Aqueles dias na ilha — Um: do tempo em que Jesus me seguia

“pois eu sei que és aquele que me guarda”

Quarta, 28. Pouco mais de nove da noite. Cheguei a Florianópolis. A casa que seria minha pelos próximos dias ainda estava um tanto vazia, algumas meninas dormiam. Eu já tinha colegas de quarto e, como terceira a chegar, tive que me acomodar na cama de cima de um dos dois beliches — é claro que as minhas pernas curtas não facilitaram as coisas e eu já comecei passando vergonha e indo dormir com aquele desconforto emocional, abraçada ao desejo de voltar para casa.

No dia seguinte, eu estava nervosa, e tentava ligar o nervosismo à situação ridícula com o beliche. Mas a verdade é que todos os problemas em encarar o novo que ainda existem em mim gritavam, insanos, de algum lugar aqui dentro. A experiência seria toda inédita, o lugar não era familiar e, a “pior” parte, as pessoas mais conhecidas eram alguns amigos de amigos por quem eu já havia passado… na internet.

O primeiro dia oficial, como se pode imaginar, foi de apresentações. Incontáveis apresentações. E eu não fazia ideia de quantas vezes repetiria a mesma história, o mesmo texto de olha-foi-assim-que-eu-cheguei-até-aqui.

Foram muitas vezes. Muitas vezes. Muitas.

Foram tantas vezes que, num dado momento, saí do estado travado de quem, com medo, conversa com desconhecidos e passei a me abrir com amigos. E então, na medida em que eu repetia as palavras outra vez e outra vez e outra vez, a minha história começou a falar comigo.

Tendo conhecido Jesus durante a adolescência, mas sem maturidade — na vida e na fé — para aguentar os trancos do caminho, virei as costas para Deus e passei um longo período distante dEle. Eu pensava sobre isso, quando episódios começaram a voltar à minha mente. Todas as decisões estúpidas que tomei. Todas as atitudes ainda mais imbecis. Vezes em que voltei de festas de madrugada, sozinha, completamente bêbada, caminhando por lugares em que eu não deveria estar. Vezes em que fui tão irresponsável com a minha vida, minha integridade física, minha saúde. Vezes em que lidei com meu dinheiro de forma inconsequente, me afundei em dívidas e me coloquei em situações que eu jamais viveria se tivesse apenas parado e feito as contas. Vezes em que fui negligente com a minha casa, o meu trabalho, os meus estudos. Vezes em que busquei conforto em muitas compras, muita comida, muito álcool. Vezes em que depositei todas as minhas expectativas de felicidade em relacionamentos completamente vazios. Vezes em que fiquei cega para o mal que esses relacionamentos estavam me fazendo. Vezes em que eu procurei em ideias humanas as respostas para preencher as minhas lacunas. Vezes em que decepcionei profundamente pessoas, e elas continuaram me amando. Vezes em que coloquei a culpa em Deus pela minha infelicidade porque “Ele poderia mudar aquilo se quisesse”. Vezes em que, tarde da noite, desesperada, eu disse “Jesus, se você estiver mesmo aí, me deixa morrer enquanto eu durmo”.

Foi olhando para essas coisas, que eu percebi o óbvio: quando virei as costas, não deixei Jesus para trás. Ele veio comigo, me seguindo, por todo esse tempo. E quando eu não quis estar com Ele, quando eu não ouvi a voz dEle, quando eu neguei o amor dEle, quando eu escolhi fundamentar a minha vida nessa confusão que eu sou, o meu lugar de descanso era a sombra que Ele fazia com as mãos, discretamente, sem que eu pudesse perceber.

O Deus que é o soberano sobre todas as coisas que existem, que já existiram ou que ainda existirão, é o mesmo Deus de inexplicável amor que não invadiu o meu espaço enquanto eu não o queria, mas pacientemente me acompanhou de longe, uma distância segura, e me guardou.

E Ele não apenas me seguiu, como também carregou toda a minha bagagem. E os excessos. E a bagunça.

E estampou na minha vida uma verdade que sempre vai me deixar maravilhada, e que só pode ser plenamente praticada por um amor que o coração humano não explica. A verdade de 2 Timóteo 2:13:

“ se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo”.

(Ele é sempre Deus, Ele é sempre bom, Ele é sempre amor, e sempre é tempo de voltar para Ele).

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Entre 28 de junho e 06 de julho, estive em Floripa participando da Escola de Inverno do FHOP — Florianópolis House of Prayer. As principais memórias sobre o que eu vivi, aprendi e sobre o que Deus falou comigo durante esse tempo serão publicadas semanalmente, numa pequena série de textos que chamei de “Aqueles dias na ilha”.

Todos os textos já publicados podem ser lidos aqui.