão). Esse fim de ano, eu escrevi um conto num total de três horas divididas em três dias. Esse artigo aqui levou duas horas e meia, entre escrever e editar. Há dois anos, quando comecei, esse ritmo seria impensável. Agora é normal :)

Quando me propus a aprender a escrever romances, eu estudei todo manual de escrita que encontrei disponível na Amazon, focando em prosa, pesquisa e planejamento. Entretanto, os manuais que mais me ajudaram, acredito, foram os de técnica. A maioria deles tem nomes de auto ajuda. “2000 palavras por dia” “21 maneiras de escrever mais rápido e melhor” “Como terminar seu livro”. Todos eles insistem na mesma técnica, que é a que eu vou explicar aqui.

Ela pode não ser a que vai resolver todos os seus problemas, mas você vai usá-la ao menos uma vez para terminar algum texto. Eu tenho certeza disso. Esse método é famoso porque ele é usado no Mês Nacional de Escrita de Romances, o Nanowrimo.

Ele se baseia em três aspectos:

  1. Controlar a ansiedade com métodos práticos.
  2. Deixar as palavras fluírem.
  3. Não revisar antes de chegar no final do texto.

A Mente do Macaco e a Mente do Narrador

Há algum tempo, viralizou o vídeo de um monge budista falando da importância da meditação para controlar o que ele chamou de “Mente de Macaco”. A mente que salta de pensamento a pensamento, sem foco ou controle, a mente estressada de cidadão conectado do século XXI, prisioneiro da correria e das redes sociais.

Se você é um escritor, você conhece como a Mente de Macaco é poderosa. De repente, você está respondendo um e-mail ou checando a timeline do facebook, quando há cinco minutos atrás você estava trabalhando no seu texto. Num movimento em falso, uma hora de trabalho se reduz para quarenta minutos e isso só se você conseguir focar no resto do tempo.

A Mente do Narrador é bem diferente. Ela não pula de um lado para o outro. Ao contrário, ela é um rio em lenta corredeira, um fluxo constante de palavras conduzindo a voz do narrador de momento a momento da sua trama. Ela é disciplinada, controlada e serena. Em uma hora, eu escrevo 1000 palavras. Já cheguei a 1500 num dia bom (e quase chorei). Isso só acontece quando eu e ela estamos em sintonia.

O método de vomitar palavras trabalha com fortalecer a Mente do Narrador através da disciplina, do hábito e de escrever mais rápido do que a Mente do Macaco consegue inventar algo novo para te distrair. Não estou dizendo que vamos eliminar as interrupções, mas estou te garantindo que vamos pegar o tempo que você tem e fazer mágica com ele.

Enfraquecendo a Mente de Macaco, ou lidando com a sua ansiedade

Cá estamos, você e sua velha inimiga, a página em branco. Você tem algum tempo antes do seu telefone tocar, da mensagem do whatsapp chegar, da sua família entrar na sala e te interromper. Com sorte, você tem uma hora. Na pior das hipoteses, você tem aqueles 20 minutos depois do almoço.

Você tem seu planejamento de plot ou o sumário da sua tese (mas talvez, se você for como eu, você tem no máximo uma ideia vaga de onde quer chegar). Você já fez sua pesquisa, já pensou em cenário, em argumentos e diálogos. Em seu cérebro, meia duzia de frases de impacto estão girando. Você quer fazer isso direito. Quer acertar. Quer escrever bem.

Você pensa no melhor jeito de começar. Escreve e apaga. A ansiedade sobe. Seu cérebro, que não sabe lidar com ela, pula para alguma rede social para não ter de lidar com a sensação horrível dos seus miolos fritando.

Isso é a Mente de Macaco em seu comportamento mais rotineiro. Ela te tira de um problema e coloca em algo mais fácil de lidar. Se você tem sorte, você só passa pelas distrações leves. Se você é como eu, você entra numa espiral de dúvida, de culpa e de se sentir a pessoa mais incapaz do mundo. Você tenta fugir, calar os pensamentos ruins e evita lidar com sua frustração.

