Si si fu

Com as mãozinhas sujas de bosta a mosca realiza seu movimento pendular crítico aos berros, concentrados em aforismos do gênero textual louco de rodoviária. Pés tortos, pernas que não lhe sustentam, metade do rosto e um braço paralisado. Boné azul, camisa vermelha e bengala na mão, a denunciar a irracionalidade desta Brasília. Eis que a bengala quebra. Presa ao solo, a mosca perde uma de suas únicas qualidades: voar. O zumbido continua com maior verdade.

— Essa Brasília é tão desgraçada que até minha bengala quebrou!

Pouca coisa a se fazer. A não ser que ache um cabo de vassoura pra emendar a muleta, é melhor deitar ali no chão mesmo e dormir. Se tentar andar, vai cair. O pé entorta e a clavícula quebra. Tá vendo? Foi só falar que esconderam a vassoura. Porque viu que tava precisando. Tô nem aí. Quanto mais humilharem, mais feliz vou ser. Outro dia falei pro cara bem assim:

— Quantos prédios desse você tem? Duzentos? Pois você não tem o que eu tenho.

— O que é que você tem?

— Pra ser mendigo, você precisa ter simplicidade, educação e força. Você não tem nem o que precisa pra ser um mendigo, é mais fraco que um mendigo deficiente, e eu ainda pedi dinheiro pra você, mas não devia ter pedido, porque você tem menos que eu, um mendigo deficiente.

Estendi a mão pra ele e falei “meus pêsames”. Tirei onda. Depois me deu oitenta centavos.

Perguntaram se sou feliz mesmo com todo meu sofrimento. Respondi: “Claro! É a única coisa que eu tenho pra me divertir. Vou ser feliz com o que? Com o dinheiro dos outros? A saúde dos outros?”. Minha alegria é ter dinheiro pra comprar meu remédio pra não ter outro AVC, é comprar uma torta, que é muito mais cara que os outros salgados, mas é praticamente uma janta, um almoço.

Às vezes pago lanche ou pinga, dou cigarro pra alguém e peço ajuda pra pegar uma caixa de papelão pra eu dormir e a pessoa ainda nega. Pago com meu dinheiro. Posso dizer que é meu, né? Se me deram e coloco no bolso, é meu. Dinheiro que eu ganhei. Se peço 10 centímetros dum cabo de vassoura, ainda vão me negar. Capaz de ficarem com raiva e fazerem maldade comigo quando eu dormir.

Consegui arrumar comprovante de residência pra me inscrever no negócio lá e ganhar muleta e uma órtese pra mão. Sabe quando foi isso? Tem mais de dois anos. Eles fazem tudo que fazem com nosso dinheiro e a gente ainda tem que pagar pra eles ficarem lá.

Talvez no lixo eu ache um cabo de vassoura. Dividindo espaço com os ratos que correm quando me aproximo. Pode ser que me confundam com cobra quando me arrasto. O rato tá mais gordo que eu, mas não invejo também não. Como é que vou querer ficar bonito de muleta? Ninguém consegue. Só o Bezerra da Silva.

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