Mas calma. Todo autor tem seu momento de se sentir o pior escritor do universo. Escrever é um exercício hercúleo de concentração e esforço criativo. É dificil mesmo.

O importante é ter resiliência. Não se desespere. Não desista. Uma vez que você se perceba interrompendo a tarefa, ou até mesmo fugindo dela, volte para onde estava. O problema não é você sair do editor de texto, o problema é você nunca voltar.

Toda vez que você ficar lúcido da sua ansiedade, volte ao editor de texto. Com o tempo, o hábito de voltar ao trabalho será tão rotineiro quanto o de escapar dele.

Se você sofre da espiral de culpa como eu, existem maneiras de lidar com isso. Infelizmente, é um misto de resiliência, força de vontade e uma boa dose de terapia. Não posso te dizer como tratar da sua ansiedade, mas ao longo do texto eu vou te dar estratégias para fortalecer a mente produtiva. No final, nada cala o meu medo de falhar melhor do que ter concluído mais um pedacinho do projeto.

Fortalecendo a Mente de Narrador, ou vomitando palavras

Você sente uma pontada de gosto. Algo está surgindo. Uma frase vem na sua cabeça. Uma fala, ou uma descrição, ou uma linha de raciocínio bem leve. Ela está solta e um bocado bêbada, rodopiando por aí, sem contexto. Nada de concreto, nada brilhante ou inspirado. Você ignora aquele pedaço de ideia e deixa ele ir embora, esperando o momento em que outra frase virá, quiçá mais formada, mais inteligente.

Parece uma brincadeira de mal gosto. Sua Mente lhe joga esses fragmentos apenas lhe dando um gostinho do que poderia ser, mas nada é bom o bastante. Nada te lembra aqueles belos parágrafos de seus autores favoritos. Você lê tanto, então porque raios é tão difícil conceber um bom texto?

Se você tem uma carreira de escrita curta, como eu, sua Mente de Narrador ainda está atrofiada. Ela é uma criança que só consegue ter alguns pulsos de genialidade, mas nada extenso. Fragmentos são tudo que você consegue conceber. Mas se você não estimulá-la a crescer, ela vai ficar sempre paralisada nesse estágio.

Preste atenção no que ela diz. Coloque no papel, por pior que pareça. Tudo. Cada palavra, cada impulso. Na primeira vez, você vai escrever uma frase, com sorte. Depois de um ano fazendo isso, você vai conseguir delimitar um parágrafo inteiro sem sentir uma gota de dúvida. Depois, dois e três, quem sabe uma página toda.

Eu sei que é difícil. A Mente do Narrador que ainda está aprendendo vai falar umas coisas muito toscas. Ela vai colocar gírias modernas no meio do seu romance de época. Ela vai descrever o caminhar elegante do seu personagem como “olha esse babaca pomposo entrando na sala se achando o rei da bala chita”. Ela não sabe fazer suspense, nem romance, nem poesia. Ela só sabe te levar de um ponto ao outro da cena.

A Mente do Narrador é o alicerce do estado de escrita profundo em que você se torna altamente produtivo. Uma vez que você se acostuma a ouvir o que ela diz e se fechar na bolha, só ela e você, vomitando palavras, você se encontrará retornando mais facilmente para esse momento de alta criatividade. Não se assuste com essa simbiose com essa voz patética e meio louca. Ninguém vai ler as bobagens que ela fala. Você vai editar tudo depois. E ela melhora com o tempo, eu prometo.

O importante é ver onde ela vai te levar até o final da cena e se permitir as surpresas que ela traz. O importante é que juntos, vocês vão chegar ao final da cena. E agora que você sabe exatamente o que tem de acontecer ali, é muito mais fácil trocar palavras ruins por palavras boas na hora de editar.

Evite a fissura da obra prima

Dizem que escrita é um trabalho de paciência e que a obra prima requer um certo debruçamento para existir. Isso não está errado. Seu livro vai exigir longas horas de reescrita e releitura. Uma boa prosa é resultado de uma leitura cuidadosa, de uma preocupação com o encaixe de uma palavra após a outra para manter o fluxo do leitor dentro do seu texto.

Entretanto, estamos trabalhando com maximizar a quantidade de palavras no papel, fazendo cada segundo valer. Escrever um parágrafo ruinzinho é imensamente mais fácil que escrever um parágrafo brilhante. E editar um parágrafo ruim em algo bom é imensamente mais fácil que escrevê-lo do nada.

Se você se preocupar com poesia sem nem mesmo saber como a sua cena vai acontecer, seu tempo terá acabado e você terá escrito um único parágrafo, muito bonito, mas sem ideia de como continuar da próxima vez que se sentar. A maioria de nós, que não tivemos uma aula sequer de escrita criativa na vida, temos o problema de querer fazer o belo sem perceber que estamos pulando etapas do trabalho. Usando a metáfora de um escultor, é como se você quisesse garantir que sua escultura tem um belo rosto sendo que você ainda nem comprou a argila no mercado.

Quando você se sentar para escrever com o cronômetro girando e a ansiedade borbulhando, não se preocupe com nada. Não tenha ambições. Apenas tente dar mais um passo em direção ao final da cena. O momento de pensamento crítico e suor devem vir, sim, mas penso que a primeira versão de um texto DEVE ser escrita em um curto tempo, antes que a ideia fique cansada e caduca. Antes que você se torne uma pessoa diferente que não tem mais interesse naquele projeto.

Seja paciente consigo mesmo

É importante ser realista e ter metas que podem ser concluídas. Já que queremos diminuir a ansiedade que alimenta o escapismo da Mente do Macaco, devemos diminuir as frustrações do processo de escrita.

Ter um planejamento de rendimento ajuda a manter o foco. Se você se compromete a escrever 300 palavras (uns 3 parágrafos) antes de ir fazer outra coisa, então você vai alimentar sua Mente de Narrador tempo o suficiente até aquelas palavras virem ao papel. A meta de chegar a escrever 1000 palavras por hora é bem legal, mas durante muito tempo você vai levar uma hora e meia apenas para escrever essas 300. Tudo bem, porque a sua Mente de Narrador vai ficar mais forte a cada dia. Um dia, você vai ter um ótimo dia de escrita porque, ao invés da meta mínima, você conseguiu fazer 500 palavras.

Mas se você quiser tocar as 1000 desde o princípio, todos os dias de escrita serão dias abaixo do rendimento.

Além disso, boa parte de ser uma pessoa produtiva é conseguir entender e lidar com as necessidades do corpo e do espírito. Se você sentar para escrever com fome, cansado e irritado, provavelmente terá um dia ruim de escrita. É preciso se conhecer bem o bastante para encaixar seu tempo produtivo nos horários em que sua mente está mais disposta e desperta.

Persista

Escritores escrevem com frequência. Não tem como criar um atalho para isso. Se você deseja concluir um projeto, você tem de retornar a ele e acrescentar algo, nem que seja meia dúzia de ideias anotadas no rodapé. Ouvir e cristalizar aquilo que a Mente de Narrador te sussurra é um exercício constante, mesmo em momentos inoportunos. Você vai aprender a andar com um caderninho ou com um aplicativo de notas no celular, porque aprendendo a confiar na sua Mente de Narrador, você não vai querer perder nada do que ela diz.

Se você persistir em alimentá-la, ela vai te revelar grandes histórias :)


Se você quiser uma descrição mais extensa desse processo, eu te recomendo o livro Domine o Hábito da Escrita: Como Escrever 2,000 Palavras por Dia e Curar Para Sempre o Bloqueio de Escritor. Disponível na Amazon Kindle.

Miga, para de viajar e vai escrever